Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 2 de abril de 2016

Cuidadora: Louisa Clark (Como eu era antes de você)

Aristóteles, o filósofo grego, dizia que o conhecimento era adquirido com a pratica e essa pratica tem que ser alcançada com a experiência, sem achar que não temos pratica não teremos a sabedoria. Se você não convive com pessoas com deficiência, vai saber o que sente ou o que precisa uma pessoa com deficiência? Claro que não, não sabemos qual o gosto de uma fruta se não saborearmos (gosto só se sente saboreando, pois, comer é engolir apenas) e nesse sentido, toda o pensamento de Aristóteles, se constrói porque para ele, não precisamos de um outro mundo, mas fazer o bem e viver equilibradamente, nesse mundo. E nesse contexto da pratica se faz a história da escritora e jornalista Jojo Moyer: Como eu era antes de você e depois a continuação: Depois de você. Pois não se constrói um mundo realista sem o realismo pratico, não se constrói carreiras, não se constrói vínculos sem entender certas coisas e no que se diz no cerne da deficiência, não se entende a deficiência se não conviver com a deficiência e esses livros fazem um papel interessante. Cada vez mais, os jovens têm a tendência de abrir sua mente (com salvas exceções que existem em qualquer segmento social que se preste), entender que o mundo não é só dele e não tem só ele no mundo, como tem pessoas negras, homossexuais, mulheres, crianças e pessoas deficientes.

Louisa Clark é mais uma moça no interior da Inglaterra (a cidade onde mora fica perto de Londres e num castelo medieval), onde tem uma vida pacata, com um emprego que não gosta, com um namorado que não gosta, com uma vida que não programou porque se acha “vitima” de uma sorte do destino. A vida te humilhou na adolescência e para a vida não humilhar ainda mais Lou, ela se esconde nessa vida niilista. Talvez, muito lá no fundo vi Nietzsche na trama, um niilismo negativo (onde a pessoa não acredita em nada, não tem nenhum motivo de acreditar na vida) e depois, quando ela descobriu um outro mundo, nasce a vontade da potência que fez ela decidir sua vida, decidir até quando ela pode ir. Mas a vida sempre lhe dará desafios, acidentes, lhe dará as rédeas erradas e as certas. Mas o que é errado e certo nessa vida? O que pode ou o que não pode ser feito ou dito? Eis a questão do problema, a origem do certo e do errado está em mossas próprias escolhas.

Já Will Traynor sempre foi um rapaz ativo, aliás, a história começa com o acidente dele exatamente porque não conseguiu parar de falar no celular para pegar um táxi. Como um Diretor Executivo (que em inglês se chama CEO), tinha que resolver milhares de coisas, mas, a vida te mostrou que ou você olha para si ou não terá “si” para olhar e foi atropelado por uma motocicleta. Só que Will achava que a culpa era da vida, não pensou, não refletiu e ainda preferiu se comportar como um menino mimado que não assume suas responsabilidades e não viu que a moto não foi a culpada, mas ele próprio. Quem estava no celular? Quem ao invés de prestar atenção na rua, estava prestando atenção no táxi? Mas podem me dizer: “Ah Amauri, você nasceu com deficiência e está acostumado”, mas tenho minhas frustrações e também meus dessabores, como não ter um tratamento de saúde decente, como ter um transporte decente, como não ter uma educação decente, ter um pensamento retrógado o bastante para os empresários ainda acharem que você é incapaz de soltar um peido sozinho. O Will tinha seu seguro, tinha aposentadoria por invalides, tinha a mãe que era advogada e ganhava bem, seu pai era o chefe que cuidava do castelo. O que mais ele queria? Isso não é um comportamento de um adolescente que se revolta daquilo que ele próprio fez? Quantos deficientes queriam estar no lugar dele? Mas não, ele quis se matar, ele quis acabar com a vida num drama meio homérico para mostrar para posterioridade, que Will Traynor era um herói que lutou até o fim, mas não é bem assim.

O cerne do problema está no seguinte: tanto Will como a Lou tinha uma vida vazia e um ajudou em vários aspectos, mas não deixaram a o orgulho de lado. Não deixaram ver que a vida é muito mais de poder fazer coisas, mas de viver coisas, porque os relacionamentos não são mais movidos por uma espiritualidade que liga um ao outro, mas sempre o material que importa, o mundo não para para nós entendermos certas coisas. Há uma espiritualidade dentro da deficiência, há uma espiritualidade dentro dos relacionamentos, há uma espiritualidade até dentro da solidão. Pois o grande problema está aí, existem casais ateus que entenderam muito mais isso do que casai religiosos, casais que vão a igreja, ou casais que aceitam tudo para um ficar com o outro (sem violência, é claro). Mas existem casais que ensinam um ao outro muito mais do que, muito pai e mãe ou até mesmo, muito professor por aí e é verdade. Porque casais de verdade tem um elo muito mais rico do que casais que só se importam com uma parte do relacionamento – como só o sexo, como só o amor, como só a aparecia – porque tudo isso é um conjunto que não temos na trama, pois os dois são um casal de fracassados tipo Bonnie e Clyde. Na essência da coisa, os ingleses são muito mais polidos (ter a educação, mas são extremamente cruéis no sentido extremo da palavra) do que os nazistas, porque ele nunca poderá expressar verdadeiramente seus sentimentos em nome de uma aparência que não é diferente de um sul americano. Salvas exceções como o físico Stephen Hawking que quando viu que o barco do teu relacionamento ia afundar, pulou fora e foi viver sua vida. Will não olhou esses exemplos, Will era só mais um deficiente morrer para ensinar alguma coisa a alguém, um herói que mostra o fascínio do ser humano pelo imperfeito, pelo sofrimento, pelo desconhecido e pelo fracasso de ser atingido por uma moto por causa da sua desgraçada escolha de atravessar a rua com um celular e ainda, achar que é a vítima do mundo. É por isso a sua escolha de morrer, porque ele sabe que o único culpado pela sua deficiência é dele. Quantos paladinos da inclusão não são um Will? Pior de tudo, quantos não usam a suas deficiências para fazer palestras e fazerem um desserviço a anos de trabalho de inclusão dentro da sociedade?

Por outro lado, não é uma trama diferente do Corcunda de Notre Dame ou até mesmo o curta metragem Cordas, onde a pessoa deficiente deve ensinar alguma coisa e sair na trama como o herói sofredor que virou mártir, um exemplo de superação. Mas ele morreu, não pode haver superação na morte, apenas é uma fuga do medo que o ser humano tem de ficar nas mesmas condições. O Corcunda não pôde ficar com a Esmeralda, o Pablo não pôde ficar com a Maria, o Will não pôde ficar com a Lou. É errado isso, é errado mostrar a realidade meio nazifascista em acreditar que as pessoas devem ser iguais, que as pessoas devem ser perfeitas, as pessoas devem ter suas vidas arreigadas de companhias e um maior número de bens possíveis.  Will era isso e quando a vida te mostrou que não importa os bens, não importa quantos casos você tenha, quanto poder se tem, você vai ser sempre um ser humano, um símio com inteligência maior com os outros símios e dominou o planeta e o resto é apenas, consequência. Mas todo homem “fodão” – aquele bem resolvido, com milhares de mulheres ao seu redor, um poder incalculável – é apenas um covarde que fica atrás de uma mesa, de um paletó, ostentando um ser que ele não é, não me surpreende nem um pouco, que Will quis muito mais a morte do que ficar com a Louisa.

Isso você não percebe porque os dois livros são relatos da Lou do quanto o Will fez diferença dentro da sua vida, são relatos de uma pessoa encantada pelo suposto exemplo de vida e de uma mulher apaixonada que teve que fazer escolhas e na verdade, não o fez. Não é uma distopia, pois a distopia é muito mais interessante e o herói ainda reage, acho eu que em última análise, é mais uma história “exemplo de superação” a ser seguida e a chorar. É um livro para entender o verdadeiro papel do cuidador e como as pessoas tetraplégicas reagem diante da situação, é uma desconstrução da real inclusão das pessoas deficientes que na visão do livro, devem morrer para completar a saga do herói e só. Na essência está dizendo não muito diferente do que os nazistas pensavam (essencialmente, Hitler), que somos pessoas sofredoras e que temos que ter uma morte digna, um descanso da dor eterna de não ser perfeito. Este aí nas manchetes: o biólogo Richard Dawkins dizer que é imoral uma mãe ter um filho com síndrome de down, a Espanha liberar o aborto para bebes com doenças genéticas, achar a cura de paraplegia ou tetraplegia, não empregar as pessoas deficientes e tudo isso, veio do pensamento nazista. No caso do Will, lembrei da música Pulso da cantora Pitty: “(…)depois do erro a redenção(…)”, ou seja, mania transformar fracassados em exemplo sei lá o quê.

Amauri Nolasco Sanches Jr, 40, escritor

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O CAMINHO 

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