Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 12 de junho de 2015

Amor, amizade, o direito de amar

O filósofo Nietzsche disse um dia que tudo que fazemos por amor está acima do bem e do mal, pois tudo que se faz por um amor quando é sincero e verdadeiro, não tem nada entre ser benéfico ou maléfico e sim, é o que deve ser. Dai pensamos que tudo que o amor carrega pode ser compreendido, entendido, feito e refeito, sem que o mundo tenha acesso com o que duas almas se confraternizam. Amor de verdade, amor sincero e compreensivo é o amor raro, porque as pessoas estão muito mais preocupadas em ter do que ser e o ser humano hoje muito mais deseja do que gosta. Pois o desejo é enfiado em cada consciência como uma verdade universal, porque só deseja aquilo que não temos, se temos, não desejamos.

Tem algo errado no desejo? Não propriamente, mas há sutilezas que se pode dizer de total importância. Como, por exemplo, o desejo não é o prazer de estar com uma pessoa, pois o desejo não é um sentimento, mas é um estado. Desejamos uma Ferrari ultimo tipo, mas não temos sentimentos pela Ferrari (existem sim caras que amam suas coisas, mas para mim, é uma patologia). Desejamos ter um carro, mas não amamos um carro na mesma proporção que você ama uma pessoa é descabido. Esse desejo como forma de Eros vem de Platão, porque para o filósofo grego, nós quando amamos temos que desejar aquela pessoa e o desejo por aquela pessoa passa a ter corpos perfeitos. Um exemplo clássico é a obra de Alexandre Dumas, o Corcunda de Notre Dame, onde a cigana Esmeralda não pode amar o corcunda que o salva e morre, ou, o curta Cordas que o menino morre para a Maria virar professora. Tudo gira a volta do platonismo dos corpos perfeitos, dos desejos e não aquilo que lhe trás felicidade e te compraz. Eu não amo minha cadeira de rodas, por exemplo, mas eu gosto dela como um instrumento que me faz locomover e essa é a diferença em ser e ter.

Quando você coloca o “te” é um objeto que lhe pertence e não pessoas que lhe escolhem para estar ao lado, como eu dizer que “amo você” porque ali tem um viés de gostar e gostar tem a ver com gosto e gosto tem a ver com gostoso. O gostoso sempre é melhor do que o desejável, aquela grama que no vizinho é mais verde, mas o gostoso é o que conquistamos e isso talvez, é o melhor no amor, porque o amor aquilo que se sente quando gostamos de estar ao lado daquela pessoa especial. O amor nasce muito mais do que o desejo, pois o desejo é o complemento do amor que é a alegria do outro enquanto ser que nos encanta e nos completa. Dai entra Aristóteles, pois o amor aristotélico – o philia – tem a ver com a alegria do amor que não é só desejar e sim, ter a alegria de estar com o outro sempre como uma completude daquilo que lhe apraz. Completar não é concordar contudo – por isso existe o dialogo – mas é sempre olhar o outro como ele é, como é sua total natureza. Então, quando um ou os dois contem uma deficiência o que vale é a alegria de estar com a pessoa e não se ele é perfeito ou não, se ele anda ou não, se ele tem manias ou não. O “philia” tem grande significado, porque tanto é o amor, quanto é amizade, e assim, o amor é uma grande amizade de intima relação entre dois seres humanos.

O amor poderia ser chamado de prisão? Não. O amor não pode aprisionar, porque a ideia de ser ou não uma prisão depende do estado de espirito de quem sente ou até mesmo, o caráter que tem a ver com os valores aprendidos. Mas nós pessoas deficientes temos que conquistar o direito de amar, de termos um ao outro juntos, construir sempre uma vida. Não é que por termos a mobilidade reduzida que não podemos amar, não podemos gostar de estar com quem nós compraz, que nos completa e quem nos dará sempre a alegria necessária para que a felicidade entre em nós e transborda para a alegria e serenidade, pois a serenidade sempre é o poder de viver cada vez mais leve. Tem a ver com o espirito, com a criação que teve o amor de produzir a matéria de todas as leis do cosmo – incluindo a matéria orgânica no qual evoluirmos – onde a junção não tem a ver com o desejo, porque a vontade de se produzir essa realidade foi muito mais forte, mas tem a ver com o amor em querer essa junção. Como nós mesmos dissermos, quando duas pessoas se amam se constrói uma realidade, mas essa realidade tem que viver em harmonia nas duas realidades que ela foi construída. Também não é a toa que no “Pai Nosso em Aramaico” (língua semita dita pelos mais humildes no tempo que Jesus [Yeshua] esteve na Terra), no começo se diz “Pai e mãe do cosmo”, porque duas realidades (consciências) construíram uma realidade (consciência) só, porque o universo enquanto consciência única, foi construída a partir do amor e da união do Pai (racionalidade/logos) e a mãe (amor/compreensão). Por isso temos dois estados, a matéria (res extensa) e o espirito (res cogitan), porque esse dois estados devem se harmonizar para temos a verdadeira harmonia com todo o cosmo. Até mesmo a evolução, biológica e espiritual, tem a ver com o amor, pois o amor nunca faz destruir e sim, faz construir.

É fácil entender isso quando se ama, quando gostamos de estar com certas pessoas – afinal não existe só uma maneira de amar – porque isso se chama construir e se constrói realidades sempre multiplicando essas mesmas realidades. As consciências já se amavam e nunca deixam de se amar conforme o encontro natural – quando se apaixonamos naturalmente, não procurando alguém – um encontro que tem a ver com o entendimento corporal, o entendimento da fala, o entendimento de um olhar. Um “oi” pode despertar um sentimento, apenas um sorriso pode eternizar uma historia, um poder que não é o acaso, mas uma historia que pode existir em outros tempos, outras épocas ou até, pode estar além do tempo. O amor é o ponto inicial, aquele mesmo que detonou o big bang, aquele ponto que dois olhares se cruzaram e se fizeram um só. O amor é compreender que quem não consegue ter completamente a outra pessoa não é liberto, quem não consegue compreender o outro não consegue amar, quem não consegue ser o outro, não haverá de ser um humano e sempre negara a verdadeira humanidade.

Amauri Nolasco Sanches Júnior – Publicitário, técnico de informática e estudante de filosofia.

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