Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 24 de fevereiro de 2013

Encontros sexuais – As Sessões

Eu assisti o filme As Sessões e confesso ter gostado muito de dois fatores que me chamaram bastante a atenção, a sexualidade das pessoas com deficiência que é ainda um tabusão entre todos nós e o papel da substituta sexual. A história se passa em meados de 1988 e é baseado num artigo intitulado Encontro com uma Substituta Sexual de um poeta norte – americano Mark O’brien (com o ator Jonh Hawkes) que ao ser convidado a escrever esse artigo, se viu em um enorme paradigma. Como escrever um artigo falando de sexualidade se nunca teve nenhuma experiencia sobre? Dai em uma das confissões para o padre, o próprio padre incentiva ele a procurar essa terapeuta para ver sua felicidade. Até que ele cria coragem e procura essa terapeuta e diz que nunca teve uma experiencia sexual, que ele não sabia como seria essa relação. Dai entra a substituta Cheryl (Helen Hunt) que faz ele se iniciar na arte do ato sexual.

O filme mostra muitas situações onde passamos outras que descobrimos, porque até na questão da paixão – quando ele se apaixona por umas de suas cuidadoras – é mostrado com perfeição. Mas infelizmente – como foi mostrado no filme – as vezes somos correspondidos, mas as pessoas não sabem lhe dar com aquilo. Ainda na questão da perfeição e no corpo idealizado, ainda somos aquele ser que evoluiu de um tronco evolutivo primata, que mesmo com milhões de anos de raciocínio, ainda temos isso. É um filme com cenas bem explicitas de como é esse trabalho e como essas substitutas trabalham com esses pacientes, onde não podem se locomover. Mostra como é encarada – mesmo numa sociedade escolarizada como a norte – americana – a nossa sexualidade como pessoas que mesmo numa cadeira de rodas, temos e sentimos. Nesse ponto vou a fundo as vezes explorando a historia desse filmes, muito embora eu tenha preferencia em usar a vida real.

Não sejamos hipócritas, todos já tiveram alguma experiencia sexual, nem que seja uma masturbação. Nós pessoa com deficiência não somos diferentes de nenhum ser humano, sentimos vontades e potencializamos essa vontade com algum ato, esse ato, mostra essa mesma sintonia. A energia sexual é a mais poderosa que existe dentro de qualquer ser humano ou animal, isso cientificamente provado, onde podemos melhorar muitas coisas como a autoestima. Muitos seculos que nós PCDs, somos tratados como eternas crianças e não temos essa iniciação e isso é fato, e se fomos conversar, ou se muda de assunto ou se tira nosso “demônio”. A patética tática protestante (vulgo evangélicos) é dizer que se nascemos normais iriamos fazer coisas piores e se nascemos deficientes, é porque temos que segurar nossa natureza demoníaca (não estou brincando, ouvi isso mesmo).

Há uma frase que marca o intuito de Mark e que marca toda a trajetória sexual de qualquer homem ou mulher com alguma deficiência: “Eu pensei que depois da Cheryl as coisas iriam ficar diferentes, não, não ficaram!”. Ele disse isso em uma conversa com o padre – fato curioso que o padre entendia o Mark perfeitamente e de certa forma, entendeu muito melhor – que caracteriza o sentimento de frustração. Por que ele sentiu essa frustração? Na verdade ele não quis uma relação sexual por satisfazer um desejo, ele queria atingir talvez alguém, tirar talvez a sua culpa de ter morrido sua irmã mais nova.

Bingo! Muitas pessoas com deficiência, tem essa culpa no escopo religioso – por aquela questão de ter nascido assim por algum pecado ou por um castigo – ter culpa por a mãe ter dado muita atenção a nós e pouco ao seus irmãos. Essa culpa não deixa varias pessoas terem relações e isso é fato, porque você torna a sua felicidade em um martírio, porque a outra pessoa não é. A sociedade faz de sua deficiência uma arma para dizer para essa mesma sociedade – isso dês de tempos imemoriais – que se não forem “bonzinhos” irão ter consequências desastrosas e umas dessas consequências é a deficiência.

Por séculos a fio, a deficiência é um castigo que o ser humano carrega, ou por pecado dos seus pais, ou por seus próprios pecados; outros até chegam a raias da insanidade dizendo que fizemos algo em outra vida, isso acarretou uma divida a ser paga pela condição de deficiente. O que podemos dizer se a pessoa é ou não acometida de castigos divinos ou não? Qual a base dessas besteiradas sem tamanho? Eu particularmente, tenho em vista que nasci nessa condição para aprender algo, nem que seja pequeno, mas que aprendi muito nesses anos. O filme retrata os medos e as responsabilidades que deveríamos também fazer valer, mas se escondemos no intuito de sempre achar que estamos sendo vitimas do destino, mas não estamos.

Dois filósofos entenderam muito bem o intuito da culpa como um poder centralizante dentro de uma certa dose de poder, um foi o filósofo alemão Nietzsche que viveu em meados do século dezenove e outro foi o filosofo francês contemporâneo Foucault. Primeiro temos que entender onde vem essa culpa e se isso tem a ver ou não com a moral cristã. Na verdade o ser humano moderno, de certa forma e de certas sociedades e culturas, foram moldados moralmente sobre o homem medieval. Nós fomos moldados, de certa forma, a cultura portuguesa e sua mais fiel religiosidade na Igreja Católica Apostólica Romana, ou seja, a nossa moral – hoje as morais estão se quebrando – ficou arreigada ainda com o sexo como uma coisa suja, um pecado que por assim dizer, não pode acontecer. No filme há uma certa diferença entre nós e os norte-americanos exatamente na ordem moral, ou seja, eles tratam esses assuntos muito mais práticos do que nós. Muito porem ainda com uma certa religiosidade moralista por causa da religião protestante cristã – que aqui vem com o nome de religião evangélica que é um erro, pois todos que seguem o evangelho são evangélicos – que ainda impera dentro da cultura de lá. Mas avançamos dentro do assunto até hoje muitos pensamentos e a ética/moral, onde leis são feitas e apresentadas com essa base.

Como superar essa culpa? Nietzsche – ele foi por muito tempo um protestante e teve uma família protestante, tanto, que veio de uma tradição de pastores que seria se não toma-se o caminho da filologia e depois filosofia – fala que todo ser humano deveria superar essa culpa por razões de sua própria felicidade. O importante é o amor fati (amor ao destino) de aceitar sua condição do hoje, sua condição de pessoa com deficiência, sua condição de pobre e não esperar nada do amanhã, nada do ontem lhe será útil. Essa culpa vem da lógica socrática/platônica que o apostolo Paulo levou para o cristianismo, por ele ser um judeu helenizado e conhecedor de toda filosofia grega. A culpa vem de Adão, ou melhor, a culpa vem de Eva que convenceu Adão de comer o Fruto do conhecimento, que para os cristãos, esse conhecimento é o sexo, é a malicia. Outra culpa é a morte de Jesus na cruz que morreu pela humanidade, para tirar todos os pecados e por desfazer o pecado original que Adão e Eva cometeu. Para os protestantes o Velho Testamento é o período da lei – num Deus que pune e incentiva a guerra e as pragas – e o Novo Testamento é o período da Graça, como se Jesus fizesse uma aliança com Deus e vivêssemos em paz com ele.

Para entender o que chamamos de moral cristã temos que entender um pouco o período medieval. O que foi o período medieval? Esses feudos com castelos e cidades fortificadas eram na verdade fazendas romanas que viraram fortalezas contra os bárbaros que destruíram Roma, então os nobres desses fazendas disseram aos cidadãos que trabalhassem para eles, que eles os protegiam. A moral começa como um ato de conter a reprodução e duas medidas foram tomadas, uma é espalhar que os cristãos eram proibidos de fazer sexo nos dias santos e quase todo dia era dia santo, outra medida era a proibição do clero de ter família e ter filho (por razões que desconheço, alguns papas tinham filhos). Nesse molde a moral foi construída dentro da sociedade ocidental, que o filósofo Nietzsche irá afirmar que Deus está morto, que nós o matamos.

O filósofo alemão dizia que acreditava no Deus que dança, um deus alegre, um deus que não condenasse a alegria e a satisfação de nossos desejos para termos a verdadeira felicidade. A culpa é a inferiorização do pobre, do aleijado, do pecador, porque o homem superior pensa no Bem e não perpetua o mal. Mas há uma diferença entre ser bom e ser do bem, porque “BOM” vem do latim bonnus que significa guerreiro forte, destemido e o cristianismo transformou em um homem piedoso e pacifico. Para superarmos essa culpa temo que transcender a essa moral, ir além do que aprendemos, não ligar ao julgamento dos “outros”. Tanto que no prefacio de uma das suas obras O Anticristo, ele diz que temos que superar essa humanidade desprezando toda essa moral.

Usando esse tipo de argumento e usando também fatores históricos o filósofo Foucault vai fazer um parâmetro entre a sexualidade e o poder, porque o modelo moral do perfeito e do certo vem do que é perfeito e o que não é perfeito. Para isso, a doutrina da igreja usa na idade média, um argumento e faz uma discussão o que é ou não racional. O que é pratica de um ser racional e o que é pratica de um ser irracional, então se fazem estudos aos seres humanos mentalmente perturbados e as pessoas com deficiência mental abrindo manicômios a essas pessoas. Ora, só o perfeito vai interagir dentro de uma sociedade na qual reina o bem (não o BOM que não é pacifico), e que somente o perfeito vai ser o ser humano portador de uma alma, ele raciocina, o imperfeito não. Vimos ainda restos da tradição greco-romana, uma tradição na qual o poder é usado até para conduzir o ser humano a sua sexualidade, ou seja, ninguém pode moralmente falar ou insinuar seu desejo sexual.

O poder nasce onde a determinação da vida pessoal – vida privada que damos aval para o poder se sentir a vontade de regular as determinações de uma sociedade – que ai sim, você dá o aval para as pessoas determinarem seu destino e sua vontade. Umas das mais famosas frases do filósofo, ele diz que o poder damos ao outro quando falamos de nossa sexualidade, abrimos em publico o que sentimos e assim, o outro está no poder. Ele mais do que ninguém conheceu o preconceito por ser homossexual (ou homoafetivo), ainda depois se descobriu que ele era sadomasoquista e morreu em 1984 nas infecções causadas pelo vírus HIV. Como ele descobriu algo tão obvio?

Sempre disse que o problema dos PCDs era o poder que ele deposita nas pessoas em sua volta, como se essas pessoas pudessem dar uma resposta, mas não vão dar essa resposta que está dentro de você mesmo. Mas não sou socrático ao ponto de achar que a vida tem que ser vivida racionalmente – mesmo o porque também sentimos – mas temos que nos conhecer para ai sim, conhecer a sociedade onde vivemos. Está ai um pouco do estudo cultural da moral onde fomos criados, onde o que impera infelizmente é a hipocrisia reinante. É um bom filme, só ver e admirar belas performasses dos atores

Amauri Nolasco Sanches Junior

Pessoa com deficiência física, cadeirante, tenho sequelas de paralisia cerebral, sou formado em publicidade, técnico de informática, auto-didata em filosofia e escrito

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Responses

  1. Ótimo Artigo, não conhecia o tema, um amigo tetraplégico me convidou para assistir este filme com ele. foi um final de semana maravilhoso. tive oportunidade de conhecer universo bem destinto do meu, ele me contou que aqui no pais esta pratica é proibida e que conhece muitos cadeirantes que virgens. gostaria de saber mais sobre como ser uma substituta.

    • Obrigado por comentar…aqui estamos gatinhando nessa questão. Há muita moralidade e como estamos em uma crise politica e moral, esses temas ficam muito mais tabus.


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