Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 12 de agosto de 2015

Parapan supera Pan em medalha – onde somos inúteis?

Pois é. O mesmo cara que está lá nos jogos Parapan-americanos são os mesmos deficientes que tem uma imensa dificuldade de transporte, de acessibilidade, de emprego (talvez até foi um motivo de entrar no esporte), de até manter as suas famílias – sim, alguns tem suas próprias famílias – não tem nem apoio para ir aos jogos, mas ganham as medalhas. Por que? Por que um Neymar é ferido numa pancada e os deficientes estão lá lutando? Porque para as pessoas deficientes não basta o dinheiro, não basta ser reconhecido na imprensa hipócrita, tem que honrar sua missão de defender o Brasil sem “maracutaia”. Como disse o capitão Nascimento: “missão dada, missão cumprida, parceiro”.

Mas a sociedade vê eles como “exemplos de superação” e que devem ser parabenizados e devem ser reconhecidos, ao mesmo tempo, a mesma sociedade pára em vagas destinadas a nós, não nos dá oportunidade de trabalho, não nos respeita na rua ou nos shoppings, não arruma as calçadas para nós temos um acesso melhor. Não digo em doar dinheiro para instituições – que na maioria das vezes não são tão eficientes – mas no mínimo respeitar as pessoas que tem alguma deficiência e não alimentar uma cultura de hipocrisia que só alimenta o descaso. Ora, sabemos que por trás de muitas dessas hipocrisias está o Estado que deveria defender o direito a liberdade, o direito de ir e vir, o direito que temos uma vida plena e o direito a saúde, o direito a educação, o direito a uma profissão e a trabalho. É frustrante você passar horas numa sala de aula, comprar livros, fazer aqueles trabalhos chatos que mais te enchem o saco do que te ensinam, e ninguém te dá uma chance de mostrar o que você aprendeu. Isso não falo só de mim, com uma enorme dificuldade de transporte e de acessibilidade urbana – desculpe o prefeito, mas São Paulo não é nenhum exemplo de acessibilidade e muito menos de transporte acessível, onde os ônibus adaptados são velhos, as vans especiais do ATENDE são velhas, danificadas, e para conseguir ir em algum emprego temos que já programar dês da entrevista, porque leva dois meses – não trabalham e dependem do pouco que recebem de beneficio do governo, onde prefere fazer isso, do que dar infraestrutura para o cidadão com deficiência. Ainda a “filhadaputagem” não é pouca, o Estado não obriga nem as empresas a respeitarem a lei (por motivos óbvios) e nem o próprio Estado dá essa porcentagem dentro das suas empresas. Ou seja, com ou sem concurso, as vagas deveriam ser fixas e não sorteiros de “prêmios” como se o Estado fizesse as coisas como um favor, favor damos a eles em voto que muitas vezes, colocamos eles e eles só corrompem a maquina publica.

O problema é moral e não ético, porque vai a cerne da nossa cultura que se corrompe todo os dias, porque somos um povo crédulo, gostamos de colocar desculpas metafisicas aonde o problema não é e nunca vai ser resolvido no paraíso, mas sim, na Terra. Uma parcela dessa culpa é sim das pessoas deficientes que não se cansam de ficar paradas, de ficar se achando o máximo no Facebook, mas fora dele se sentem um lixo. Alguém luta dentro de movimentos? Alguém luta dentro de ONGs? Ou vão ficar eternos adolescentes xingando muito no twitter? Namorar é bom, casar é bom, mas se não houver ação e não houver uma grande mobilização (sem ideologias que nada acrescentam dentro da inclusão), não haverá nem o direito de você amigo, dar o beijinho na boca. Não haverá o direito de trabalhar, o direito de ter uma reabilitação e o direito de viver, porque vão achar no direito de nos abortar por nós sermos deficientes. Essa é a sociedade que nos acha no esporte “exemplo de superação”, ou em outras áreas como a TV, mas que no dia a dia nos acham um empecilho para seu laser, um empecilho para ir ao trabalho, um empecilho para ir em um porto de saúde. Existem, pasmem, postos de saúde que não tem médicos especializados e nem tão pouco, acessibilidade dentro dos seus estabelecimentos.

Esse fenômeno se dá pela cultura, porque não exste outra explicação plausível além desse ponto. Porque existem deficientes que sim venderam a luta por causa de status, por causa de um emprego bom, para ter clientes para suas palestras, até mesmo, pessoas que se prendem em favores ou são tão passivas – com a alma de rebanho – que acham que o serviço publico ou particular, estão lhe fazendo um favor. Quem paga mesmo a conta de tudo isso? Quem paga para fazerem promessas cheias de marketing e não cumprem? Pagamos tantas coisas com impostos e até quando o próprio Estado nos fornece aparelhos (no meu caso, cadeira de rodas), o Estado compra, mas ao mesmo tempo recebe com os impostos da empresa responsável. Tudo vai parar dentro do Estado, porque a regra é sempre deixar quem está a margem da sociedade ali mesmo, porque sem essa parcela social, não tem quem coloque políticos no poder e nem trabalhar nas fabricas ou firmas de materiais brutos. Nós ainda somos vistos como a parcela social que não conseguimos trabalhar, que não conseguimos sair, que somos sofredores eternos, mas servimos para votar e consumir. Diz para para todos que você não vai votar? Diz que os empresários terão que dar alimentos e roupas para nós todo mês? Dar emprego e uma vida digna para nós ninguém quer, mas nos cobrar nosso deveres ai somos cobrados energicamente.

Acredito que somos cobrados até muito mais do que outras pessoas. Acredito que as cobranças devem ser feitas, afinal não somos a bolacha mais gostosa do pacote, quando fazemos nossa parte dentro do sistema social. Dentro disso não adianta cobrar ética se você não tem nenhuma, não adianta cobrar honestidade se não tem nenhuma, não adianta cobrar capacidade se desdem a capacidade do outro porque olha um corpo com deficiência. Não olha que dentro de procurar um emprego não está um ser humano que quer esmolas, mas um ser humano que com muito esforço estudou e venceu todas as mazelas sociais e estatais para segurar aquele simples papel. Aguentou professor chato, aguentou noites sem dormir, para você que prega o livre mercado – lógico que no pensamento do empresario brasileiro, o livre mercado é só o dele – não enxergar esse simples ato de tirar um diploma. Fazer concurso publico não é um divertimento, não somos tão ingênuos de estudar dia ou noite, para a única determinação de se trabalhar lá é um simples laudo medico. Isso mesmo. Se você passar só irá trabalhar na repartição publica se tiver um laudo medico, se o medico liberar e se a vaga não for preenchida por um associado de um partido. Ou somos tão ingenuo que não sabemos disso? Ou não sabemos que não dão cobertura dentro do Parapan Toronto porque não damos nem dinheiro e nem audiência? Aliás, a mesma imprensa e a mesma publicidade que não respeita a lei de quotas das empresas.

Então, não vejo exemplos maiores de superação e sim, pessoas que tem as mesmas dificuldades, as mesmas angustias, os mesmas desrespeito de uma sociedade idiota e hipócrita que ainda não enxergou e nem entendeu nada. A mesma imprensa que divulga o Teleton, a mesma sociedade que doa e faz campanha, para se sentirem com a consciência limpa, mas que não é sincera.

Amauri Nolasco Sanches Júnior, 39, publicitário, técnico de informática e filósofo. Idealizador da palestra: “Inclusão e Ética”, leve para sua empresa. Contato: amauri.njunior@gmail.com ou o whatt: 11984124939.

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Responses

  1. bravo amigo,a luta e árdua mas nunca iremos fraquejar!!


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