Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 23/04/2015

Musica, amor, respeito – uma reflexão cadeirante

por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Esses últimos tempos são tempos de reflexão, pois acho que um dia você tem que parar e refletir o que fez e o que você tem que fazer. Algumas pessoas refletem alguns pontos com textos, outras por frases, eu costumo refletir na vida com a musica. Não importa se é ou não em português, a musica é universal e toca o seu coração e pode atingir sua alma de uma maneira, que a reflexão pode atingir profundezas imagináveis. A musica “How soon is now?” da banda The Smith me faz refletir na sociedade em geral e a historia dessa musica é muito interessante, pois por muito tempo, por o vocalista Morrissey ser homossexual, a musica virou um hino lá fora da critica social desse segmento. Mas se pode perfeitamente, ser estendido para qualquer segmento, para qualquer pessoa que nasce numa sociedade e por ser diferente da normalidade, ele é discriminado e vira um “estorvo” social dentro dessa mesma sociedade. Porque a musica fala da sociedade que herdamos, mas nos julga como um “erro” a ser corrigido.

A musica começa “Eu sou o filho/e o herdeiro” fazendo jus que somos filho e herdeiro da sociedade em si mesma. Ele (Morrissey) já começa dizendo que nascemos dentro da cultura, não nascemos o que somos, somos filho e herdeiro da sociedade e de sua cultura. Se pensarmos num modo psicanalítico, por exemplo, que vários pensadores, filósofos e profissionais usaram ao longo desses anos, não existe pessoas com deficiência, ela se torna. Ai você pode dizer: “Ah! Mas eu estou vendo que sou uma pessoa com deficiência e preciso de cuidado”, dai te respondo que a deficiência pode existir em âmbito corporal, com suas limitações e tudo, mas não tudo que o termo em si carrega como senso comum. O que é uma pessoa com deficiência? É uma pessoa que não tem mais a mobilidade (eficiência) para fazer certos movimentos, certas tarefas que não alcançam (apesar que muitas coisas estão sendo adaptadas). Mas outros estereótipos carregam o termo “pessoa com deficiência” – mesmo que alguns digam que a novela tenham ajudado, ela alimentou alguns estereótipos e alimentou também algumas generalizações como se todas as pessoas cadeirantes fossem paraplégicas – como “aleijado” que não pode fazer nada, “assexuado” que não pode casar ou namorar, “deformado” ou “defeituoso” como se fossemos objetos que se fabricam e viemos com defeito e que não podemos trabalhar. Então, ao mesmo tempo que somos filhos e herdeiros da mesma cultura, não somos aceitos nessa cultura e a musica segue dizendo: “De uma timidez que é criminosamente vulgar/Eu sou o filho e herdeiro/De nada em particular”. Uma timidez não é aceita porque é misterioso, o ser humano em sua natureza tem medo de mistérios e então, a timidez ou o silencio, é criminosamente vulgar. Toda atitude ou opinião vulgar é ruim, é grosseira, porque não se encaixa na erudição porque pertence ao povo, a plebe. Pois se torna algo criminoso, errado, porque é vulgar. A timidez pode ser encarada como um silencio vulgar, porque é grosseiro você hoje em dia não querer ir as “baladas”, não gostar de coisas que todos gostam. E como disse, o silencio se torna algo amedrontador, algo que atormenta e assusta o outro.

Talvez, essa “timidez criminosamente vulgar” seja a não assumir nossa condição, nossa verdadeira identidade e o que somos verdadeiramente e então, não somos o que somos e sim, somos um produto do que nos fazem ser. Dai voltamos a dizer que não nascemos homens, não nascemos mulheres, não nascemos pessoas com deficiência, porque não existe pessoas com deficiência. Existe uma “limitação”, mas não existe uma “de+eficiência”. Vários teóricos e acadêmicos, não explicaram, que esse “de” é um sufixo de negação, pois na verdade, esse “de” é um “não a”, ou seja, isso remete a “não eficiência”. Assim, o poder nos remete a dizer que não temos eficiência como os outros e por isso temos “necessidades especiais”. Mas qual a diferença em ser “pessoa com necessidades especiais” ou “pessoas com deficiência”? Nenhuma. Isso são só nomenclaturas sociais que rementem a uma classificação para serem chamados, ou seja, sofremos ao nascer uma especie de “carimbo” igual o gado, para saber o que você é e o que você faz. As terminologias são de ordem moral, porque dependem muito da visão social que elas são usadas e essas ordens morais, são aproveitadas pelo poder para espalhar estereótipos errôneos propositalmente. Anos atrás se usava “defeituoso” ou “aleijado”, depois “deficiente” até chegarmos a “pessoa com deficiência”, mas acima de tudo somos já pessoas e queremos ser pessoas sem os diversos estereótipos. Mas Morrissey teve a sacada certa, pois ele colocou a timidez como uma culpa daquilo que ele não conseguia assumi o que era, ou seja, a verdadeira natureza dele é “vulgar” porque todo mundo julga (por isso criminosamente) como sendo errado. Então, o certo no mundo moderno, é ser branco, “macho” para encarar os fatos, sempre querer trabalhar porque o trabalho enobrece o homem (umas nas maiores falacias do mundo), o mundo é assim e não muda. Mudar requer um ato de mudança e nem todo mundo esta pronto a mudar o seu mundinho gostoso, confortável e que nenhum perigo vai lhe incomodar. Assim sendo, uma pessoa com deficiência exigindo seus direitos são “chatas”, um negro exigindo respeito é uma pessoa “chata”, um gay querendo ser respeitado é “chato”, porque muda a ordem das coisas que ai estão. Aliás, lá fora não existe terminologias “pomposas” como “homossexual”, ou “pessoa com deficiência”, ou “afrodescendente”, ou “melhor idade”. Todos são chamados de gays ou lésbicas, todos são chamados de deficientes, todos são chamados de negros ou velhos e seus direitos são respeitados. Porque o segmentos lá não estão preocupados em terminologias “pomposas”, e sim, em defender os direitos e a discussão da terminologia, desvia qual o foco verdadeiro. Por isso que o Morrissey diz que toda “timidez” é criminosamente vulgar, porque fica preso ao senso comum, fica uma prisão de si mesmo.

Dai ele segue dizendo:

Você cala sua boca
Como pode dizer
Que eu levo as coisas para o lado errado?
Eu sou humano e preciso ser amado
Como todo mundo precisa”.

Ele manda se calarem, porque como podem dizer que levamos as coisas do lado errado, porque na concepção moralista, sempre os que pensam e assumem o lado que a maioria quer, ou o que a maioria pensa ser o certo, sempre vai ser errado e que não podemos fazer. Mas somos humanos, seja deficiente, ou gay, ou negro, ou velho, ou mulher, não deixaremos de ser humanos e de precisar ser compreendidos e amados como todo mundo precisa. Aliás, como pode dizer que levo as coisas para o lado errado está nos evangelhos quando Jesus diz que não podemos julgar o outro sem fazer um exame de consciência, não podemos tirar a trave do outro, se não tiramos a própria trave do olho. Ninguém sabe dos nossos problemas. Ninguém sabe do sentimento do outro e suas reais necessidades e então, porque as coisas são erradas ao ponto de julgar ser erradas as atitudes das pessoas ditas “subversivas”? Os diversos rótulos são apenas para reprogramar o sistema, renovar sempre velhos paradigmas.

A questão que essa musica aponta pode ser muito interessante, quando é vista de outro ângulo como se invertêssemos ela. Pois, talvez, essa musica nos mostra dois viés que não podem ser vistos. No video clipe, mostra fabricas soltando fumaças negras e uma moça com características que estão na musica e que esta com uma boina vermelha, com um rosto depressivo em um ambiente escuro e que mostra solidão. Essa moça ainda é loira e talvez mostre características interessantes, porque pode ter a característica que a moça é britânica, tem mais ou menos, uma vida relativamente estável, mas não é feliz porque não pode assumi o que queira assumi. A moral social condena aqueles que assumem o que são e sempre fazem dessas pessoas algo que elas sirvam como exemplo que não podem ser, como não podemos ser deficientes porque devemos ser pessoas com deficiência ou pessoas com necessidades especiais. Ou as pessoas devem ser e se comportar como eles querem e desejam, porque é assim que o mundo é e não pode mudar. Porque quem quer mudar o mundo é um revoltado, um mal educado, um ser que deve ser desprezado por todos. Não é porque se é deficiente, ou gay, ou mulher, ou negro, ou nordestino, que não somos humanos e merecemos ser amados, porque o caso é que todos são uma humanidade. O que nos fazem seres humanos? Nossa capacidade de mudar e perceber o outro como um ser semelhante sem perde nossa capacidade de fazer escolhas, porque podemos escolher o que devemos ser e o que não devemos ser, nosso desejo transita entre o instinto e a razão (logos) e a noção de cidadania. Então, esse “eu sou humano e mereço ser amado” é uma união de todos os seres e dizer que somos humanos e por isso – seja de forma que for, o que pensamos ou o que somos – merecemos amor, merecemos respeito e tudo que um ser humano de verdade merece ter. E isso independe de classe social, ou qualquer um desse estereótipos que transitam na pseudointelectualidade da humanidade, porque existem pessoas que tem dinheiro e não é feliz, não pode ser o que é, porque não pode assumi sua verdadeira persona. A persona só é alcançada quando percebemos a nós mesmos, quando saímos daquilo que o discurso do poder quer que não saiamos, e assim, conhecemos a verdade e a verdade nos libertará.

Ainda ele, o Morrissey continua:

Há um clube, se você quiser ir
Você poderia encontrar alguém que te ame de verdade
Então você vai, e você fica sozinho
E você vai embora sozinho
E você vai pra casa, e você chora
E você quer morrer”

O que pode ser esse “clube” que, talvez queiramos ir? A ideia essencial de um clube é reunir pessoas para alguma atividade, ou física, ou intelectual, mas essa atividade é comum a todos que ali estão. Talvez, porque concluo pelas muitas declarações da posição do Morrissey, esses clubes sejam os muitos movimentos que povoam o mundo. Na verdade, muitos deles são movimentos que se intitulam representantes que não foram eleitos, não foram escolhidos e fazem juramento solene em defender alguma “minoria” que, supostamente, não pode se defender. Ou pode ser algum lugar que você vai, como baladas e afins, e talvez encontre alguém que lhe ame de verdade. De repente é até a sociedade, masque nós vamos e mesmo assim, nos sentimos sós e vamos embora sozinhos. Por que? Porque mesmo eu sendo deficiente, por exemplo, eu tenho meu pensamento, tenho as minhas opiniões e essa ideia de movimento, essa ideia de segmento dos deficientes, é um modo de padronização para exatamente não haver união. Não precisaríamos ter um Conselho das pessoas com deficiência, pois todos poderiam exigir seus direitos sem intermediários, porque a intermediação são formas burocráticas para dificultar ao máximo, o meio para consegui o seu direito. Por isso que lá fora a articulação aconteceu diferente, foi por meio de ONGs, porque são união de cidadãos com um objetivo. E essas mesmas ONGs são montadas por pessoas ligadas verdadeiramente a causa, porque são corporações que financiam e querem respostas objetivas, mesmo quando é o governo. Mesmo assim é uma padronização e a maioria exige por ela mesma, porque são cidadãos e votam e paga seus inúmeros impostos. Então, quem escolhe esses órgãos para nos representar? Quem são esses órgãos para escolher o que é melhor para cada um de nós sem nem ao menos nos ouvir? Esses mistérios são, de grande parte, desenvolvidos em governos democráticos porque se transveste de “cobradores” de direitos, mas ofusca a cobrança em si mesmo. Por isso vai para casa sozinho e chora, porque mesmo com pessoas da mesma situação que você, não te ama e se você pensar diferente do que eles, você ainda é odiado. Temos milhões de exemplos dentro da historia humana.

Podemos construir nossa personalidade dentro das nossas escolhas ou opiniões sem ao menos, seguir algum movimento ou algum órgão que nos diga o que fazer. Eu sou uma pessoa que me formei publicitário, que me formei técnico de informática, que estudei até a 4º serie nas classes especiais da AACD, mas terminei todos os meus estudos em supletivos que eram ensinos regulares, que não afetaram meu desempenho. Aliás, meu estudo na área publicitaria e na área técnica de informática, foram em cursos regulares e isso prova que minha deficiência não afetou em nada. Ainda gosto de rock e gosto de ler, sou aficionado pela filosofia, sou noivo e brigo pelos meus direitos sem, algumas vezes ou sempre, recorrer as pessoas ou instituições que dizem nos representar. Essa é a base da musica, o importante não é ir contra o sistema ou nos incluir, porque já estamos inclusos dentro do escopo social, mas questionar o que está errado dentro do sistema. Os maiores subversivos da historia estudaram e leram uma vastidão de livros, tem um ou vários cursos superiores, leram tudo sobre o que estavam questionando e isso fez a base da coerência do discurso. Então, quem disse que não devemos estudar? Que para ser contra o sistema temos que nos livrar do estudo? Quem diz isso é um dos maiores dos escravos e não deve ser levado em consideração, pois umas das melhores armas dentro do questionamento é o estudo daquilo que se questiona e ter base para tal. Essa musica é ótima e pode ser levada para termos uma base muito boa para uma discussão seria que muitas vezes, não se tem uma seriedade verdadeira e não temos, argumentos sólidos. Pena que o povo goste de musicas poucos reflexivas.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 21/04/2015

Explicando o TAC da exclusão – escolas ameaçadas.

Foi postado pelo amigo Valdir Timóteo Leite

Foi postado pelo amigo Valdir Timóteo Leite

Por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Existem dois problemas para uma inclusão de pessoas com deficiência na sociedade. Primeiro é a vontade popular que não tem unanimidade e não estão muito preocupados e a segunda, a vontade estatal e capitalista que herda a visão do que é normal ou não é das inúmeras ações que vimos por ai. Só enxergarmos as ações sobre a saúde das pessoas com deficiência – que nos hospitais do Estado e hospitais do município são péssimos ainda menos nos postos de saúde – que são precárias e a ações para assegurar a lei de cotas que nos garante 5% de vagas de pessoas com deficiência nas empresas e repartições publicas não são efetivadas. O Estado (quando falo em Estado não estou falando só do Estado de São Paulo, por exemplo, mas o Estado em seus três pilares, município, o Estado e o Federal), não garante nem saúde (reabilitação está no pacote), nem transporte (direito constitucional de ir e vir), nem emprego (que eles mesmos dificultam com tantas amarras institucionais). O Estado brasileiro está falindo por decisões erradas e uma má administração que a 500 anos, sempre levou o país a uma governança que só atende ao interesses de poucos e não interesses da maioria, que mesmo na democracia, não se resolveu.

Então o que fazer para garantir o direito que nos cabe? O que vale nesse país é o dinheiro e o auto-poder, pois aqui reina os interesses e as coisas que levam “vantagem” de serem feitas. Nossa cultura é assim e muitos poucos pensam diferente e os que pensam diferente são boicotados, silenciados com chantagens, somos até esfolados em nossa dignidade e porque não, somos feridos em nossa integridade física por transportes que deveriam assegurar nosso direito de ir e vir. Mas nesse texto eu vou falar um pouco da educação inclusiva que em 2011 houve um retrocesso bastante significativo com a reabertura das classes especiais, com financiamentos desses classes especiais e ainda, o processo de adaptar as escolas regulares foi ameaçado com o TAC (Termo Ajustamento de Conduta) entre a Secretaria dos (Direitos?) das Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo e o Ministério Publico de São Paulo que colocou mais 15 anos para se adequar a lei de inclusão. Não é de hoje que o partido do nosso governador Geraldo Alckimim (PSDB-SP), tem muita simpatia de financiar as diversas APAEs e não financiar as escolas regulares para a inclusão das pessoas com deficiência, nem a capacitação de professores para lhe dar com algumas deficiências. Nada tenho contra a APAE, porque fazem uma excelente participação dentro da área de inclusão, mas existem pessoas que não usam esse tipo de instituição e não vai usar, porque tanto a família, quanto o própria pessoa com deficiência, tem o direito de estudar aonde quiser e o Estado deve garantir a demanda de escolas regulares dentro do território que esses cidadãos se localizam. Essa é a lei e a lei deve ser mantida e não “afloxada” com acordos bilaterais que o governo faz com intenções obscuras que só levam a exclusão e a antidemocracia. E tudo isso começa com o “afloxamento” da Convenção da ONU dos Direitos das Pessoas com Deficiência com o então ministro da educação Fernando Haddad (PT-SP) que hoje é o prefeito da cidade de São Paulo, que preferiu a reabertura das classes especiais do que adaptar e adequar as classes regulares. Como vimos, o PSDB e o PT são dois lados de uma mesma moeda quanto a inclusão de pessoas com deficiência.

Aliás, pelo que vi em vídeos e textos, a nossa inclusão social não é bem vista pela sociedade, porque a sociedade nos acha um empecilho, essa é a verdade. Políticos acham ainda que pessoas com deficiência não dão voto, a sociedade ainda acha que pessoas com deficiência não trabalham, não estudam e não ficam doente e não tem laser – porque inúmeras vezes que fomos no Shopping eu e minha noiva fomos xingados – porque ainda é um discurso dominante que nós (pessoas com deficiência), atrapalhamos, que pessoas com deficiência não tem nem o direito de andar de ônibus. Talvez, e a grande maioria assim o faz, os mesmos que assistem e se comovem com o “Criança Esperança” é de praxi esculachar crianças que precisam de algo, os mesmos que assistem e se comovem com o Teleton, são os mesmos que xingam e esculacham com pessoas com deficiência na rua, quando exigem seus direitos em hospitais, preferencia em filas, atendimento diferenciado, ao transporte (que até vi pessoas tentarem agredir o cadeirante), o acento preferencial de idosos e pessoas com deficiência, vagas de estacionamento e o pagamento de salario que chega a menos de um salario mínimo por mês. Serio. Existe pessoas com deficiência que ganha menos de um salario mínimo ou não são contratados. Essa é a realidade de algumas pessoas com deficiência.

Assim sendo, quando falamos em trabalho e uma profissão, estamos falando de educação de qualidade e não uma educação que serve para nada. Tem que ser uma educação fundamental – que dá a base necessária para a socialização, ler e escrever e ter a base necessária – o ensino médio – que prepara o aluno ao academismo – e o ensino superior. Se não temos uma educação de base que não tem adaptações e acessos a recursos necessários, como quer os empresários e a rede publica, que pessoas com deficiência estejam qualificados? Como o mesmo governo que constrói uma lei que dá cotas a pessoas com deficiência em empresas e taxando, pode ao mesmo tempo em meio da Secretaria dos (Direitos?) as Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo (que deveria defender nossos interesses), fazer um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o Ministério Publico para aumentar o prazo de mais 15 anos para adaptação e adequação de escolas? Aliás, nenhuma das condutas dessa Secretaria são voltadas aos movimentos e as verdadeiras pessoas com deficiência, porque os eventos são de semana (a maioria dos movimentos usam somente o transporte em final de semana e algumas pessoas trabalham), o único museu da inclusão veiculado a está secretaria só abre de semana impossibilitando a ida das pessoas com deficiência até o museu. Que Secretaria dos (Direitos?) das Pessoas com Deficiência do Estado de São Paulo é essa que se preocupa muito pouco em dar condições para a qualificação e ao estudo de pessoas com deficiência? Como negam nossa inclusão se deveriam cuidar de nosso direito a esta e preservar nosso direito legítimo a vida e a participação social? Isso soa e sempre soou – em tempos democráticos ou não – como algo hipócrita que somos taxados como inúteis e emprestáveis.

O que é mais irônico desse partido do nosso governador é que a deputada que mais levanta a bandeira da inclusão das pessoas com deficiência – que tenta na moita, boicotar ações concretas dentro do segmento e que nada faz por uma inclusão verdadeira nem quando se trata do partido onde eles se dizem oposição – é do mesmo partido e foi convidada a ser relatora da Lei da Inclusão (que tem nada com nada de concreto), fez uma audiência de semana e que quando é indagada em seu Facebook, bloqueia e não responde os e-mails que não lhe interessa. Exato. Estamos falando da deputada Mara Gabrilli (PSDB-SP), onde seu ato mais significativo nesses anos de politica, foi dar uma aposentadoria a ex-atleta (que pensou que era esquiadora e não é) Lais Souza que deveria ser paga pelo COB, pois assim o é nas leis trabalhistas. Não é paradoxal? Ao mesmo tempo que o partido do governador apoia e financia com milhões instituições intencionando nossa internação, tem como seu maior expoente uma deputada que faz milhões de propaganda possíveis, mas que na verdade, só é mais uma que usa do discurso velho, hipócrita e insensato para ganhar votos e conseguir se eleger. Se apoia na imagem “vitimista” das pessoas com deficiência que são exemplo de alguma coisa, para alimentar esse estereótipo “macabro” que nos persegue e se não abrirmos o olhos, vai nos perseguir eternamente.

Solução? Nesses textos quis mostrar que não existe partido nenhum que nos defenda, não existe politico nenhum que saiba o que sentimos, pois somos amordaçados com ações sutis que a maioria das pessoas não percebem, que nos prendem. Não podemos sair. Não podemos trabalhar. Não podemos nem ao menos, ficar doente senão o povo diz que é “frescura” e não nos quer atender. Cobrem. E façam sua parte.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 18/04/2015

Respeito e dignidade – estupraram mais uma.

Descrição: uma imagem de proibido e está amarrando um cadeirante caracterizando que os cadeirantes estão amarrados,

Por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Ainda o pessoal que gosta de estar em algum lado que eu chamo de “guerra fria tardia”, ainda não entendeu que as vitimas sempre estão no lado de quem paga a conta e todos sabem que paga. Não adianta você ficar do lado do governo, porque você não vai deixar de pagar, não adianta ser contra e berrar aos quatro ventos, que você não vai tirar ninguém. Mas isso é uma regra democrática deve ser levada sim a cabo, mas o que se deve também é antes de tomar uma decisão que lado ficar, estudar e ler mais sobre o assunto e não ser um “idiota útil” de ambos os lados. Via de regra – isso está também acontecendo com a direita – o pessoal vai muito nas opiniões dos outros, vai muito nas ações dos outros, vai muito nas ideias dos outros e vai muito na grande mídia porque tem preguiça de pesquisar, tem preguiça de ler sobre aquilo e fica uma discussão pobre que não tem argumento. O “modo preguiçoso” está na nossa cultura a muito tempo e isso não é de agora, mas se agravou com a geração twitter e com a geração whattsapp, onde frases curtas e de fácil leitura, além, de musicas pobres de conteúdo. Talvez precisamos mais fortalecer nosso ensino médio a fazer mais interpretação de texto, porque muitas pessoas não sabem interpretar nada, como aconteceu com o Ed Motta e agora com o Jô Soares. Mas, não somos isentos dessa mesma ignorância, pois muito de nós, pessoas com deficiência, nem poder ir a escola e não tem uma educação de qualidade e que tenha dignidade.

No site da UOL, vi uma reportagem que na cidade de Cabo de Santo Agostinho, região metropolitana de Recife, um homem de 50 anos estuprou a enteada com paralisia cerebral severa, que não fala, não se comunica e se alimenta por sonda. Ainda tirava fotos com o celular fazendo com a vitima que não pode se defender e o mais grave, diz o próprio meliante, que foi por causa da bebida. O que mais me assusta é o jeito que essas noticias repercutem, porque não repercutem, fica no limbo porque não interessam e nunca vão interessar. Porque me assusta? Porque parece não comum, mas é realidade dentro dos movimentos de pessoas com deficiência, e sim, é mais comum do que a sociedade imagina e não é denunciado, por causa do medo. Mulheres com deficiência são assediadas, são estupradas, são bolinadas e não só as mulheres, as vezes, muitos homens o são por não poder se defender e sabemos disso dentro dos muitos movimentos de pessoas com deficiência. Temos noticia de casos de pessoas com deficiência que são acorrentadas por serem desse jeito, principalmente, em regiões que a ignorância é muito gritante e não tem informação que nós somos seres humanos como qualquer um. Isso é triste, mas uma realidade de fato, vivemos violências múltiplas e muito pior que muitos que se dizem “vitimas” da sociedade, porque é uma violência silenciosa.

O filósofo francês Foucault, dizia que nosso período que estamos vivemos é um período da “normalidade”, pois nas raízes sociais ficaram uma ideia errada do que é “normal” e o que não é “normal”. Mas o que é “normal” é uma crença do mesmo estilo de um “achismo” onde as pessoas se acham “conhecedoras” dessa “normalidade”, que muitas vezes, não é verdade e não pode ser um tabu, pois não é um tabu e não é “normal”. Pela lei e pela via da ordem em si, o Estado deveria de garantir a integridade física e mental de todos os cidadãos do país, nós pessoas com deficiência, somos cidadãos e a nossa integridade está sendo ameaçada também. Pior de tudo, muitas vezes essa violência vem das repartições jurídicas e repartições estatais que deveriam nos respeitas e não nos respeitam. Os principais fatos são no transporte e na acessibilidade que as pessoas nos agridem, nos humilham e nos chamam de mentirosos e mais, ficamos nos prejuízo e humilhados dentro da nossa integridade moral. Isso é fato. Porque não estamos exigindo nada mais do que não seja nosso direito de ir e vir, direito de não sermos agredidos, direito de não sermos violados no nosso direito de sermos seres humanos. Mas o que dizer de uma sociedade onde o senso comum tem milhares de opiniões preconceituosas e que nada sabem da realidade? O que esperar de uma sociedade que ajuda no Teleton e a mesmo tempo, xinga uma cadeirante porque a mesma exigiu seus direitos dentro de um ônibus? Vários depoimentos de video mostra que pessoas com deficiência foram agredidas verbalmente por motoristas ou pelos próprios populares que num ato de egoismo e de desrespeito, mandou a cadeirante ficar quieta ou mandou a outra cadeirante sair da frente do ônibus dizendo que tinha que trabalhar. Muito de nós não trabalham? Muitos de nós não pegamos o ônibus para ir em consultas medicas? Isso também é uma violência e não é diferente do estupro da mulher PC, somos alvejados por pessoas egoístas e canalhas que usam argumentos de “achismo” e preconceito conosco.

A sociedade que se dizem cristãs, amantes da moral (um moralismo hipócrita), que fazem as maiores atrocidades e não se iludam, as pessoas que acreditam nas ideias da esquerda (defensora das minorias), também o fazem. Então, isso é uma coisa cultural? Podemos afirmar que essas mesmas pessoas que defendem o Teleton e outras campanhas, nos xingam quando interessa? O problema é que muitos não percebem que não são diferentes do cara que foi o estuprador, só que estupraram nossa dignidade.

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Vídeo da moça humilhada no ônibus (aqui)

Vídeo da reportagem da mulher com paralisia cerebral estuprada (aqui)

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 17/04/2015

O Extraordinário – discriminação do diferente

2015-04-17 12.26.40

foi presente do meu amor e uma indicação do meu colega Wagner Martins

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por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Li um livro interessante e não muito chato, pois é de uma linguagem fácil de entender e tem muito a ver com o tema da inclusão não só de pessoas com alguma deficiência, mas pessoas que são um pouco diferentes e que tem síndromes que deformam alguma parte do seu corpo. O livro “Extraordinário” da autora R.J. Palacio – ela é ilustradora e atua no mercado editorial e tem uma ONG que faz campanhas contra bulling – conta a historia de August que tem não uma, mas duas síndromes raras que deformaram seu rosto. Eu digo que me identifiquei em alguns pontos quando estudava, quando eu saia para dar umas voltas e o quanto as pessoas vão nos discriminando ao longo da vida. Por mais que esquecemos esse lado, ainda é uma realidade. Mostra que a educação não é diferente nos Estados Unidos da América, pois lá com toda a educação mais ou menos, boa e de qualidade, ainda sim há discriminação e tendo que ter ONGs para defender esse tipo de coisa nas escolas.

O formato desse livro é muito diferente dos outros, seu formato é bem interessante porque coloca cada um ao seu redor como um depoimento. Talvez, por a autora ser de uma ONG, ela esteja familiarizada com essas situações e tem a ver um pouco conosco. Por que? Porque lida com a aceitação social daquilo que eles consideram como “diferente”, ou como está no livro, deficiente. Só que o diretor deixa bem claro que o menino não é deficiente e não teria problema em aceitar ele se fosse, mas tem uma síndrome que faz seu rosto ser deformado e isso é bem retratado no livro. O menino tem que passar pela escola comum para aprender a lhe dar com o mundo, afinal, nem sempre seus pais vão lhe defender e nem ao menos sua irmã, a Via (ela se chama Olivia, mas August chama de Via), vai poder lhe defender. E isso é um processo que todos nós passamos na vida, passamos momentos bons que as pessoas aceitam nosso jeito e nossa aparência, outros dias as pessoas acham que você atrapalha, que você fica ali porque teima em sair e teima ser uma pessoa com deficiência ou “diferente”, que quer ser um cidadão como outros qualquer. De quem é a culpa disso tudo? Nossa. Não buscamos mostrar que existimos, os pais sempre nos mostram que o mundo é cruel para nós, mas eles querem que encaramos esse mundo. Muitas pessoas não querem. Querem ainda formar guetos, porque nos guetos se sentem mais seguros. No livro isso é mostrado com os pais de August, a mãe é brasileira e é professora que largou tudo para cuidar do filho, o pai é norte-americano que quer proteger o filho desse mundo, a mãe não quer. Simbolicamente, o pai é o lado racional, a mãe é o lado emocional, o lado humanitário está no lado materno, o lado racional e pouco humanista, está no lado paterno. Mas eu digo que quando você é diferente, você passa a ter que encarar o mundo a sua volta e isso chamo de nosso “agogé”.

Quem assistiu o filme “300”, viu que o “agogé” eram formas de educação espartanas para criar homens que lutassem e fossem guerreiros. Eram soltos nas florestas ao redor e eram quase esquecidos, tendo que lutar, tendo de caçar e tendo que matar se fosse preciso. Nós também somos treinados, quando vamos a escola comum, a enfrentar o mundo e a saber que ele é sim feito de pessoas egoístas, pessoas que só se aproveitam, mas também, existem pessoas que aceitam e podem ter uma amizade sincera e não por pena ou algo do tipo. O livro mostra que não somos isentos de levar murros e de dar murros, de causar brigas e desobedecer, porque podemos ser “diferentes”, mas não somos além do que seres humanos. Μas como romper algo tão enraizado dentro da humanidade a ser até confundido como algo biológico? Ai que mora a questão, pois temos que romper a imagem que fazem de nós dentro da sociedade e não alimentar essa imagem. Claro que não vamos negar quem somos e o que usamos como aparelho, mas romper com esse paradigma (paradigma é uma imagem social de que residi nessa sociedade por muito tempo). Mas como e o que fazer disso?

Dês de quando eu tive internet nunca participei ativamente de grupos de pessoas com deficiência, sempre focando em grupos que me trouxessem conhecimento. Então ficava mais em grupos de filosofia, grupos de assuntos gerais, até mesmo, sobre rock e heavy metal. No Yahoo ainda se tinha uma discussão verdadeira sobre a deficiência e assuntos relevantes no Porta de Acesso, porque nem no nome tinha aquela coisa de diferenciar as pessoas com deficiência com as demais, era uma coisa só. Eu tive um contato efetivo quando comecei a participar da sala virtual de pessoas com deficiência da UOL e ainda, eu encontrei por acaso porque estava procurando um chat que alguém me explicasse como jogar um jogo que não estava entendendo. Foram momentos divertidos e ao mesmo tempo, tive a certeza que não se mede caráter com uma cadeira de rodas ou tudo mais. Depois veio o Orkut e também nunca gostei de participar dessas comunidades, porque não se tinha assunto, resolvi fazer a minha. Sexualidade Do Deficiente era a maior comunidade do Orkut e umas das mais conhecidas, mas por causa da imagem, ela foi denunciada porque o pessoal (se me lembro era senhoras religiosas), pensaram que era um bando de tarados pensando em atacar esses indefesos “anjinhos”. Mas eu nem ficava muito, porque não me interessava e deixei rolar e quando vi, era uma bagunça só e fiz muitos inimigos que fizeram muita sacanagem. Depois que ela foi apagada, nunca mais ergui ela nem a pedidos, porque esse tipo de assunto não é discutido como se deve. Aliás, quando se discuti sobre a deficiência em si, não podemos dizer que sai coisas boas e sim, só “panelinhas” e brincadeirinhas sem graça. Dai sempre ficava nas comunidades de filosofia e assuntos gerais. Não me vejo numa comunidade de pessoas com deficiência, não porque não me aceito como sou, pois se eu não me aceitar, não terei nenhuma identidade, mas porque não me vejo em discussões fúteis ou de cunho infantil. Ora, ainda existem pessoas que nem discuti discutem, então, por que estão em uma comunidade de “discussão” de pessoas com deficiência? Só para dar volume ao seu Facebook?

Na verdade essas comunidades viraram guetos de pessoas com deficiência porque trás a sensação – que não é verdadeira – de estar em um lugar seguro que que podemos conversar sobre o assunto da deficiência em si. Isso mostra como esteticamente somos levados a uma falsa imagem de conforto aonde não tem, a ideia em sua essência que essas comunidades são seguras e que o mundo lá fora é cruel, que as escolas e as comunidades são feitos de pessoas más e que não vão nos aceitar e somos unidos. Ai que está a essência da questão, existe o estar unido e ter união, pois estar unido são pessoas com seus objetivos e suas crenças unidas, mas com o seu próprio proposito. E existe a união que são pessoas que tem o mesmo proposito e as mesmas ideias e fazem uma união, porque defende essa ideia para se chegar a uma meta. Por exemplo, quando temos uma comunidade “Cadeirantes e andantes são amigos”, isso pode mostrar a ideia que antes não eramos amigos e que houve uma união para efeituar essa imagem. E outra, a ideia em si do “cadeirante” é uma ideia que só o cadeirante pode entrar na comunidade e ser amigo de andante. Esteticamente, o nome não fala em estado e sim, fala da ideia do que seja “cadeirante” e o que é “andante”. E fica uma coisa meia excludente como se houvesse de ter uma comunidade para o cadeirante ser amigo de andante, ou que cadeirantes também amam, ou que cadeirantes são evangélicos e por ai vai. Por que os cadeirantes não entram numa comunidade evangélica? Por que o cadeirante não entra numa comunidade de andantes e fazem amizade? Como eu disse, não tive e não tenho esse tipo de interesse porque se quero uma inclusão, eu devo me incluir e incluindo que vou passar a ideia que não é que sou cadeirante que não tenho amigos andantes como também, não é porque sou cadeirante que não amo. Esse é o foco. Se August morasse aqui e buscasse uma comunidade para participar no Facebook, garanto que ele ia querer participar de uma comunidade do Star Wars (que ele gosta muito), porque para ele não importa se existe pessoas iguais a ele, mas o importante é o que ele é e gosta.

Assim nunca vamos lutar para um mundo inclusivo que aceitam as pessoas com deficiência como somos e como podemos ser e como o Sr Buzanfa, o diretor, disse a prateia na formatura do August: “Não importam as variações dos formatos das nuvens, elas sempre vão ser cintiladas pelo o sol.”. Pensem nisso.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 14/04/2015

Prefeitura com deficiência

por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Quando eu vejo alguém elogiar o prefeito da cidade de São Paulo, eu lembro daquela conversa que sempre olhamos o nosso lado, sempre achamos que o que acreditamos é o certo. Infelizmente o debate politico virou “palanque” de pessoas partidárias que não querem resolver os problemas da coletividade – que pelo que vi no protesto desse domingo, muitas pessoas ainda querem o terceiro turno e não a cassação dos responsáveis da corrupção – e sim, quer resolver algum problema da sua calçada, ou melhor, do seu problema. As pessoas com deficiência não estão isentos desse partidarismo – por motivos óbvios de um homem que nunca ajudou a educação inclusiva quando secretario de educação, ser eleito prefeito – que por vezes é mais latente quando se trata de uma crença enraizada da falsa promessa de melhoria. Aonde a cidade melhorou a inclusão? Aonde o transporte ficou mais acessível como nos promete o prefeito com as “mudanças”?

Para dizer que estou sendo partidário e não vejo as coisas que o governo do Estado também faz, o metro de São Paulo é muito ruim no caso de acessibilidade. Elevadores que não funcionam. Fiscais que não ajudam os cadeirantes a subirem nos trens e enfim, todo tipo de coisa acontece dentro do metro que não está isento de critica. Mas hoje, nesse momento, quero falar da degradação do ATENDE ao longo desses anos, já foi exemplo de transporte para outras cidades, já foi exemplo de transporte para outros países também. Mas confundiram direito com bagunça, porque no primeiro momento, o transporte de vans porta-a-porta era destinada a quem realmente não poderia tomar um ônibus, quem realmente não tinha mobilidade o bastante para sair a rua, quem realmente, não poderia sair. O problema, como disse acima, foi confundi direitos com o “eu quero também” e dai, o partido do atual prefeito adora um populismo, enfiou até quem não precisa desse tipo de transporte. Essa é a verdade. Quiseram trancar as pessoas com deficiência num transporte exclusivo para não ver a cara dessas pessoas, porque passageiros reclamam de ficar parados para pegar os cadeirantes e isso é verdade. Mas não é só cadeirante, pessoas autistas, pessoas com síndrome de down, pessoas com deficiência auditiva, visual que tem cão guia (que nos Estados Unidos, podem circular a vontade), entre outras modalidades, que as vezes, atrapalha quem realmente precisa do serviço. A demanda aumentou, aumenta a precisão do serviço, aumenta rapidez que esse serviço deve ter manutenção e tudo mais, fora que os motoristas devem ser treinados mais rapidamente. Ai que mora o perigo, aonde e como esses motoristas são treinados e como essas vans são montadas e postas a serviço da comunidade, pois o que nos dizem é que os motoristas passam por um treinamento da própria SPTrans e as vans são compradas “baus” (aquela fechada que é para carregar carga por ser mais barata), depois é transformada em vans que são aptas ao transporte de pessoas. Só que as molas não são trocadas para molas de transporte de pessoas e sim, continuam como molas de carregar carga. As vezes penso que carregam mesmo, mas vou chegar lá.

Lógico, que as prefeituras ao longo dos anos, como já disse, foram degradando o serviço e foram transformando o serviço num “curral eleitoral”. Não sei qual foi o intuito do atual prefeito, mas o que era ruim, ficou pior porque as novas regras e a nova gerencia deram ao serviço, uma cara de degradação e decadência. Os movimentos sociais em prol as pessoas com deficiência e as instituições, fizeram a parte do “eventos” algo peculiar, porque alguns até exigem as 160 vans só para seu próprio evento e não é só isso, o fim do ano, esse serviço passa a ser um inferno. Nosso movimento, Irmandade da Pessoa com Deficiência, usa apenas uma só van e essa uma só van é negada sempre quando acontece o Teleton do SBT e isso é a verdade absoluta. Só que não é só nessa gestão que isso acontece, aconteceu também na gestão passada e acontece sempre. Os motivos que levaram o atual prefeito a mudar a gerencia – segundo uma palestra que eu estava presente no Conselho Municipal das Pessoas com Deficiência – foi a mudança, mudar a cara da cidade para transformá-la em uma cidade mais jovial. Acontece que as coisas não são simples e o senhor prefeito deveria de saber disso, pois troca uma gerencia que realmente cuida do serviço e mais ou menos, nos proporciona uma melhor autuação dentro das demandas que devem ser atendidas, para uma gestão que pensa que as vans são deles, que o serviço só pode ser prestado para quem agradam eles e não pode ser assim. Afinal, o serviço é pago com nossos impostos, com os impostos de familiares das pessoas com deficiência, com os impostos que são gerados recursos para esse tipo de serviço. Se a demanda é grande, isso não é nossa culpa e nem nossa competência, porque isso é gerado graças a falta de estrutura arquitetônicas urbanas, falta de trabalho, falta de educação e treinamento dos motoristas de ônibus, falta de uma maior conscientização da sociedade e dos órgão que fazem esse trabalho.

Um exemplo claro disso é que estou com a cadeira de rodas quebrada – já estava quebrada e piorou com esse evento – e a minha noiva ficou de cama num evento no dia 5 de abril, Pascoa, porque o motorista passou muito rapidamente nos buracos, falava muito e reclamava além da conta. Se isso é um exemplar exemplo de treinamento, então, somos obrigados a admitir que o serviço ATENDE está se decaindo a cada momento e isso é um reflexo da banalização da inclusão de pessoas com deficiência. E não me façam rir dizendo que o motorista tem 6 anos de ATENDE e foi contratado na gestão anterior a está, pois pelo menos as reclamações que levei a cabo, todas foram resolvidas e respondidas, coisa que não acontece nessa gestão. Até mesmo tiraram o e-mail do gabinete do prefeito e jogaram as reclamações as secretarias que demoram 2 ou 3 meses para responder a essas mesmas reclamações. Como disse antes, o serviço anda decaindo a cada gestão e isso só vai parar quando acabarem com o serviço de vez e o dinheiro seja colocado em outro lugar. Mas a pergunta é: quem vai pagar meu prejuízo de acabar de quebrar a minha cadeira de rodas? Quem vai pagar os remédios da dor que a minha noiva está sentindo na cama? O trágico é que a gerencia passada teríamos uma resposta – se era mentira ou não eu não sei – mas pelo menos nos respondíamos e o prefeito fazia algo a respeito.

Aliás, não só no transporte o tema inclusão nessa gestão está sendo bastante ineficiente, na questão da saúde os postos estão muito a desejar com médicos que não sabem tratar a deficiência em si. Quando fazemos pedidos de cadeira de rodas ou outro aparelho, além da imensa burocracia que é conseguir uma cadeira de rodas, a maioria dos postos de saúde não sabem dessa lei ou fingem não saber. Pedidos de cadeira motorizada ficam mais difíceis com essa burocracia, porque a lei para o SUS liberar a compra de cadeira motorizadas já saiu, então, por que esses mesmos postos (comandados pela AMA) não sabem dessa mesma lei? Por que esses mesmos postos não tem medico para um atendimento de verdade e não um atendimento de fachada? E tudo isso acontece com a gestão de um partido que se diz protetor da minorias, que essas mudanças são mudanças para melhor, só que as promessas só ficam nas promessas e não se cumprem, porque o próprio segmento das pessoas com deficiência, banalizaram a inclusão e nem sabem o que é inclusão. Muitos acham que a solução são guetos, muitos sabem que esse partido fez pouco para as pessoas com deficiência, então, por que continuam a votar e apoiar esse tipo de partido que não fortalece o transporte acessível, não fortalece a saúde e a reabilitação, não aumenta o números de carros e médicos treinados, não abrem vagas inclusivas de emprego mais acessíveis e menos burocráticas as pessoas com deficiência? Como as pessoas com deficiência podem apoiar esses partidos, se esses mesmos partidos nem ao menos, tem uma agenda sobre a inclusão?

São coisas que eu não entendo e juro que quero entender, porque não me entra na minha cabeça esse tipo de discussão não ser uma discussão relevante, uma discussão que vai muito além do partidarismo. É lógico que o serviço ATENDE está lotado porque não temos trabalho para comprar um carro – que demora 2 anos para sair da fabrica adaptado com todas a documentações e a liberações do DETRAN – dai as pessoas precisam usar a van, porque também, ou os táxis não vão ou é muito dinheiro a pagar. O salario da pessoa com deficiência é baixo e não pode pagar nem um plano medico e nem um transporte próprio, causando uma maior demanda desses serviços e um maior erro que eles cometem. A não demissão a funcionários públicos que não cumprem o seu serviço. Não ter uma agenda para tratar assuntos sobre acessibilidade e um maior empenho de gerar renda e não dar renda como se esses polos, não precisassem gerar essa renda. Isso é básico em qualquer país que tenha uma politica séria. E o mais importante – coisa que estou fazendo a muito tempo e voto nulo – temos que ter consciência que somos eleitores e somos cidadãos como todos os demais, não somos mais (não, não somos especiais), nem menos (não, não somos pecadores ou algo do gênero). Então, podemos ter essa arma, ou se usa, ou vamos patinar até virarmos pó. Ou vou precisar desenhar?

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 01/04/2015

REATECH – o sonho acabou?

somos todos “palhaços”

Por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Eu não vou esse ano para a REATECH, porque não acho mais graça em uma fera de tecnologia que virou “point” de encontro de amigos. Pior de tudo, não tem mais tecnologia. Não sou muito habituado em seguir o que os outros seguem, fazer o que os outros fazem ou ler o que os outros leem. Seguir uma sugestão é uma coisa, fazer obrigatoriamente como se fosse um “ritual sagrado” é outra bem diferente. Mesmo o porque, as coisas perdem muito a graça, fazem eu perder o interesse e a vontade de entrar só de imaginar todo aquele povo achar que aquilo é uma praça de recreação. Não. Não é. É exposição de tecnologias acessíveis, fora isso, vira parque temático de cadeiras de rodas e outra deficiências.

O que vi entre 2013 e 2014 é uma banalização do evento em si mesmo, porque virou banal você ir a REATECH como se fosse uma balada e não é, não é uma baladinha qualquer. Na verdade a REATECH é uma feira de tecnologia para pessoas com deficiência, tendo novidades entre tecnologia que podem ajudar. Acontece que como todo ato que fica popular, ele fica banal porque a essência daquilo não existe mais, porque aqueles que realmente iam para a feira de exposições não vão mais, porque não é hoje uma feira de exposições, mas um comercio muito mais do que exposições. A comida cara, a falta de estrutura acessível, a falta de postura de certos cadeirantes com o companheiro que de repente, tem uma mobilidade lenta, a falta de banheiros e os banheiros químicos são apenas o reflexo dessa banalização. Além dos “machos alfas de rodas” que se acham celebridades, se acham pessoas acima de qualquer um e fica “azarando” todas as mulheres de lá. Só que não estamos em uma “balada”, não estamos em uma feira no meio da rua, estamos num centro de exposições Imigrantes tentando aprender e observar tecnologias que podem nos ajudar, mas há milhões de coisas que nos impedem, a falta de educação é uma delas. Então, toda aquela vontade de fazer se perdeu por causa de gente mal educada e que realmente, não sabe o seu lugar.

O segmento das pessoas com deficiência não entenderam que uma coisa é ter uma deficiência, outra coisa é achar que são eternos adolescentes sem a menor responsabilidade para consigo ou para os outros. Não que eu tenha a ver com a vida de cada um, para mim eu vou viver feliz e contente com meus pensamentos e principalmente sem saber de detalhes da vida dessa gente (me estressei demais com o meu antigo movimento onde participava), mas quando se está em sociedade e dentro de um evento importante, no mínimo se espera civilidade e educação. Nossos eternos adolescentes, ao que parece, só querem saber da “dança do acasalamento”, comer e usar o banheiro (que aliás, no Reatech é uma porquice sem tamanho). Não quer lutar, não quer entrar em nenhum movimento social ou ONG, não quer ir em reunião politica, não quer lutar pelos seus direitos e ainda, critica quando conseguimos algo serio através do nosso movimento social. Não quer nem ao menos saber de lutar pelo direito de ter preferencial em uma fila, ter um lugar acessível para se divertir e o pior, alguns reclamam da adaptação que a outra deficiência precisa, como certos cadeirantes “cabeças ocas” reclamaram do piso tátil para pessoas com deficiência visual.

Isso tem uma lógica e uma regra, ou melhor, a não colaboração a regra. O que acontece que temos uma regra ética (social que usamos quando sairmos e convivemos socialmente) e uma regra moral (que são valores recebidos dentro da família ou do convívio de alguém ou religião, ou ideologicamente), que as pessoas com deficiência não estão isentos de receberem essas duas regras. Muitos nascem com essa deficiência e outros adquiri a deficiência ao longo da vida, então, existe uma regra ética e uma regra moral para nós também. Muitos que nascem com deficiência – existem exceções, mas é uma regra nacional – são muito sub protegido pela família pelo nosso velho estereótipo que não podemos se defender. No caso de uma deficiência mais severa, sim é verdade, mas no caso de uma deficiência menos severa, já é sem-vergonhice. Por que? Porque a maioria gosta de ser protegida. Acomodação dentro do segmento das pessoas com deficiência é quase um pleonasmo, porque somos já um povo acomodado, ainda mais se somos deficientes. Mas como disse acima, temos a regra moral e como fomos criados com essa regra moral, então como eu e alguns colegas dizem, deficiência não é régua para medir caráter de ninguém. Tem deficiente que rouba. Tem deficiente que estupra (sim, existe). Tem deficiente que faz filho e num assume. Tem deficiente que aproveita da deficiência. Tem deficiente fanático religioso e ideológico. E tem deficiente “macho alfa” como todo país machista que se presa, tem ao monte. Esses machos alfas são a maioria desse eventos e acham que arrasam porque jogam basquete, ou porque são atletas, ou porque simplesmente, são paraplégicos. Aliás, na minha opinião de pessoa com deficiência dês do meu nascimento, uma pessoa que adquire uma limitação por causa de um acidente ou por causa de alguma coisa dessas, não deveria ser considerado uma pessoa com deficiência, porque a deficiência é algo como a perda de uma eficiência de movimento. Há uma certa mobilidade com as pessoas paraplégicas. Mas é uma questão para outro texto.

Voltando, essas pessoas (na maioria homens) enchem o saco porque sempre temos que ficar olhando os cruzamentos do evento para não ser atropelado, ou ouvir da nossa companheira que o cara ficou enchendo o saco dela e o que é pior, com você no lado. Aonde está o respeito nesses casos? Aonde podemos ir para ter tranquilidade? Nesse caso é uma falta de ética e quando um povo não tem ética, ele acaba não tendo moral nenhuma, porque todos os valores sociais foram jogados no lixo. Então, com raras exceções, a REATECH nada me agrada e pra mim não passa de tampa de vaso sanitário para esconder a sujeira que é a acessibilidade no Brasil, que não tem nada de bom e que funciona. O simbolo do evento é um coração com o símbolos diversos das inúmeras deficiências mostrando, talvez, que só podemos incluir com amor e o respeito. Assim? Impossível. Não acho que esse tipo de feira tecnológica vai resolver algo da inclusão, porque os problemas persistem mesmo acontecendo ela. A visão que todos tem é a mesma, o próprio deficiente se trata como lixo, a acessibilidade é a mesma em todas as cidades e ainda é pior, para temos acesso a essa tecnologia, temos que ter emprego e emprego não tem aqui, ainda mais, cadeirante. A lei de cotas é uma grande enganação, porque números são fraudados, estatísticas podem ser manipuladas, mas para aqueles que conseguiram, conseguiram por fatores muito mínimos. Concursos são impossíveis de se fazer, pois há uma exigência ridícula de laudo medico até mesmo para a empresas. Então, imagino que um evento desses seja só uma ilusão que venderam para causar impactos desnecessários. E também não acho que é um modo “cruel” do grande monstro do capitalismo para explorar os “coitadinhos” dos deficientes, pois há problemas muito além disso que vai além de uma feira de tecnologia que tem a ver com a incompetência estatal.

Enfim, não vou.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 28/03/2015

Superação sempre, respeito jamais.

Um exemplo de superação no vaso sanitário

Por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Não, não vou escrever um texto “detonando” a “atleta exemplo de superação”, eu vou só dar meu parecer. Primeiro porque ela e mais alguns, estão negando a deficiência. Segundo esses alguns estão negando a cadeira de rodas. Então, como leio bastante os ensinamentos zen e sei os métodos dos monges e mestres zen lá vai: vocês não vão sair das suas cadeiras de rodas e vocês não vão andar. No máximo, vão aceitar e adaptar na melhor maneira possível a suas deficiências e ponto. O resto é só “frasesinha” para vender jornal.

Acontece que talvez, com toda aquela coisa quase uma “modinha”, de que todos tem o direito de sentir e se expressar como queira, deveria ser seguido em ter respeito. O respeito que eu digo, é o respeito de assumir que todos somos pessoas com deficiência e dizer que a cadeira de rodas é uma porcaria, ou que a cadeira de rodas não existe, é uma forma “monstra” de desrespeito consigo e com os demais cadeirantes. As psicologas ou psicólogos, deveriam fazer mais um trabalho de tirar essa negação, porque essa negação vai trazer ainda consequências maiores no futuro quando a pessoa que nega se depara com a realidade, a realidade é a não volta de ter uma vida que era, ponto final. E o que é mais estranho e que me incomoda bastante é que essas pessoas querem nos ensinar a sermos pessoas com deficiência, ensinar pessoas que já nasceram com essa deficiência, que não são paraplégicos. Como você vai querem ensinar um engenheiro experiente a ser um estagiário? É o que acontece na maioria das vezes.

Não vou usar desculpas para explicar o que a Lais Souza sente e nem o que o Fernando Fernandes nega, mas a realidade é outra, temos que encarar que negando nossas deficiências não estamos só negando uma realidade, estamos negando uma identidade. Não é uma fase de negação da Lais Souza, é como “bater o pezinho” com o destino e não aceitar que fez besteira em encarar um esqui, sendo que não era esquiadora, porque saiu sem permissão, desrespeitou o aviso de perigo, pagou o preço. Mas as pessoas podem dizer: “Ah! Mas foi um acidente”. Todo acidente é uma escolha que fazemos, seja nós os causadores ou sejamos vitima. Se somos causadores depende da escolha de nossa reação ou o que estamos fazendo e isso também, se somos vitimas. No caso da Lais, ela escolheu treinar sem as condições necessárias para tudo isso, pagou o preço de cair e quebrar uma vértebra no pescoço e lesionar a coluna cervical. Não há no mundo tratamento ainda, para reverter isso. Ainda mais ela que recebeu um tratamento bom em Miami, recebeu uma cadeira motorizada boa, tem uma aposentadoria feita na “cambiarra” e ainda nega a cadeira de rodas dizendo ser uma “porcaria”. Se é uma “porcaria” tenta andar sem ela, se ela não existe como disse Fernando Fernandes numa entrevista, tenta andar sem ela. Quanto mais assumimos que somos pessoas com deficiência, mais somos tomamos a consciência, que somos sim humanos, não somos extraterrestres.

Não existe superação, porque não estamos encarando uma montanha, estamos encarando uma deficiência. Não temos que superar, temos que encarar de frente e encarar de frente é saber que somos cadeirantes e ponto. Vamos morrer cadeirantes, vamos casar cadeirantes, vamos namorar sendo cadeirantes, vamos rir sendo cadeirantes, vamos chorar sendo cadeirantes e vamos fazer esportes, vamos escrever, vamos ser felizes, sendo cadeirantes, ponto final. Como sempre digo, o resto é só frases para fazer as pessoas chorarem. Quanto esses “exemplo de superação” ganham para dizer tantas “besteiras” e inverdades? Quanto esses “exemplos de superação” ganham para nos desrespeitar e o segmento de pessoas de deficiência, deixar pra lá? Poucos, muito poucos, são aqueles que mostram a verdade e a verdade é que não existe superação, existe necessidades diferentes, mas não precisamos superar nada para sermos felizes. Não precisamos esquecer a cadeira de rodas para sermos humanos. Não precisamos negar nossa ligação com a cadeira de rodas para dizer “ei! Estou aqui!”. Parafraseando o personagem mor do “House of Cards”, Frank Undewood, a face de um covarde é a nuca, pois eles saem e não sustentam ou encaram qualquer objetivo e briga desse objetivo de frente. Esse dois personagens que estou analisando nesse texto, só consigo ver a nuca, não tem rosto, não tem personalidade, tem todos os estereótipos que a sociedade nos colocam como “aberrações” de uma sociedade insana e hipócrita. Defende o respeito pelos animais, mas defende a guerra. Condena beijo gay, mas tem milhões de amantes. Entre outras coisas, que notoriamente, Freud explica.

Nessa, só superando essas “barbaridades” dos exemplos de nada.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 23/03/2015

Publicitário cadeirante sem medo.

Essa imagem resume o caso

Essa imagem resume o caso

Por Amauri Nolasco Sanches Júnior.

Sou publicitário de formação. Na verdade nem sei o que vi na publicidade que me atraiu esse tipo de profissão meio que “clube dos bons” de levar ao publico o que eles mais desejam. Nós – os publicitários é claro – temos aquele viés de atrair as pessoas aquilo que elas mesmas desejam, seja na vaidade, seja no paladar, seja na libido, seja no que for. Mas também somos levados a mexer com a psicologia das pessoas – como se elas fossem algo a serem conduzidas – então, também fazemos das capas de revistas algo rendável num país que muito poucos tem o desejo de ler alguma coisa. Nosso povo – as redações do ENEN não nos deixam mentir – não tem aquela vontade de ler e nem tem capacidade, pelo ensino médio fraco que temos, de interpretar aquilo que está escrito como uma opinião de quem escreveu ou de quem o jornalista reescreveu como uma fala da pessoa em si mesmo. Nosso povo tem o desejo, na verdade, de ser conduzido e não tem o menor desejo de “ousar saber”, por isso a publicidade é uns dos meios mais usados até nas campanhas partidárias e horários políticos. O marketing – meios para obter o fim da venda de produtos e serviços – vence o olhar critico das pessoas, porque usa os estereótipos (imagens) de algo popular ou lendas urbanas para propagar ideias que não fazem parte da verdade, a realidade dos fatos. Foucault diria que estamos vivendo no meio de uma prisão e esse discurso que vem do poder – porque o poder joga nos dois lados, pois ao mesmo tempo ele incluem as pessoas com deficiência, algumas instituições dentro da mesma politica, joga que somos sofredores eternos – vem como um Pan-óptico (centro das prisões) que vigiam o estado psicológico da própria sociedade.

Ao mesmo tempo que sou publicitário, também sou técnico de informática e tenho certas habilidades dentro da informática. Embora as pessoas “achem” que são profissões diferentes, não são tão diferentes assim, porque informática vem do termo informação mais o termo automática. Diria que seria “informação automática”. Não é isso que concluímos dentro de qualquer meio de informação? Na realidade, esse termo surgiu pelo fato de darmos a informação ao computador (ou qualquer maquina automática), e ele responde com outra informação daquilo que foi intruido a fazer por causa da programação (linguagens que se transformam em números binários que o computador entende). Nós chamamos de entrada (programação) saída (informação do computador). Tanto a publicidade, quanto a informática, usa a imagem e a linguagem para propagar algo ou alguma informação, então, o Facebook e os meios de interação social (como revistas, jornais e uma gama de meios), usam a linguagem como meio a chegar até a maioria do publico. Dai chegamos ao ponto chave da questão que quero abordar dentro do debate dos estereótipos que as pessoas dão a certas deficiências, porque vale lembrar, a informação entra e sai em forma de interpretação que algumas vezes, não existe.

Temos que confessar que somos um povo conservador. Quem nega isso não sabe de historia do Brasil. Só que nosso conservadorismo é o que nos interessa, pois há de se confessar que nossa cultura sempre viu o que nos é “vantagem”. Na verdade, deveríamos escrever “vantagem e progresso” em nossa bandeira, porque até antes dos nossos sentimentos, vem a “vantagem” de expressar ou não, esses sentimentos. Tenho muito em mim essa coisa de não enxergar isso como uma coisa vantajosa – parece sarcasmo, mas não é – porque as pessoas sinceras são as que conseguem maiores adeptos, daí o vulgo “puxa saco”, só é mais um inseto dentro de um enorme esgoto. A obra majestosa de Franz Kafka, A Metamorfose, mostra esse tipo de pessoa que não tem uma personalidade dele mesmo, não tem uma atitude com ele mesmo, então, vira um inseto. Não chamaria esse tipo de pessoas de “baratas”, porque se descobriu que elas tem alguma personalidade. Continuamos. Nesse poço cultural que nos encontramos – mesmo tendo o pior ensino, somos um povo que aceitamos outras culturas e outras demonstrações culturais – visões muito enraiadas sobre certas coisas que são alimentadas por seculos, uma delas é a visão das pessoas com deficiência e seus meios para se locomover, meios esses que não são objetos de tortura medievais. Mas tenho a certeza que certas visões são de tempos longínquos que como disse, não nos deixa. Essa semana uma certa apresentadora que fez a “besteira” de injetar produtos químicos duvidosos em seu corpo, tendo perigo de perder a perna, disse que tinha medo de ficar numa cadeira de rodas e que tinha um filho para criar e tudo mais que uma boa lamentação pode trazer. Nem vou comentar o veiculo que isso foi a tona, porque não quero fazer publicidade para revistas de 4º categoria.

Mas vamos falar do medo. Medo é aquilo que não conhecemos, ou nunca nos deparamos com aquilo. Tenho alguns medos, vocês também tem outros medos, cada um faz a leitura daquilo que acha ser um perigo. Para Freud, o medo era algo muito além da consciência e remontava a subconsciência – que depois seu discípulo e aluno, Jung, vai chamar de inconsciente – que era uma especie de “deposito” daquilo que aprendemos com o convívio da cultura. Depois Jung diria – abrangendo ainda mais – que existiria um inconsciente coletivo que uma ideia se espalharia para as pessoas numa especie de ligação coletiva, ou seja, temos uma linha wi-fi do subconsciente. Mas, você deve estar me perguntando, o que isso tem a ver com o medo da cadeira de rodas? Qual o simbolismo mor da cadeira de rodas? Uma prisão. Mas se analisarmos bem, também tem o simbolismo estético de algo que não demonstra uma vida saudável por causa da ideia de doença por seculos, como se isso fosse uma doença, então, a tal apresentadora, sabe que se ela ficar numa cadeira de rodas, ela não será mais apresentadora. Por mais que a mídia faça campanhas contra o preconceito, o conservadorismo do nosso povo é tão latente – e a imagem do cadeirante como “coitado” – que nunca teremos apresentadores cadeirantes, cantores cadeirantes, escritores cadeirantes, toda gama de oficio cadeirante. Para se ter uma ideia, nem mesmo publicitários com deficiência cadeirantes, temos. Qual agencia de publicidade quer ver veiculada uma pessoa cadeirante no seu corpo de funcionários? Qual canal de TV vai querer uma apresentador cadeirante? Mas para mim é um ato muito mais de vaidade – porque uma mulher desejada, copiada e invejada – porque envolve essas imagens todas. Esse pensamente é valido do direito dela dizê-lo, mas isso alimenta certos paradigmas.

Somos uma imagem arquetípica, porque somos o mistério que nunca e nem ninguém nos decifrou. Somos uma especie de enigma da esfinge que ninguém conseguiu responder, porque se o homem na manha tem quatro patas (infância), tem duas a tarde (adulto) e três a noite (velhice), onde fica as pessoas que não andam, não enxergam ou não escutam nessa historia toda? Onde ficaremos escondido se sair uma guerra? O que acontece conosco quando há crise financeiras e politicas? E outra, sempre tem outra quando se trata dessas beldades que se tornam “cristãs”, ela não vai se tornar paraplégica, ela vai se tornar uma amputada, sem a perna e talvez, sem as nádegas. Ela não fraturará a coluna. Infelizmente, como todos daqui, há paradigmas que não somem e muito menos mudam. O que dizer de pessoas que nem sabem a diferença de paraplégica e amputado? O que dizer das pessoas que postam fotos de cadeirantes pedindo “amém”? Aliás, como estudante das religiões, esse “amém” é muito sagrado para ser publicado em rede sociais, além de alimentar a imagem de doença e um ser depressivo e amargurado. Como a apresentadora disse. Como a revista publicou. Como todo mundo diz. Somo seres humanos tristes, porque não temos autonomia, mas nossa autonomia, vem muito mais do que uma autonomia vaidosa. Ainda o nosso segmento além de ter a Síndrome de Estocolmo (são pessoas que acabam amando seus sequestradores), ainda dão o direito as pessoas terem o medo das nossas cadeiras de rodas, alimentando esse paradigma, fazendo dessas “lendas” algo democrático.

Temos que lembrar que o medo em si mesmo é legitimo, mas medos e declarações que podem ofender um determinado segmento ou quem é cadeirante, já não é mais um medo. Eu particularmente, acho esse tipo de fala com um “querer se aparecer na mídia” como se fosse alguma “melancia no pescoço” porque a pessoa quer o foco nela. Ainda mais quando ela se torna adepta a uma seita que virou “moda”, não segue Jesus, não segue seus preceitos, ainda querem arrotar moral para a sociedade. Quando digo preceitos cristãos, estou falando no Sermão da Montanha, nos quatro evangelhos onde Jesus ensinou. Não digo outros. Não digo ensinamentos teológicos, digo a essência do cristianismo e o ensinamento do sei suposto idealizador (porque você pode ler que Jesus não queria diferenciar do judaísmo, mas reformá-lo). Mas ainda sim, hoje em dia, as pessoas ficam muito mais em formas de pensar que tragam vaidade, muita vaidade. O resto é historinha para velhinha chorar.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 09/03/2015

Estética e ética – o novo prisma da inclusão

o que o segmento das pessoas com deficiência pensam da inclusão? Nada. Porque não passaram ainda da sua adolescência e pessoas que não passam da adolescência merecem sem sombra de duvida, serem tratados como criancinhas mimadas que querem sempre um colo. Querem sempre duas coisas, sexo como se fosse essencial, mas só é um ponto e só ter lazer. A base da inclusão é acessibilidade, sem a acessibilidade as outras coisas caem por terra. Ponto. O resto é coisa de teórico que quer justificar esse tipo de coisa como sendo saudável, pois não é saudável.

Quando falamos de estética (o belo e o não belo) falamos de estereótipos que as pessoas colocam cada grupo como se fosse uma prateleira que devêssemos arrumar a cada uma. Para o filósofo alemão Hegel, tudo que sai da alma humana é muito mais perfeito, porque achava ele, que tudo que saia da alma humana era belo e perfeito do que na natureza. Ele via nas obras de arte algo que tornasse uma folha, por exemplo, diferente das outras e enquanto, as obras de arte, não haveria essa diferenciação. Então, podemos concluir, que o belo e o que achamos belo é uma constatação daquilo que dou o valor do que é belo ou não e o que a beleza implica em ser ou não subjetiva. Só para explicar, subjetivo é tudo aquilo que achamos de um objeto ou alguém dentro dos valores que essas analises são submetidos e esses valores tomados como fenômeno da consciência. Se eu acho um gato bonito, esse “bonito” está dentro do reflexo daquilo que eu creio ser “bonito” dentro dos valores que recebo, porque ele pode não ser preto, por exemplo, por causa das crenças que estão embutidas naquele gato preto. Toda crença é virtual ou não, porque ela tem uma potencialização de ser um ato, ou só é uma potencialização da consciência desse ato em si mesmo. Todo valor subjetivo é a historia construída das convivências que façamos dentro da vida social, então, se achamos belo é porque se apegamos naquilo que é por natureza dos nossos valores e necessidades. Como disse o próprio Hegel, tudo que temos a ideia de beleza achamos a ideia da beleza bela e não o objeto necessariamente.

Ainda somos muito platônicos e sempre gostamos daquilo que nos faltam e não aquilo que nos dão prazer, porque somos uma sociedade que a nossa cultura foi construída dentro dos ideais das ideias da igreja medievalista, onde o prazer era só a luxuria e não havia outro tipo de prazer. Posso ter prazer em ouvi uma musica, não que eu necessita ouvi uma musica, eu ouço uma musica por gostar e me sentir bem com aquela musica. Não necessariamente – como a psicanalise freudiana ainda insiste em afirmar – ter um prazer sexualmente falando, mas um prazer das imagens que aquela determinada musica pode me trazer para auxiliar a minha calma, de repente. Mas é claro, em alguns aspectos, somos literalmente reprimidos. Se os que não tem deficiência, ou não aparenta ter, são reprimidos, imagine as pessoas com deficiência. Só que há o fator da escolha, ou escolhemos ficar oprimidos (por ser comodo), ou escolhemos sair do nosso “mudinho” de faz de conta e é isso que ainda nos atrasa quanto ao debate real sobre a inclusão.

A maioria das pessoas com deficiência e seus responsáveis são na verdade, “Alices” que ainda não saíram do país das maravilhas. Não somos seres humanos porque não somos e não podemos nos defender, não podemos colocar coisas no lugar, mas todo mundo tem uma limitação. Nem todo mundo pode fazer pão, precisa do padeiro. Todo mundo não pode fazer um pneu ou arrumar a câmera de ar de um pneu, precisa do borracheiro. Mas isso não quer dizer que a pessoa seja inútil por não poder fazer o pão e nem arrumar a câmera de ar de um pneu, apenas tem varias limitações de não fazer isso. Nem a própria pessoa acha isso. Ao contrario das pessoas com deficiência que pensam que tudo vai ser resolvido se acomodando no mundo virtual, pois não vai, não vamos resolver a vida olhando o perfil do outro ou postando fotos que de repente, nada tem a ver com a inclusão dos PCDs. Dai entramos na estética, no vulgar e não vulgar e as regras para saberem o que é vulgar e o que não é vulgar. Pois podemos fazer uma campanha de conscientização da sexualidade das pessoas com deficiência sem expor o lado vulgar e sim, mostrar o lado humano, um lado que o homem com deficiência é um ser humano como outro qualquer (com seus valores e suas visões do mundo lá fora segundo sua vivencia) e a mulher com deficiência é também um ser humano como qualquer mulher na sociedade (com seus valores e sua visão do mundo, mas claro, sendo sempre muito mais reprimida do que o homem). Para quê vamos limitar essa visão por causa de uma liberdade forjada como essa? Postar fotos de homens cadeirantes sem camisa ou mulheres cadeirantes com olhares provocadores vão mudar a visão das pessoas com deficiência? Não. Não é impondo que vamos mudar a visão das pessoas com deficiência, mas educando com informações e estudos e dizer que somos pessoas e merecemos sermos tratados como pessoas. Não é fotos de poses provocativas que isso vai mudar e outras coisas que não vem ao caso, mas que é um ponto e não a regra.

Somos uma sociedade hegeliana que achamos belo não por causa do belo na essência, achamos belo porque a ideia do belo como uma coisa angelical ou uma coisa “superadora” (como se uma foto superassem a deficiência), nos agrada e porque ainda ficamos no mundo da fantasia. O país das maravilhas de Carrol é isso, o mundo que Alice constrói para de repente, fugi da realidade que o cerca e por sermos muito mais centrados nos mitos. Ao se tornar paraplégico um sujeito pode muito bem, colocar na cabeça o mito de Hércules ou o mito de Aquiles, que ainda está na nossa cultura quando queremos modelar corpos ou fazer o papel de heróis. Mas não somos heróis. Somos seres vaidosos. Somos seres que desejamos e esse desejo, ruim ou bom, se torna um sofrimento porque graças a ele somos levados a acreditar na imagem que fabricamos. Aliás, a maioria que vejo e conheço não faz fisioterapia, ginasticas esportivas porque gostam, porque querem ser heróis e querem superar sempre o que não pode ser superado e é regra geral isso. Você não supera uma perda de um braço, você não supera uma cadeira de rodas, você não supera uma dificuldade sensorial, você convive e aceita que aquilo não vai mudar. Pode ter tratamento com a célula tronco, pode ter exoesqueleto, mas a realidade que somos a deficiência e a deficiência está em nós. Ponto. A prótese, a cadeira de rodas, o IC, entre outras coisas, são aparelhos para ajudar a ter de repente, um maior conforto. Mas não vai fazer você superar, não vai fazer você ser diferente. Você não é isento de deficiência e você não vai tirar a deficiência em você. Então se acostuma-se e não ache que a deficiência é feia, porque superamos a visão popular da deficiência, superamos o que as pessoas fazem de nós. Não é se enfeitando, não tendo uma visão “positiva” que isso vai se torna regra de uma exceção e nem sempre a realidade é pessimista, pois aceitar o que é é muito otimista e faz você viver muito melhor.

Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 24/02/2015

Marginalizados iludidos – eu sou cadeirante.

Um monge toca para uma criança com deficiência.

Um monge toca para uma criança com deficiência.

Nunca me vi além da minha deficiência, sempre tive conflitos, mas nunca me vi além daquilo que sou. Essa é a entrave de muito cadeirante, muito muletante, muito surdo ou cego, sempre se acham fora de suas deficiências, mas somos a deficiência em si mesmo. Outro problema é que as pessoas acham que tem que provar algo para os outros, tem que homenagear os outro para “parecerem” bons, porque assim que é a nossa sociedade e é assim que se deve ser. Por isso que aparece correntes que nada ajudam a pessoa, mas um gesto sim, um gesto é muito melhor do que mil palavras. Palavras são signos para expressar sentimentos e pensamentos, que podem existir ou não podem existir, mas que não é o que somos. Podemos até usar jogos de linguagem para satisfazer nosso próprio ego, mas nunca serão o que você é de verdade.

O encontro consigo mesmo é um exercício que deve fazer para entender quem você realmente é. Por exemplo, quando eu me encontrei como cadeirante e comecei a enxergar a cadeira de rodas como parte do meu corpo – ou extensão – comecei a resolver vários conflitos dentro de mim. Porque nesse momento eu sou um cadeirante, nasci são, mas por falta de oxigenação cerebral, eu tenho paralisia cerebral. Sou a paralisia cerebral, eu sou cadeirante, eu sou o momento agora e nesse instante sou escritor e não é o fato de eu ser cadeirante ou eu ser a paralisia cerebral – não quer dizer que meu cérebro esteja paralisado – que não posso ser um escritor ou escrever este texto. Porque a sociedade sempre construiu uma imagem – ou estereótipo – que as pessoas com deficiência devem superar sempre no âmbito físico e nunca intelectual. Não vimos a mídia falar de repórteres com deficiência, escritores com deficiência, atrizes com deficiência e sim sempre, esportista com deficiência. Eu não sou esportista, muitos ao meu redor não são esportistas, então, não podemos aparecer na mídia, não somos rendável dentro das premissas de uma boa venda de jornal ou revista. Afinal, quem é esse “deficiente” que quer sair do lugar que fazemos para ele ficar? O esporte rende jornal, o esporte rende a ideia de “exemplos de superação”, o esporte as pessoas querem mentir para si mesmos que são aquilo que não são, aquilo que não aceitam e ficam inventando ilusões e essas ilusões se tornam verdade. O fato que o para-esportista é uma pessoa com deficiência, uma pessoa não é um “deus” apesar de carregar o fogo da deusa grega Niké (vitoria), que é o mesmo fogo de Prometheus.

Uma pessoa marginalizada é uma pessoa que esta a margem de algo, se estamos a margem de algo é porque nos colocamos como tal. Não existe condição que as pessoas estão que a própria não se colocou, porque sempre vai pensar que as outras pessoas devem a aceitar, mas você mesmo deve se aceitar porque nesse momento você é isso, você esta numa cadeira de rodas (ou outro aparelho, como sou cadeirante eu uso cadeira de rodas), mas nós sempre aceitamos o que a mente trás como verdade, essa verdade é “se eu fosse”. Esse “se eu fosse” é uma grande entrave para aceitação de uma deficiência e com isso superar suas limitações como se fossem algo natural. Agora nós somos um cadeirante, agora estamos numa cadeira de rodas, agora somos nós e nossas cadeiras de rodas e isso não vai mudar nesses momento. Nada que estudou, nada que aprendeu, nada que faz no seu cotidiano vai mudar isso, pois podemos ser esportistas, jornalistas, publicitários, poetas, escritores e etc, não vai mudar a nossa condição de cadeirante. Não existe “se eu fosse” porque não somos, não estamos em uma outra dimensão que podemos não ser um cadeirante, estamos nessa, estamos nessa vida, estamos nesse momento. Muitos não se aceitam porque ficam nesse “se eu fosse” e esquecem o “eu sou assim”, porque sempre estamos presos no tempo, porque sempre estamos presos o que eramos e o que podemos ser. Outra coisa que vejo é em relação ao casal – pode ser que estou errado, afinal não sou senhor da verdade e nem existe verdades absolutas – muitas pessoas arrumam pessoas que não tem deficiência para satisfazer o seu próprio ego, porque ainda estão no “se eu fosse” e não estão no “eu sou assim”. Esse tipo de relacionamento é – como diria Renato Russo – “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”, ou seja, vamos sempre nos marginalizar sempre aceitando a ideia social, sempre não aceitando nossa condição.

Dai mora a ilusão. A ilusão é definida como confusão da nossa percepção, ou mais ainda, iludir é enganar-se e burlar ao outro e a si mesmo. Burlar aquilo que é por natureza e não podemos ver graças a confusão da nossa percepção a imagens que aprendemos por si mesmo. Aquela pessoa que se ilude é aquela pessoa que escapa daquilo que é realidade – seja social ou intima – pois se pusermos na nossa mente que tudo é tragedia, o mundo passa a ser tragedia, se pusermos na mente que o mundo não existe e sim nossas próprias escolhas, o mundo perde o sentido que todos impõem a nós ou nos deixamos impor. No caso da deficiência é se iludir com falsas promessas de cura, tanto no âmbito religioso, quanto no âmbito cientifico, porque nos iludimos ainda com a perfeição. A perfeição que nós sempre buscamos não passa de uma lógica somente humana, não existe perfeição na natureza, nada é igual a outra coisa. Aliás, no latim se derivou o termo iludir veio do sufixo “in” e ludo que é brincar, ficaria “eu brinco” e assim, brincamos com nosso desejo de ser algo, uma esperança enganosa para construir uma realidade que não existe. Iludir a si mesmo é causar uma impressão enganosa, é ter uma esperança de algo desejável. Por isso que várias filosofias – principalmente as orientais principalmente o budismo – vai dizer que todo desejo é uma satisfação do seu ego (eu), mas esse ego, não é nossa verdadeira identidade e sim, a falsa que o meio social nos ilude. Voltamos ao iludir, porque a ilusão sempre é algo que fazemos para burlar a realidade, o que somos, o que poderíamos ser, mas não somos. O falso eu (ego ilusório) sempre é algo que a mente transforma em realidade, sempre se transforma em algo concreto e não é, é uma ilusão. Então pouco me importa tratamentos que ainda não existem, dinheiro que ainda não existe, cadeiras de rodas que eu poderia ter, mas eu não tenho nesse exato momento, porque o agora que você vive e não o depois, ou o que você foi. Focar não é trazer a realidade, focar é direcionar sua atenção a um objetivo que é a consciência de um ato que ainda é um virtualização daquilo que não é em ato. O preconceito começa consigo mesmo que quer ser o que a sociedade deseja que somos, mas não somos o que o outro deseja, mas o que desejamos para si mesmo. Aceitar não é a conformação da situação e sim, a transcendência de algo mal resolvido dentro de nós mesmos, dai, podemos superar mais tranquilamente sem mesmo, agredir ou precisar de alguém para aceitar aquilo que você próprio aceita.

As pessoas com deficiência devem ter dentro de si mesmo que são pessoas que tem certas limitações, mas que são pessoas e não vai mudar nada se iludir daquilo que não são, daquilo que não vão ter e a sua força sera infinita. Por que? Porque acionamos nossa verdadeira identidade, nosso verdadeiro eu, e não precisamos nos agarrar em ídolos que querem ser bajulados para satisfazer suas próprias frustrações. Como o negro é negro, como o gay é gay, como tudo que cada um nasce caracterizando uma individualidade, ou seja, a verdadeira identidade é a aceitação do que somos realmente. Não nascemos marginalizados, nos tornamos marginalizados porque são imagens sociais de uma realidade que não existe, talvez, nunca irá realizar essa realidade, mas nunca deixaremos de ser o que somos. Mesmo se irmos nos lugares que nos prometam cura, mesmo se acreditarmos em ideologias e até mesmo na ciência, mas não deixaremos de ter uma deficiência. Não deixamos de ser o que somos, não deixamos o que vivemos agora, a deficiência.

Amauri Nolasco Sanches Júnior

Publicitário, técnico de informática e estudante de filosofia ←

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