Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 24 de fevereiro de 2015

Marginalizados iludidos – eu sou cadeirante.

Um monge toca para uma criança com deficiência.

Um monge toca para uma criança com deficiência.

Nunca me vi além da minha deficiência, sempre tive conflitos, mas nunca me vi além daquilo que sou. Essa é a entrave de muito cadeirante, muito muletante, muito surdo ou cego, sempre se acham fora de suas deficiências, mas somos a deficiência em si mesmo. Outro problema é que as pessoas acham que tem que provar algo para os outros, tem que homenagear os outro para “parecerem” bons, porque assim que é a nossa sociedade e é assim que se deve ser. Por isso que aparece correntes que nada ajudam a pessoa, mas um gesto sim, um gesto é muito melhor do que mil palavras. Palavras são signos para expressar sentimentos e pensamentos, que podem existir ou não podem existir, mas que não é o que somos. Podemos até usar jogos de linguagem para satisfazer nosso próprio ego, mas nunca serão o que você é de verdade.

O encontro consigo mesmo é um exercício que deve fazer para entender quem você realmente é. Por exemplo, quando eu me encontrei como cadeirante e comecei a enxergar a cadeira de rodas como parte do meu corpo – ou extensão – comecei a resolver vários conflitos dentro de mim. Porque nesse momento eu sou um cadeirante, nasci são, mas por falta de oxigenação cerebral, eu tenho paralisia cerebral. Sou a paralisia cerebral, eu sou cadeirante, eu sou o momento agora e nesse instante sou escritor e não é o fato de eu ser cadeirante ou eu ser a paralisia cerebral – não quer dizer que meu cérebro esteja paralisado – que não posso ser um escritor ou escrever este texto. Porque a sociedade sempre construiu uma imagem – ou estereótipo – que as pessoas com deficiência devem superar sempre no âmbito físico e nunca intelectual. Não vimos a mídia falar de repórteres com deficiência, escritores com deficiência, atrizes com deficiência e sim sempre, esportista com deficiência. Eu não sou esportista, muitos ao meu redor não são esportistas, então, não podemos aparecer na mídia, não somos rendável dentro das premissas de uma boa venda de jornal ou revista. Afinal, quem é esse “deficiente” que quer sair do lugar que fazemos para ele ficar? O esporte rende jornal, o esporte rende a ideia de “exemplos de superação”, o esporte as pessoas querem mentir para si mesmos que são aquilo que não são, aquilo que não aceitam e ficam inventando ilusões e essas ilusões se tornam verdade. O fato que o para-esportista é uma pessoa com deficiência, uma pessoa não é um “deus” apesar de carregar o fogo da deusa grega Niké (vitoria), que é o mesmo fogo de Prometheus.

Uma pessoa marginalizada é uma pessoa que esta a margem de algo, se estamos a margem de algo é porque nos colocamos como tal. Não existe condição que as pessoas estão que a própria não se colocou, porque sempre vai pensar que as outras pessoas devem a aceitar, mas você mesmo deve se aceitar porque nesse momento você é isso, você esta numa cadeira de rodas (ou outro aparelho, como sou cadeirante eu uso cadeira de rodas), mas nós sempre aceitamos o que a mente trás como verdade, essa verdade é “se eu fosse”. Esse “se eu fosse” é uma grande entrave para aceitação de uma deficiência e com isso superar suas limitações como se fossem algo natural. Agora nós somos um cadeirante, agora estamos numa cadeira de rodas, agora somos nós e nossas cadeiras de rodas e isso não vai mudar nesses momento. Nada que estudou, nada que aprendeu, nada que faz no seu cotidiano vai mudar isso, pois podemos ser esportistas, jornalistas, publicitários, poetas, escritores e etc, não vai mudar a nossa condição de cadeirante. Não existe “se eu fosse” porque não somos, não estamos em uma outra dimensão que podemos não ser um cadeirante, estamos nessa, estamos nessa vida, estamos nesse momento. Muitos não se aceitam porque ficam nesse “se eu fosse” e esquecem o “eu sou assim”, porque sempre estamos presos no tempo, porque sempre estamos presos o que eramos e o que podemos ser. Outra coisa que vejo é em relação ao casal – pode ser que estou errado, afinal não sou senhor da verdade e nem existe verdades absolutas – muitas pessoas arrumam pessoas que não tem deficiência para satisfazer o seu próprio ego, porque ainda estão no “se eu fosse” e não estão no “eu sou assim”. Esse tipo de relacionamento é – como diria Renato Russo – “mentir para si mesmo é sempre a pior mentira”, ou seja, vamos sempre nos marginalizar sempre aceitando a ideia social, sempre não aceitando nossa condição.

Dai mora a ilusão. A ilusão é definida como confusão da nossa percepção, ou mais ainda, iludir é enganar-se e burlar ao outro e a si mesmo. Burlar aquilo que é por natureza e não podemos ver graças a confusão da nossa percepção a imagens que aprendemos por si mesmo. Aquela pessoa que se ilude é aquela pessoa que escapa daquilo que é realidade – seja social ou intima – pois se pusermos na nossa mente que tudo é tragedia, o mundo passa a ser tragedia, se pusermos na mente que o mundo não existe e sim nossas próprias escolhas, o mundo perde o sentido que todos impõem a nós ou nos deixamos impor. No caso da deficiência é se iludir com falsas promessas de cura, tanto no âmbito religioso, quanto no âmbito cientifico, porque nos iludimos ainda com a perfeição. A perfeição que nós sempre buscamos não passa de uma lógica somente humana, não existe perfeição na natureza, nada é igual a outra coisa. Aliás, no latim se derivou o termo iludir veio do sufixo “in” e ludo que é brincar, ficaria “eu brinco” e assim, brincamos com nosso desejo de ser algo, uma esperança enganosa para construir uma realidade que não existe. Iludir a si mesmo é causar uma impressão enganosa, é ter uma esperança de algo desejável. Por isso que várias filosofias – principalmente as orientais principalmente o budismo – vai dizer que todo desejo é uma satisfação do seu ego (eu), mas esse ego, não é nossa verdadeira identidade e sim, a falsa que o meio social nos ilude. Voltamos ao iludir, porque a ilusão sempre é algo que fazemos para burlar a realidade, o que somos, o que poderíamos ser, mas não somos. O falso eu (ego ilusório) sempre é algo que a mente transforma em realidade, sempre se transforma em algo concreto e não é, é uma ilusão. Então pouco me importa tratamentos que ainda não existem, dinheiro que ainda não existe, cadeiras de rodas que eu poderia ter, mas eu não tenho nesse exato momento, porque o agora que você vive e não o depois, ou o que você foi. Focar não é trazer a realidade, focar é direcionar sua atenção a um objetivo que é a consciência de um ato que ainda é um virtualização daquilo que não é em ato. O preconceito começa consigo mesmo que quer ser o que a sociedade deseja que somos, mas não somos o que o outro deseja, mas o que desejamos para si mesmo. Aceitar não é a conformação da situação e sim, a transcendência de algo mal resolvido dentro de nós mesmos, dai, podemos superar mais tranquilamente sem mesmo, agredir ou precisar de alguém para aceitar aquilo que você próprio aceita.

As pessoas com deficiência devem ter dentro de si mesmo que são pessoas que tem certas limitações, mas que são pessoas e não vai mudar nada se iludir daquilo que não são, daquilo que não vão ter e a sua força sera infinita. Por que? Porque acionamos nossa verdadeira identidade, nosso verdadeiro eu, e não precisamos nos agarrar em ídolos que querem ser bajulados para satisfazer suas próprias frustrações. Como o negro é negro, como o gay é gay, como tudo que cada um nasce caracterizando uma individualidade, ou seja, a verdadeira identidade é a aceitação do que somos realmente. Não nascemos marginalizados, nos tornamos marginalizados porque são imagens sociais de uma realidade que não existe, talvez, nunca irá realizar essa realidade, mas nunca deixaremos de ser o que somos. Mesmo se irmos nos lugares que nos prometam cura, mesmo se acreditarmos em ideologias e até mesmo na ciência, mas não deixaremos de ter uma deficiência. Não deixamos de ser o que somos, não deixamos o que vivemos agora, a deficiência.

Amauri Nolasco Sanches Júnior

Publicitário, técnico de informática e estudante de filosofia ←

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