Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 23 de abril de 2015

Musica, amor, respeito – uma reflexão cadeirante

por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Esses últimos tempos são tempos de reflexão, pois acho que um dia você tem que parar e refletir o que fez e o que você tem que fazer. Algumas pessoas refletem alguns pontos com textos, outras por frases, eu costumo refletir na vida com a musica. Não importa se é ou não em português, a musica é universal e toca o seu coração e pode atingir sua alma de uma maneira, que a reflexão pode atingir profundezas imagináveis. A musica “How soon is now?” da banda The Smith me faz refletir na sociedade em geral e a historia dessa musica é muito interessante, pois por muito tempo, por o vocalista Morrissey ser homossexual, a musica virou um hino lá fora da critica social desse segmento. Mas se pode perfeitamente, ser estendido para qualquer segmento, para qualquer pessoa que nasce numa sociedade e por ser diferente da normalidade, ele é discriminado e vira um “estorvo” social dentro dessa mesma sociedade. Porque a musica fala da sociedade que herdamos, mas nos julga como um “erro” a ser corrigido.

A musica começa “Eu sou o filho/e o herdeiro” fazendo jus que somos filho e herdeiro da sociedade em si mesma. Ele (Morrissey) já começa dizendo que nascemos dentro da cultura, não nascemos o que somos, somos filho e herdeiro da sociedade e de sua cultura. Se pensarmos num modo psicanalítico, por exemplo, que vários pensadores, filósofos e profissionais usaram ao longo desses anos, não existe pessoas com deficiência, ela se torna. Ai você pode dizer: “Ah! Mas eu estou vendo que sou uma pessoa com deficiência e preciso de cuidado”, dai te respondo que a deficiência pode existir em âmbito corporal, com suas limitações e tudo, mas não tudo que o termo em si carrega como senso comum. O que é uma pessoa com deficiência? É uma pessoa que não tem mais a mobilidade (eficiência) para fazer certos movimentos, certas tarefas que não alcançam (apesar que muitas coisas estão sendo adaptadas). Mas outros estereótipos carregam o termo “pessoa com deficiência” – mesmo que alguns digam que a novela tenham ajudado, ela alimentou alguns estereótipos e alimentou também algumas generalizações como se todas as pessoas cadeirantes fossem paraplégicas – como “aleijado” que não pode fazer nada, “assexuado” que não pode casar ou namorar, “deformado” ou “defeituoso” como se fossemos objetos que se fabricam e viemos com defeito e que não podemos trabalhar. Então, ao mesmo tempo que somos filhos e herdeiros da mesma cultura, não somos aceitos nessa cultura e a musica segue dizendo: “De uma timidez que é criminosamente vulgar/Eu sou o filho e herdeiro/De nada em particular”. Uma timidez não é aceita porque é misterioso, o ser humano em sua natureza tem medo de mistérios e então, a timidez ou o silencio, é criminosamente vulgar. Toda atitude ou opinião vulgar é ruim, é grosseira, porque não se encaixa na erudição porque pertence ao povo, a plebe. Pois se torna algo criminoso, errado, porque é vulgar. A timidez pode ser encarada como um silencio vulgar, porque é grosseiro você hoje em dia não querer ir as “baladas”, não gostar de coisas que todos gostam. E como disse, o silencio se torna algo amedrontador, algo que atormenta e assusta o outro.

Talvez, essa “timidez criminosamente vulgar” seja a não assumir nossa condição, nossa verdadeira identidade e o que somos verdadeiramente e então, não somos o que somos e sim, somos um produto do que nos fazem ser. Dai voltamos a dizer que não nascemos homens, não nascemos mulheres, não nascemos pessoas com deficiência, porque não existe pessoas com deficiência. Existe uma “limitação”, mas não existe uma “de+eficiência”. Vários teóricos e acadêmicos, não explicaram, que esse “de” é um sufixo de negação, pois na verdade, esse “de” é um “não a”, ou seja, isso remete a “não eficiência”. Assim, o poder nos remete a dizer que não temos eficiência como os outros e por isso temos “necessidades especiais”. Mas qual a diferença em ser “pessoa com necessidades especiais” ou “pessoas com deficiência”? Nenhuma. Isso são só nomenclaturas sociais que rementem a uma classificação para serem chamados, ou seja, sofremos ao nascer uma especie de “carimbo” igual o gado, para saber o que você é e o que você faz. As terminologias são de ordem moral, porque dependem muito da visão social que elas são usadas e essas ordens morais, são aproveitadas pelo poder para espalhar estereótipos errôneos propositalmente. Anos atrás se usava “defeituoso” ou “aleijado”, depois “deficiente” até chegarmos a “pessoa com deficiência”, mas acima de tudo somos já pessoas e queremos ser pessoas sem os diversos estereótipos. Mas Morrissey teve a sacada certa, pois ele colocou a timidez como uma culpa daquilo que ele não conseguia assumi o que era, ou seja, a verdadeira natureza dele é “vulgar” porque todo mundo julga (por isso criminosamente) como sendo errado. Então, o certo no mundo moderno, é ser branco, “macho” para encarar os fatos, sempre querer trabalhar porque o trabalho enobrece o homem (umas nas maiores falacias do mundo), o mundo é assim e não muda. Mudar requer um ato de mudança e nem todo mundo esta pronto a mudar o seu mundinho gostoso, confortável e que nenhum perigo vai lhe incomodar. Assim sendo, uma pessoa com deficiência exigindo seus direitos são “chatas”, um negro exigindo respeito é uma pessoa “chata”, um gay querendo ser respeitado é “chato”, porque muda a ordem das coisas que ai estão. Aliás, lá fora não existe terminologias “pomposas” como “homossexual”, ou “pessoa com deficiência”, ou “afrodescendente”, ou “melhor idade”. Todos são chamados de gays ou lésbicas, todos são chamados de deficientes, todos são chamados de negros ou velhos e seus direitos são respeitados. Porque o segmentos lá não estão preocupados em terminologias “pomposas”, e sim, em defender os direitos e a discussão da terminologia, desvia qual o foco verdadeiro. Por isso que o Morrissey diz que toda “timidez” é criminosamente vulgar, porque fica preso ao senso comum, fica uma prisão de si mesmo.

Dai ele segue dizendo:

Você cala sua boca
Como pode dizer
Que eu levo as coisas para o lado errado?
Eu sou humano e preciso ser amado
Como todo mundo precisa”.

Ele manda se calarem, porque como podem dizer que levamos as coisas do lado errado, porque na concepção moralista, sempre os que pensam e assumem o lado que a maioria quer, ou o que a maioria pensa ser o certo, sempre vai ser errado e que não podemos fazer. Mas somos humanos, seja deficiente, ou gay, ou negro, ou velho, ou mulher, não deixaremos de ser humanos e de precisar ser compreendidos e amados como todo mundo precisa. Aliás, como pode dizer que levo as coisas para o lado errado está nos evangelhos quando Jesus diz que não podemos julgar o outro sem fazer um exame de consciência, não podemos tirar a trave do outro, se não tiramos a própria trave do olho. Ninguém sabe dos nossos problemas. Ninguém sabe do sentimento do outro e suas reais necessidades e então, porque as coisas são erradas ao ponto de julgar ser erradas as atitudes das pessoas ditas “subversivas”? Os diversos rótulos são apenas para reprogramar o sistema, renovar sempre velhos paradigmas.

A questão que essa musica aponta pode ser muito interessante, quando é vista de outro ângulo como se invertêssemos ela. Pois, talvez, essa musica nos mostra dois viés que não podem ser vistos. No video clipe, mostra fabricas soltando fumaças negras e uma moça com características que estão na musica e que esta com uma boina vermelha, com um rosto depressivo em um ambiente escuro e que mostra solidão. Essa moça ainda é loira e talvez mostre características interessantes, porque pode ter a característica que a moça é britânica, tem mais ou menos, uma vida relativamente estável, mas não é feliz porque não pode assumi o que queira assumi. A moral social condena aqueles que assumem o que são e sempre fazem dessas pessoas algo que elas sirvam como exemplo que não podem ser, como não podemos ser deficientes porque devemos ser pessoas com deficiência ou pessoas com necessidades especiais. Ou as pessoas devem ser e se comportar como eles querem e desejam, porque é assim que o mundo é e não pode mudar. Porque quem quer mudar o mundo é um revoltado, um mal educado, um ser que deve ser desprezado por todos. Não é porque se é deficiente, ou gay, ou mulher, ou negro, ou nordestino, que não somos humanos e merecemos ser amados, porque o caso é que todos são uma humanidade. O que nos fazem seres humanos? Nossa capacidade de mudar e perceber o outro como um ser semelhante sem perde nossa capacidade de fazer escolhas, porque podemos escolher o que devemos ser e o que não devemos ser, nosso desejo transita entre o instinto e a razão (logos) e a noção de cidadania. Então, esse “eu sou humano e mereço ser amado” é uma união de todos os seres e dizer que somos humanos e por isso – seja de forma que for, o que pensamos ou o que somos – merecemos amor, merecemos respeito e tudo que um ser humano de verdade merece ter. E isso independe de classe social, ou qualquer um desse estereótipos que transitam na pseudointelectualidade da humanidade, porque existem pessoas que tem dinheiro e não é feliz, não pode ser o que é, porque não pode assumi sua verdadeira persona. A persona só é alcançada quando percebemos a nós mesmos, quando saímos daquilo que o discurso do poder quer que não saiamos, e assim, conhecemos a verdade e a verdade nos libertará.

Ainda ele, o Morrissey continua:

Há um clube, se você quiser ir
Você poderia encontrar alguém que te ame de verdade
Então você vai, e você fica sozinho
E você vai embora sozinho
E você vai pra casa, e você chora
E você quer morrer”

O que pode ser esse “clube” que, talvez queiramos ir? A ideia essencial de um clube é reunir pessoas para alguma atividade, ou física, ou intelectual, mas essa atividade é comum a todos que ali estão. Talvez, porque concluo pelas muitas declarações da posição do Morrissey, esses clubes sejam os muitos movimentos que povoam o mundo. Na verdade, muitos deles são movimentos que se intitulam representantes que não foram eleitos, não foram escolhidos e fazem juramento solene em defender alguma “minoria” que, supostamente, não pode se defender. Ou pode ser algum lugar que você vai, como baladas e afins, e talvez encontre alguém que lhe ame de verdade. De repente é até a sociedade, masque nós vamos e mesmo assim, nos sentimos sós e vamos embora sozinhos. Por que? Porque mesmo eu sendo deficiente, por exemplo, eu tenho meu pensamento, tenho as minhas opiniões e essa ideia de movimento, essa ideia de segmento dos deficientes, é um modo de padronização para exatamente não haver união. Não precisaríamos ter um Conselho das pessoas com deficiência, pois todos poderiam exigir seus direitos sem intermediários, porque a intermediação são formas burocráticas para dificultar ao máximo, o meio para consegui o seu direito. Por isso que lá fora a articulação aconteceu diferente, foi por meio de ONGs, porque são união de cidadãos com um objetivo. E essas mesmas ONGs são montadas por pessoas ligadas verdadeiramente a causa, porque são corporações que financiam e querem respostas objetivas, mesmo quando é o governo. Mesmo assim é uma padronização e a maioria exige por ela mesma, porque são cidadãos e votam e paga seus inúmeros impostos. Então, quem escolhe esses órgãos para nos representar? Quem são esses órgãos para escolher o que é melhor para cada um de nós sem nem ao menos nos ouvir? Esses mistérios são, de grande parte, desenvolvidos em governos democráticos porque se transveste de “cobradores” de direitos, mas ofusca a cobrança em si mesmo. Por isso vai para casa sozinho e chora, porque mesmo com pessoas da mesma situação que você, não te ama e se você pensar diferente do que eles, você ainda é odiado. Temos milhões de exemplos dentro da historia humana.

Podemos construir nossa personalidade dentro das nossas escolhas ou opiniões sem ao menos, seguir algum movimento ou algum órgão que nos diga o que fazer. Eu sou uma pessoa que me formei publicitário, que me formei técnico de informática, que estudei até a 4º serie nas classes especiais da AACD, mas terminei todos os meus estudos em supletivos que eram ensinos regulares, que não afetaram meu desempenho. Aliás, meu estudo na área publicitaria e na área técnica de informática, foram em cursos regulares e isso prova que minha deficiência não afetou em nada. Ainda gosto de rock e gosto de ler, sou aficionado pela filosofia, sou noivo e brigo pelos meus direitos sem, algumas vezes ou sempre, recorrer as pessoas ou instituições que dizem nos representar. Essa é a base da musica, o importante não é ir contra o sistema ou nos incluir, porque já estamos inclusos dentro do escopo social, mas questionar o que está errado dentro do sistema. Os maiores subversivos da historia estudaram e leram uma vastidão de livros, tem um ou vários cursos superiores, leram tudo sobre o que estavam questionando e isso fez a base da coerência do discurso. Então, quem disse que não devemos estudar? Que para ser contra o sistema temos que nos livrar do estudo? Quem diz isso é um dos maiores dos escravos e não deve ser levado em consideração, pois umas das melhores armas dentro do questionamento é o estudo daquilo que se questiona e ter base para tal. Essa musica é ótima e pode ser levada para termos uma base muito boa para uma discussão seria que muitas vezes, não se tem uma seriedade verdadeira e não temos, argumentos sólidos. Pena que o povo goste de musicas poucos reflexivas.

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