Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 10 de maio de 2015

Maternidade “diferente”

minha mãe com as netas Agatha e Kaatharina. A foto preferida dela.

minha mãe com as netas Agatha e Kaatharina. A foto preferida dela.

Eu sou filho de uma filha de um casal italiano. Mas não são qualquer italianos, são da Calábria. Sim. Eu tenho sangue calabres nas minhas veias e sabe quando deve ou não se esquentar. Talvez esse meu jeito de falar tudo na “lata”, sem a menor “frescura”, sem a menor pretensão de agradar a ninguém, seja do lado dela. E não é a toa que ela se chama Itália e tem o sobrenome do meu avô Mollo. Numa rápida pesquisa genealógica, os Mollo’s tem seu nome escrito em lapides dês dos tempos do império romano e portanto, nossa família, descende dos romanos. Mas minha mãe nunca se orgulhou ou fez questão disso, disse que se isso for mesmo, tinha vergonha de descender de um povo que matava para dominar. Mas além disso, meu avô foi soldado de Mussolini e lutou a segunda grande guerra, mas foi aprisionado dos norte-americanos se me lembro, em alguma região da Africa. Mas são historias que podem ser contadas depois.

Minha mãe casou com meu pai em outubro de 1975 e em em março de 1976 nasci, não como outras crianças, mas eu nasci com alguns quilinhos a mais. Acredito que por isso demorei para nascer – porque antigamente era um pouco pior que agora – então, tive algumas sequelas por falta de oxigênio. Não era tão grave, dizia ela, mas com 1 ano e meio, me deu uma pneumonia que agravou minha paralisia cerebral e começou toda a serie de tratamentos e rituais, para ver se eu andasse e melhorasse. Todos país nunca esperam que seus filhos se encontrem com alguma deficiência, mas alguns superam e criam seus filhos com amor e dedicação que pode ser chamada de amor. Assim podemos chamar o que minha mãe fez, pois ela me carregou todo o tempo, mesmo gravida do meu irmão. Nunca fez diferença entre eu e meus irmãos, a educação sempre foi e até o fim ela me tratou de igual para igual sem fazer diferença. Quando entrei na AACD, houve episódios que ela me defendeu – como no caso do dentista que queria me amarrar só porque eu chorava muto – brigou, comprou a briga para mim ter o melhor tratamento, mas era pior que o poder publico, a entidade não trata e nunca tratou quem era “pobre” com decência. Mas, era pago por meu pai, então, a coisa era para acontecer.

Claro que não era um tratamento de primeira, mas naquele tempo era o que tínhamos, pois estávamos num Brasil em transição de militarismo e democracia e nossos direitos, nunca foram respeitados. Minha mãe aceitou que estudasse nas escolas especiais, então, um menino que não largava dela para nada, ela simplesmente, deixou que ele seguisse sem que ela se preocupasse muito. O motorista da kombi  chato – não eram como as vans de hoje ou os ônibus de hoje – só tinham os bancos e cintos comuns. Mesmo com acidentes, nenhum deficiente morreu no transito pelo que eu soube, íamos nos bancos. Mas antes mesmo disso, houve operações que dizia corrigir tendões e músculos, não tive diferença, minha única diferença e poder sentar. Minha mãe cuidou, trocou muita fralda, trocou muita “meleca” minha de dores de barriga repentina, ou nas operações que não podia ir ao banheiro. Me levou pra dormir na cama, quando dormia no sofá, aguentou tudo que poderia aguentar.

Se indignou quando alguém fazia algo pra mim, mas nunca tomou as dores, porque achava que eu tinha que me defender. Sempre disse para mim se virar, eu sempre fui preguiçoso e sempre nunca me troquei sozinho, sempre quis que ela me colocasse as roupas. Apesar disso, minha primeira viagem foi aos 16 anos, terminei o ensino fundamental em um supletivo e fiz o ensino médio, até me formar em publicitário por conta própria, porque a UNIP não quis me dar bolsa de estudo. Acho eu, que sua magoa sempre foi pelas empresas nunca terem me dado uma chance, e por eu ser tão inteligente, escrever tantos textos bons, ninguém querer publicá-los. Ela lia o meu blog e dizia que eu era muito inteligente, charo, com um ar de orgulho, mas ao mesmo tempo, de tristeza de não ter visto seu filho mais velho um escritor ou um publicitário. Viu seu filho ser discriminado, não escolhido, num mundo que faz diferença a “nossa aparência”.

Dês que descobriu que tinha um tumor e fez sua primeira operação – foram três – ela já me preparava para fazer as coisas sozinho e assim foi. Tinha dia que ela nem sabia que eu tinha tomado banho e me ensinou finalmente, a ser de certa forma, um rapaz independente e que não precisava das pessoas. Então, ela foi piorando e nos últimos meses ela só chorava e quando fui ver ela no hospital, foi como se ela se despedisse de mim. Uma semana depois, ela se foi e isso faz 2 anos já. Ela nem viu minha formatura de técnico de informática que tanto fez para me matricular. Dizem que um dia antes, a dona Ilda que cuida da limpeza foi visitar ela, perguntou se eu estava comendo bem e a dona Ilda, disse que sim. Minha mãe fechou os olhos e sorriu, sorriu com a certeza que eu iria vencer esse mundo, vencer os desafios e vencer a sua ida ao mundo espiritual. Um dia depois ela se foi. Não, não é uma tristeza para mim, um alivio talvez por ela não sofrer tanto mais, mas dentro de mim ainda resta o que ela ensinou ou fez e tenho a plena convicção, que amor de mãe é muito mais do que um amor puro e simples. Transcende qualquer amor, qualquer viagem, qualquer ideia, é um amor “diferente”.

Por isso lhe digo “muito obrigado” por me ensinar a ter paciência, a ter tolerância, a ter respeito e acima de tudo, a ser fiel a quem está ao meu lado. Tenho certeza que você está me vendo, me inspirando, ou apenas, sorrindo com aquele sorriso dizendo “vai ju”. Obrigado Mãe!

Amauri Nolasco Sanches Junior – um filho com deficiência

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