Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 28 de março de 2015

Superação sempre, respeito jamais.

Um exemplo de superação no vaso sanitário

Por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Não, não vou escrever um texto “detonando” a “atleta exemplo de superação”, eu vou só dar meu parecer. Primeiro porque ela e mais alguns, estão negando a deficiência. Segundo esses alguns estão negando a cadeira de rodas. Então, como leio bastante os ensinamentos zen e sei os métodos dos monges e mestres zen lá vai: vocês não vão sair das suas cadeiras de rodas e vocês não vão andar. No máximo, vão aceitar e adaptar na melhor maneira possível a suas deficiências e ponto. O resto é só “frasesinha” para vender jornal.

Acontece que talvez, com toda aquela coisa quase uma “modinha”, de que todos tem o direito de sentir e se expressar como queira, deveria ser seguido em ter respeito. O respeito que eu digo, é o respeito de assumir que todos somos pessoas com deficiência e dizer que a cadeira de rodas é uma porcaria, ou que a cadeira de rodas não existe, é uma forma “monstra” de desrespeito consigo e com os demais cadeirantes. As psicologas ou psicólogos, deveriam fazer mais um trabalho de tirar essa negação, porque essa negação vai trazer ainda consequências maiores no futuro quando a pessoa que nega se depara com a realidade, a realidade é a não volta de ter uma vida que era, ponto final. E o que é mais estranho e que me incomoda bastante é que essas pessoas querem nos ensinar a sermos pessoas com deficiência, ensinar pessoas que já nasceram com essa deficiência, que não são paraplégicos. Como você vai querem ensinar um engenheiro experiente a ser um estagiário? É o que acontece na maioria das vezes.

Não vou usar desculpas para explicar o que a Lais Souza sente e nem o que o Fernando Fernandes nega, mas a realidade é outra, temos que encarar que negando nossas deficiências não estamos só negando uma realidade, estamos negando uma identidade. Não é uma fase de negação da Lais Souza, é como “bater o pezinho” com o destino e não aceitar que fez besteira em encarar um esqui, sendo que não era esquiadora, porque saiu sem permissão, desrespeitou o aviso de perigo, pagou o preço. Mas as pessoas podem dizer: “Ah! Mas foi um acidente”. Todo acidente é uma escolha que fazemos, seja nós os causadores ou sejamos vitima. Se somos causadores depende da escolha de nossa reação ou o que estamos fazendo e isso também, se somos vitimas. No caso da Lais, ela escolheu treinar sem as condições necessárias para tudo isso, pagou o preço de cair e quebrar uma vértebra no pescoço e lesionar a coluna cervical. Não há no mundo tratamento ainda, para reverter isso. Ainda mais ela que recebeu um tratamento bom em Miami, recebeu uma cadeira motorizada boa, tem uma aposentadoria feita na “cambiarra” e ainda nega a cadeira de rodas dizendo ser uma “porcaria”. Se é uma “porcaria” tenta andar sem ela, se ela não existe como disse Fernando Fernandes numa entrevista, tenta andar sem ela. Quanto mais assumimos que somos pessoas com deficiência, mais somos tomamos a consciência, que somos sim humanos, não somos extraterrestres.

Não existe superação, porque não estamos encarando uma montanha, estamos encarando uma deficiência. Não temos que superar, temos que encarar de frente e encarar de frente é saber que somos cadeirantes e ponto. Vamos morrer cadeirantes, vamos casar cadeirantes, vamos namorar sendo cadeirantes, vamos rir sendo cadeirantes, vamos chorar sendo cadeirantes e vamos fazer esportes, vamos escrever, vamos ser felizes, sendo cadeirantes, ponto final. Como sempre digo, o resto é só frases para fazer as pessoas chorarem. Quanto esses “exemplo de superação” ganham para dizer tantas “besteiras” e inverdades? Quanto esses “exemplos de superação” ganham para nos desrespeitar e o segmento de pessoas de deficiência, deixar pra lá? Poucos, muito poucos, são aqueles que mostram a verdade e a verdade é que não existe superação, existe necessidades diferentes, mas não precisamos superar nada para sermos felizes. Não precisamos esquecer a cadeira de rodas para sermos humanos. Não precisamos negar nossa ligação com a cadeira de rodas para dizer “ei! Estou aqui!”. Parafraseando o personagem mor do “House of Cards”, Frank Undewood, a face de um covarde é a nuca, pois eles saem e não sustentam ou encaram qualquer objetivo e briga desse objetivo de frente. Esse dois personagens que estou analisando nesse texto, só consigo ver a nuca, não tem rosto, não tem personalidade, tem todos os estereótipos que a sociedade nos colocam como “aberrações” de uma sociedade insana e hipócrita. Defende o respeito pelos animais, mas defende a guerra. Condena beijo gay, mas tem milhões de amantes. Entre outras coisas, que notoriamente, Freud explica.

Nessa, só superando essas “barbaridades” dos exemplos de nada.

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