Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 31 de outubro de 2015

Cuidar da sua deficiência, namoramos também

Uma colega que também é deficiente, fez um desabafo que a muito tempo denuncio dentro do segmento das pessoas com deficiência, a velha pergunta reaparece: “ você namoraria uma pessoa com deficiência?” e o que mais assusta, é que essa mesma pergunta parte de um grupo que se diz defensor da inclusão. Ora, como pessoas com deficiência vai fazer uma pergunta dessas para outros deficientes? Numa forma geral, existe o pensamento que os deficientes deveriam namorar e casar com pessoas não deficientes, como uma especie de babá ou enfermeiro ou enfermeira de graça. Ou tem outra explicação desse fenômeno? Não tenho nenhum romantismo, quando na maioria das vezes, me perguntam sobre os outros deficientes.
O que podemos descobrir com a pergunta: “você namoraria uma pessoa deficiente?”? Podemos analisar num contexto muito mais profundo o que a maioria sempre analisa, pois nada tem a ver com a mídia e a grande vilã dessa historia nunca foi ela (a mídia). É a maneira que olhamos nosso próprio corpo como um limiar de nossa própria utopia que fazemos dele como algo além do que ele é, pois sempre utopizamos (não sei se isso é valido) o que não existe e o que idealizamos. Por isso, em muitos textos meus, vou chamar a nossa cultura em uma cultura platônica (herança mais do que direta do cristianismo católico), onde o corpo é uma limitação daquilo que é realmente, é uma mera copia da nossa alma. Utopia é tudo aquilo que não existe concretamente e não passa de idealização. Mas mesmo assim, é uma imagem virtualizada daquilo que imaginamos o que é realmente e passa a existir. Ora, ao mesmo tempo que idealizamos nosso corpo – com o que achamos que é – nós consagramos como um altar e isso não é errado, não nos limitamos a não gostar dele, mas nos tratamos como mera coisa e não é assim.
Essa pergunta tem a ver com o que o próprio deficiente vê seu próprio eu interior, seu corpo que aparece num espelho e diz para ele que por mais que tente, ainda está fadado a ser uma pessoa deficiente. O espelho é uma virtualização daquilo que, podemos chamar, de nossa “casa”. Lá diante do espelho vimos uma prisão, lá vamos ver nossas cadeiras de rodas, lá podemos ver nosso pé torto, nosso aparelho ortopédico ou IC (Implante Coclear), nossa limitação cai por si como um grande peso. Isso não tem nada a ver de repente com cantores sertanejos ou cadeirantes exemplos de superação, tem a ver do “conhecer a si mesmo” délfico, aceitar como somos e como devemos encarar isso como natural. Há uma grande distancia – quase um abismo enorme – entre aceitar e se conformar, porque aceitar é não se dobrar para certas dificuldades que a vida nos trás, se conformar é ser passivo naquilo que não pode. Isso tem a ver num texto interessante do filósofo contemporâneo Michel Foucault (1923-1984), “O Corpo Utópico” e outras leituras interessantes do filósofo.
Utopizamos o corpo porque achamos que somos aprisionados por ele. Não vimos o corpo como algo que nos pertence, vimos o corpo como algo sujo (feito de barro), vimos como algo que não deixa sermos livres, não somos libertos com o corpo por aprisionar nossa alma. Mas a pergunta tem a ver com o “de-eficiente”, o de nega nossa humanidade como se a diferença entre o de-eficiente e o eficiência. O de é um sufixo de negação, se nega a eficiência do corpo para carregar e não eficiência desse mesmo corpo, mas enquanto negamos essa eficiência particular (todos nós temos), negamos a base de todo sistema de conduta que nos arrasta a negação de nós mesmos. O pré-conceito é o começo dessa negação – muita gente me odiará mortalmente – e parte sempre daquele que o pré-conceito recai e isso fica evidente quando surge uma pergunta dessas, como se fossemos estimular a virtualização de uma coisa que fica evidente. Idealizar (virtualizar ou criar uma potencialidade de se tornar real), não é uma das melhores maneiras de se encarar a realidade, nosso corpo nos pertence e querendo ou não, nossos aparelhos pertence a eles, são suas extensões.
Quando perguntamos: “você namoraria uma pessoa com deficiência?” negamos a imagem de uma pessoa que tem um deficit de eficiência (aquilo que lhe falta), para olhar não sua humanização, mas a sua imagem social do discurso vigente. Não quero negar a minha humanidade (que vem de humus que quer dizer terra, ou seja, somos da terra), mas quero negar a condição que a minha humanidade se processa, no meio da verdadeira natureza do meu corpo, tenho a de-eficiência, não sou e nem nego a minha capacidade e namoraria sim, como namoro, mas muito não por negar essa natureza. Qual a diferença de uma pessoa de-eficiente e uma eficiente? Muitos de-eficientes não aceitam, querem pessoas que cabem na sua utopia, cabem em uma idealização platônica e muitas vezes, caem no mesmo principio que caem os “fantoches” sociais, que não somos capazes de suprir a necessidades do outro porque acabamos tirando do sagrado a religião e pusermos no lugar o sexo, não mais nos interessa o que a pessoa é (alma), mas ela tem que suprir todos os meus prazeres (que são sagrados no nosso mundo). Os homem não chamam as mulheres mais de “gatas” ou “princesas”, mas a maioria chamam de “gostosa” ou de “cachorra”. As mulheres não se apaixonam pelo que o cara é e sim, o que o cara pode lhe dar ou fazer para ela e isso é uma grande trave no nosso segmento, pois nem todos nós podemos ser tudo isso ou dar além que podemos. O capitalismo (que tem seu lado bom, acreditem), sacramentou o prazer como grande perspectiva para gerar a liberdade e ser um grande negocio, não estão preocupados se o mundo vai excluir o cara com de– eficiência ou a mulher, mas transformar o mundo em um grande negocio. Dane-se se você tem sentimentos! Dane-se se você quer trabalhar ou namorar, você é um ser humano que não tem eficiência e deve sonhar em ter. O triste de tudo isso é um ser humano discursar o mesmo discurso que o poder e a industria quer (quando digo o poder, digo todo poder ideológico).
A pergunta: “você namoraria com uma pessoa com deficiência?” gera um conflito de uma imagem virtual e uma imagem real, se olha no espelho e se confronta com o terror de ser preso do discurso do poder vigente e o pior, não vê meios de anular o discurso e nem a utopização do seu próprio corpo. Mas o “namorar” – isso acontece com a aceitação do devootismo no segmento – não é ter amor e carinho, na maioria das vezes, mas ter o prazer do próprio corpo que não se tem. Talvez, dai por diante, vimos muitas pessoas com deficiência achando que não se tem a de-eficiência e começam a achar que são eficientes e querem ser chamados assim. Esse “namorar” não é demonstrar carinho, beijar, abraçar, ter um afeto, mas preencher uma coisa que não tem, o prazer e a felicidade que eles não tem, que todo mundo, diz que eles precisam. Colocamos uma coisa automática dentro daquilo que não deveria ser – como se o ser humano tivesse rumando para a robotização do seu conceito – pois deveria ser algo sentimental, algo intimo e muito mais leve do que esse fardo que carregamos todo o tempo. Amor, afeto, são sentimentos únicos e tem a ver muito além do corpo, muito além das pessoas terem, transcende muito além de um simples aperto ou um toque intimo (não sejamos moralistas), mas tem a ver conosco com uma certa espiritualidade.
Podemos até perguntar: nosso corpo é nossa prisão? Nossos sonhos são as lembranças dessa prisão? Não sejamos tão dramáticos em achar que uma cadeira de rodas, por exemplo, é uma prisão e uma masmorra eterna dentro de um estereotipo social dominante. Tem algumas dificuldades, mas não TODAS as dificuldades, temos que transcender nossa cadeira de rodas.
Amauri Nolasco Sanches Junior, 39, publicitário, TI e filósofo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: