Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 17 de abril de 2015

O Extraordinário – discriminação do diferente

2015-04-17 12.26.40

foi presente do meu amor e uma indicação do meu colega Wagner Martins

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por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Li um livro interessante e não muito chato, pois é de uma linguagem fácil de entender e tem muito a ver com o tema da inclusão não só de pessoas com alguma deficiência, mas pessoas que são um pouco diferentes e que tem síndromes que deformam alguma parte do seu corpo. O livro “Extraordinário” da autora R.J. Palacio – ela é ilustradora e atua no mercado editorial e tem uma ONG que faz campanhas contra bulling – conta a historia de August que tem não uma, mas duas síndromes raras que deformaram seu rosto. Eu digo que me identifiquei em alguns pontos quando estudava, quando eu saia para dar umas voltas e o quanto as pessoas vão nos discriminando ao longo da vida. Por mais que esquecemos esse lado, ainda é uma realidade. Mostra que a educação não é diferente nos Estados Unidos da América, pois lá com toda a educação mais ou menos, boa e de qualidade, ainda sim há discriminação e tendo que ter ONGs para defender esse tipo de coisa nas escolas.

O formato desse livro é muito diferente dos outros, seu formato é bem interessante porque coloca cada um ao seu redor como um depoimento. Talvez, por a autora ser de uma ONG, ela esteja familiarizada com essas situações e tem a ver um pouco conosco. Por que? Porque lida com a aceitação social daquilo que eles consideram como “diferente”, ou como está no livro, deficiente. Só que o diretor deixa bem claro que o menino não é deficiente e não teria problema em aceitar ele se fosse, mas tem uma síndrome que faz seu rosto ser deformado e isso é bem retratado no livro. O menino tem que passar pela escola comum para aprender a lhe dar com o mundo, afinal, nem sempre seus pais vão lhe defender e nem ao menos sua irmã, a Via (ela se chama Olivia, mas August chama de Via), vai poder lhe defender. E isso é um processo que todos nós passamos na vida, passamos momentos bons que as pessoas aceitam nosso jeito e nossa aparência, outros dias as pessoas acham que você atrapalha, que você fica ali porque teima em sair e teima ser uma pessoa com deficiência ou “diferente”, que quer ser um cidadão como outros qualquer. De quem é a culpa disso tudo? Nossa. Não buscamos mostrar que existimos, os pais sempre nos mostram que o mundo é cruel para nós, mas eles querem que encaramos esse mundo. Muitas pessoas não querem. Querem ainda formar guetos, porque nos guetos se sentem mais seguros. No livro isso é mostrado com os pais de August, a mãe é brasileira e é professora que largou tudo para cuidar do filho, o pai é norte-americano que quer proteger o filho desse mundo, a mãe não quer. Simbolicamente, o pai é o lado racional, a mãe é o lado emocional, o lado humanitário está no lado materno, o lado racional e pouco humanista, está no lado paterno. Mas eu digo que quando você é diferente, você passa a ter que encarar o mundo a sua volta e isso chamo de nosso “agogé”.

Quem assistiu o filme “300”, viu que o “agogé” eram formas de educação espartanas para criar homens que lutassem e fossem guerreiros. Eram soltos nas florestas ao redor e eram quase esquecidos, tendo que lutar, tendo de caçar e tendo que matar se fosse preciso. Nós também somos treinados, quando vamos a escola comum, a enfrentar o mundo e a saber que ele é sim feito de pessoas egoístas, pessoas que só se aproveitam, mas também, existem pessoas que aceitam e podem ter uma amizade sincera e não por pena ou algo do tipo. O livro mostra que não somos isentos de levar murros e de dar murros, de causar brigas e desobedecer, porque podemos ser “diferentes”, mas não somos além do que seres humanos. Μas como romper algo tão enraizado dentro da humanidade a ser até confundido como algo biológico? Ai que mora a questão, pois temos que romper a imagem que fazem de nós dentro da sociedade e não alimentar essa imagem. Claro que não vamos negar quem somos e o que usamos como aparelho, mas romper com esse paradigma (paradigma é uma imagem social de que residi nessa sociedade por muito tempo). Mas como e o que fazer disso?

Dês de quando eu tive internet nunca participei ativamente de grupos de pessoas com deficiência, sempre focando em grupos que me trouxessem conhecimento. Então ficava mais em grupos de filosofia, grupos de assuntos gerais, até mesmo, sobre rock e heavy metal. No Yahoo ainda se tinha uma discussão verdadeira sobre a deficiência e assuntos relevantes no Porta de Acesso, porque nem no nome tinha aquela coisa de diferenciar as pessoas com deficiência com as demais, era uma coisa só. Eu tive um contato efetivo quando comecei a participar da sala virtual de pessoas com deficiência da UOL e ainda, eu encontrei por acaso porque estava procurando um chat que alguém me explicasse como jogar um jogo que não estava entendendo. Foram momentos divertidos e ao mesmo tempo, tive a certeza que não se mede caráter com uma cadeira de rodas ou tudo mais. Depois veio o Orkut e também nunca gostei de participar dessas comunidades, porque não se tinha assunto, resolvi fazer a minha. Sexualidade Do Deficiente era a maior comunidade do Orkut e umas das mais conhecidas, mas por causa da imagem, ela foi denunciada porque o pessoal (se me lembro era senhoras religiosas), pensaram que era um bando de tarados pensando em atacar esses indefesos “anjinhos”. Mas eu nem ficava muito, porque não me interessava e deixei rolar e quando vi, era uma bagunça só e fiz muitos inimigos que fizeram muita sacanagem. Depois que ela foi apagada, nunca mais ergui ela nem a pedidos, porque esse tipo de assunto não é discutido como se deve. Aliás, quando se discuti sobre a deficiência em si, não podemos dizer que sai coisas boas e sim, só “panelinhas” e brincadeirinhas sem graça. Dai sempre ficava nas comunidades de filosofia e assuntos gerais. Não me vejo numa comunidade de pessoas com deficiência, não porque não me aceito como sou, pois se eu não me aceitar, não terei nenhuma identidade, mas porque não me vejo em discussões fúteis ou de cunho infantil. Ora, ainda existem pessoas que nem discuti discutem, então, por que estão em uma comunidade de “discussão” de pessoas com deficiência? Só para dar volume ao seu Facebook?

Na verdade essas comunidades viraram guetos de pessoas com deficiência porque trás a sensação – que não é verdadeira – de estar em um lugar seguro que que podemos conversar sobre o assunto da deficiência em si. Isso mostra como esteticamente somos levados a uma falsa imagem de conforto aonde não tem, a ideia em sua essência que essas comunidades são seguras e que o mundo lá fora é cruel, que as escolas e as comunidades são feitos de pessoas más e que não vão nos aceitar e somos unidos. Ai que está a essência da questão, existe o estar unido e ter união, pois estar unido são pessoas com seus objetivos e suas crenças unidas, mas com o seu próprio proposito. E existe a união que são pessoas que tem o mesmo proposito e as mesmas ideias e fazem uma união, porque defende essa ideia para se chegar a uma meta. Por exemplo, quando temos uma comunidade “Cadeirantes e andantes são amigos”, isso pode mostrar a ideia que antes não eramos amigos e que houve uma união para efeituar essa imagem. E outra, a ideia em si do “cadeirante” é uma ideia que só o cadeirante pode entrar na comunidade e ser amigo de andante. Esteticamente, o nome não fala em estado e sim, fala da ideia do que seja “cadeirante” e o que é “andante”. E fica uma coisa meia excludente como se houvesse de ter uma comunidade para o cadeirante ser amigo de andante, ou que cadeirantes também amam, ou que cadeirantes são evangélicos e por ai vai. Por que os cadeirantes não entram numa comunidade evangélica? Por que o cadeirante não entra numa comunidade de andantes e fazem amizade? Como eu disse, não tive e não tenho esse tipo de interesse porque se quero uma inclusão, eu devo me incluir e incluindo que vou passar a ideia que não é que sou cadeirante que não tenho amigos andantes como também, não é porque sou cadeirante que não amo. Esse é o foco. Se August morasse aqui e buscasse uma comunidade para participar no Facebook, garanto que ele ia querer participar de uma comunidade do Star Wars (que ele gosta muito), porque para ele não importa se existe pessoas iguais a ele, mas o importante é o que ele é e gosta.

Assim nunca vamos lutar para um mundo inclusivo que aceitam as pessoas com deficiência como somos e como podemos ser e como o Sr Buzanfa, o diretor, disse a prateia na formatura do August: “Não importam as variações dos formatos das nuvens, elas sempre vão ser cintiladas pelo o sol.”. Pensem nisso.

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