Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 23 de março de 2015

Publicitário cadeirante sem medo.

Essa imagem resume o caso

Essa imagem resume o caso

Por Amauri Nolasco Sanches Júnior.

Sou publicitário de formação. Na verdade nem sei o que vi na publicidade que me atraiu esse tipo de profissão meio que “clube dos bons” de levar ao publico o que eles mais desejam. Nós – os publicitários é claro – temos aquele viés de atrair as pessoas aquilo que elas mesmas desejam, seja na vaidade, seja no paladar, seja na libido, seja no que for. Mas também somos levados a mexer com a psicologia das pessoas – como se elas fossem algo a serem conduzidas – então, também fazemos das capas de revistas algo rendável num país que muito poucos tem o desejo de ler alguma coisa. Nosso povo – as redações do ENEN não nos deixam mentir – não tem aquela vontade de ler e nem tem capacidade, pelo ensino médio fraco que temos, de interpretar aquilo que está escrito como uma opinião de quem escreveu ou de quem o jornalista reescreveu como uma fala da pessoa em si mesmo. Nosso povo tem o desejo, na verdade, de ser conduzido e não tem o menor desejo de “ousar saber”, por isso a publicidade é uns dos meios mais usados até nas campanhas partidárias e horários políticos. O marketing – meios para obter o fim da venda de produtos e serviços – vence o olhar critico das pessoas, porque usa os estereótipos (imagens) de algo popular ou lendas urbanas para propagar ideias que não fazem parte da verdade, a realidade dos fatos. Foucault diria que estamos vivendo no meio de uma prisão e esse discurso que vem do poder – porque o poder joga nos dois lados, pois ao mesmo tempo ele incluem as pessoas com deficiência, algumas instituições dentro da mesma politica, joga que somos sofredores eternos – vem como um Pan-óptico (centro das prisões) que vigiam o estado psicológico da própria sociedade.

Ao mesmo tempo que sou publicitário, também sou técnico de informática e tenho certas habilidades dentro da informática. Embora as pessoas “achem” que são profissões diferentes, não são tão diferentes assim, porque informática vem do termo informação mais o termo automática. Diria que seria “informação automática”. Não é isso que concluímos dentro de qualquer meio de informação? Na realidade, esse termo surgiu pelo fato de darmos a informação ao computador (ou qualquer maquina automática), e ele responde com outra informação daquilo que foi intruido a fazer por causa da programação (linguagens que se transformam em números binários que o computador entende). Nós chamamos de entrada (programação) saída (informação do computador). Tanto a publicidade, quanto a informática, usa a imagem e a linguagem para propagar algo ou alguma informação, então, o Facebook e os meios de interação social (como revistas, jornais e uma gama de meios), usam a linguagem como meio a chegar até a maioria do publico. Dai chegamos ao ponto chave da questão que quero abordar dentro do debate dos estereótipos que as pessoas dão a certas deficiências, porque vale lembrar, a informação entra e sai em forma de interpretação que algumas vezes, não existe.

Temos que confessar que somos um povo conservador. Quem nega isso não sabe de historia do Brasil. Só que nosso conservadorismo é o que nos interessa, pois há de se confessar que nossa cultura sempre viu o que nos é “vantagem”. Na verdade, deveríamos escrever “vantagem e progresso” em nossa bandeira, porque até antes dos nossos sentimentos, vem a “vantagem” de expressar ou não, esses sentimentos. Tenho muito em mim essa coisa de não enxergar isso como uma coisa vantajosa – parece sarcasmo, mas não é – porque as pessoas sinceras são as que conseguem maiores adeptos, daí o vulgo “puxa saco”, só é mais um inseto dentro de um enorme esgoto. A obra majestosa de Franz Kafka, A Metamorfose, mostra esse tipo de pessoa que não tem uma personalidade dele mesmo, não tem uma atitude com ele mesmo, então, vira um inseto. Não chamaria esse tipo de pessoas de “baratas”, porque se descobriu que elas tem alguma personalidade. Continuamos. Nesse poço cultural que nos encontramos – mesmo tendo o pior ensino, somos um povo que aceitamos outras culturas e outras demonstrações culturais – visões muito enraiadas sobre certas coisas que são alimentadas por seculos, uma delas é a visão das pessoas com deficiência e seus meios para se locomover, meios esses que não são objetos de tortura medievais. Mas tenho a certeza que certas visões são de tempos longínquos que como disse, não nos deixa. Essa semana uma certa apresentadora que fez a “besteira” de injetar produtos químicos duvidosos em seu corpo, tendo perigo de perder a perna, disse que tinha medo de ficar numa cadeira de rodas e que tinha um filho para criar e tudo mais que uma boa lamentação pode trazer. Nem vou comentar o veiculo que isso foi a tona, porque não quero fazer publicidade para revistas de 4º categoria.

Mas vamos falar do medo. Medo é aquilo que não conhecemos, ou nunca nos deparamos com aquilo. Tenho alguns medos, vocês também tem outros medos, cada um faz a leitura daquilo que acha ser um perigo. Para Freud, o medo era algo muito além da consciência e remontava a subconsciência – que depois seu discípulo e aluno, Jung, vai chamar de inconsciente – que era uma especie de “deposito” daquilo que aprendemos com o convívio da cultura. Depois Jung diria – abrangendo ainda mais – que existiria um inconsciente coletivo que uma ideia se espalharia para as pessoas numa especie de ligação coletiva, ou seja, temos uma linha wi-fi do subconsciente. Mas, você deve estar me perguntando, o que isso tem a ver com o medo da cadeira de rodas? Qual o simbolismo mor da cadeira de rodas? Uma prisão. Mas se analisarmos bem, também tem o simbolismo estético de algo que não demonstra uma vida saudável por causa da ideia de doença por seculos, como se isso fosse uma doença, então, a tal apresentadora, sabe que se ela ficar numa cadeira de rodas, ela não será mais apresentadora. Por mais que a mídia faça campanhas contra o preconceito, o conservadorismo do nosso povo é tão latente – e a imagem do cadeirante como “coitado” – que nunca teremos apresentadores cadeirantes, cantores cadeirantes, escritores cadeirantes, toda gama de oficio cadeirante. Para se ter uma ideia, nem mesmo publicitários com deficiência cadeirantes, temos. Qual agencia de publicidade quer ver veiculada uma pessoa cadeirante no seu corpo de funcionários? Qual canal de TV vai querer uma apresentador cadeirante? Mas para mim é um ato muito mais de vaidade – porque uma mulher desejada, copiada e invejada – porque envolve essas imagens todas. Esse pensamente é valido do direito dela dizê-lo, mas isso alimenta certos paradigmas.

Somos uma imagem arquetípica, porque somos o mistério que nunca e nem ninguém nos decifrou. Somos uma especie de enigma da esfinge que ninguém conseguiu responder, porque se o homem na manha tem quatro patas (infância), tem duas a tarde (adulto) e três a noite (velhice), onde fica as pessoas que não andam, não enxergam ou não escutam nessa historia toda? Onde ficaremos escondido se sair uma guerra? O que acontece conosco quando há crise financeiras e politicas? E outra, sempre tem outra quando se trata dessas beldades que se tornam “cristãs”, ela não vai se tornar paraplégica, ela vai se tornar uma amputada, sem a perna e talvez, sem as nádegas. Ela não fraturará a coluna. Infelizmente, como todos daqui, há paradigmas que não somem e muito menos mudam. O que dizer de pessoas que nem sabem a diferença de paraplégica e amputado? O que dizer das pessoas que postam fotos de cadeirantes pedindo “amém”? Aliás, como estudante das religiões, esse “amém” é muito sagrado para ser publicado em rede sociais, além de alimentar a imagem de doença e um ser depressivo e amargurado. Como a apresentadora disse. Como a revista publicou. Como todo mundo diz. Somo seres humanos tristes, porque não temos autonomia, mas nossa autonomia, vem muito mais do que uma autonomia vaidosa. Ainda o nosso segmento além de ter a Síndrome de Estocolmo (são pessoas que acabam amando seus sequestradores), ainda dão o direito as pessoas terem o medo das nossas cadeiras de rodas, alimentando esse paradigma, fazendo dessas “lendas” algo democrático.

Temos que lembrar que o medo em si mesmo é legitimo, mas medos e declarações que podem ofender um determinado segmento ou quem é cadeirante, já não é mais um medo. Eu particularmente, acho esse tipo de fala com um “querer se aparecer na mídia” como se fosse alguma “melancia no pescoço” porque a pessoa quer o foco nela. Ainda mais quando ela se torna adepta a uma seita que virou “moda”, não segue Jesus, não segue seus preceitos, ainda querem arrotar moral para a sociedade. Quando digo preceitos cristãos, estou falando no Sermão da Montanha, nos quatro evangelhos onde Jesus ensinou. Não digo outros. Não digo ensinamentos teológicos, digo a essência do cristianismo e o ensinamento do sei suposto idealizador (porque você pode ler que Jesus não queria diferenciar do judaísmo, mas reformá-lo). Mas ainda sim, hoje em dia, as pessoas ficam muito mais em formas de pensar que tragam vaidade, muita vaidade. O resto é historinha para velhinha chorar.

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Responses

  1. Boa Tarde Amauri, me chamo Aline e sou estudante de Publicidade, e no momento estou no final de minha monografia com o tema: A Representação do Deficiente Físico na Publicidade, um comparativo da década de 90 com os anos 2000, em minhas pesquisas achei seu texto. Gostaria de conversar com você, em modo entrevista para agregar ao meu trabalho ou até mesmo receber uma orientação, seria possível?

    • sim…só me add no meu Facebook…ou no e-mai amauri.njunior@gmail.com


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