Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 11 de outubro de 2014

Paradoxo do Nada – as cadeiras de rodas e o “eu”.

Descrição: na direita uma imagem preta e na esquerda uma imagem branca, a branca está escrito “nada” e a preta está escrito “tudo”.

Por Amauri Nolasco Sanches Junior.

Quem já não ficou diante do “nada” e se sentiu com um tedio mortal? Isso me faz lembrar quando eu era mais novo – até os 18 anos – morria de medo de ficar sozinho e não me via sozinho dentro do mundo. Depois que comecei a me dedicar a leitura de filósofos quase solitários, conhecer pessoas que viveram sempre solitárias, aprendi a resolver meu medo quase freudiano. Freud – o homem de barba que sempre aparece com um charuto na mão ou fumando um cachimbo, teve um grande papel além de desenvolver a psicanalise, desenvolver um trabalho sobre paralisia cerebral quando era medico – dizia que todos nós temos medo da morte (tanatus) e fugimos dela sempre que confrontamos com ela. Esse mesmo desejo de fugir é o que nos fazem viver e nos fazem ter o instinto de sobrevivência – mesmo que este extinto esteja aparentemente passivo – ele está lá e vai, de uma maneira ou de outra, acionar sua defesa ou com violência ou com atitudes de ataque. Talvez quando você compete por algo é, no seu entender, uma maneira de sobreviver que muito a publicidade aciona esse lado do ser humano primordial. Ao mesmo tempo que você enxerga isso como uma das mais reais situações do mundo, porque um dia vai te ocorrer mesmo que não queira, nós nunca paramos para pensar que inútil para nós lutar contra isso e é um fato irreversível de toda a natureza universal. Essa impotência diante desse fato – porque o medo só é a causa da falta de entendimento disso – faz o ser humano não falar ou não estudar essas coisas e até não parar para se conhecer, criar uma consciência do “nada” para tirar sentimentos que não tem a ver conosco. De repente, era isso que eu via com a solidão, eu tinha medo de ficar comigo e de sentir mais de perto que o mundo – como eu imaginava – não era como eu desejava que fosse.

Me deparei com minha solidão quando meus irmãos casaram e depois minha mãe foi diagnosticada com câncer e me deparei com a morte. A solidão foi anos a fio sem ninguém antes de conhecer a Marley (minha noiva e melhor amiga), além como disse, dos meus irmão casarem e terem suas próprias famílias. No caso da solidão foi muito mais fácil e muito mais resolvido do que a morte, pois a solidão eu tinha a Marley que me dá muita força (as vezes eu acho que eu encho muito o saco dela por causa dessa minha solidão igual a musica Ainda é Cedo do Legião Urbana). Mas no caso da morte foi mais difícil, pois o “nada” da solidão se resolve até com um Facebook, um video engraçado, uma musica no ultimo volume. O “nada” da morte você se depara com aquilo que desconhece, aquilo que é inevitável e não vai consegui evitar, entes queridos começam a ir embora a partir do momento que você envelhece. Mas esses dois “nadas” são inevitáveis, pois te dará algo profundo do que pensar e viver de maneira diferente e entender que o mundo é o que é e nenhum ser humano pode mudar isso. Quando a minha mãe se foi, descobri que ela me treinou e que não estava sozinho – mesmo enchendo o saco da Marley – tinha a mim mesmo e toda a minha natureza e meus valores para construir o que queria construir. Do “nada” que me encontrava, diante de tudo que a perca me fez ver, fiz o que eu acredito ser o “eu” verdadeiro da minha existência e essa existência é a prova que existo. Pronto! Eu comecei ver que pensava e se eu pensava, logo, eu existia e poderia ter minhas próprias vontades. Mas não me sentia satisfeito e nem estou, porque está longe de resolver alguns processos.

Longe de ser uma biografia – acredito que nunca conseguirei escrever uma, um dia, quem sabe consiga – isso só foi para mostrar que não há meios de se fugir de algo real, ou, que existe muitas situações que são inevitáveis e vão te fazer pensar um dia. O caso de nossa deficiência é uma que não pode ser ignorada, porque como a morte, nascemos com ela e vamos ter que encarar na melhor maneira possível. A deficiência é inerente a realidade porque ela se torna em si nós como pessoas com deficiência, a deficiência se torna até, nossa natureza. Ao mesmo tempo temos a certeza que o “nada” não existe – porque a sociedade ainda insiste em dizer que o importante é viver para consumir e se perpetuar – nós nos deparamos com ele quando paramos e colocamos prioridades dentro da vida que não são prioridades. Quer um exemplo? Podemos pegar nomes de grupo que expressam nosso inconsciente que não aceita nossa deficiência, como “Cadeirantes também amam”, “pcd e simpatizantes” e etc…e enxergar que não estamos agregando, estamos desagregando. No falecido Orkut era assim, no Facebook continua assim, porque nos deparamos com a não aceitação do que a vida nos trás e ela vai nos trazer até nós aceitamos. E quando olharmos nossas limitações e os aparelhos que usamos, nos deparamos com a realidade e a realidade pode ou não ser limitante, pode ou não ser aceita, pode ser amarga ou doce, mas é inevitável e não vai ter células-tronco, não vai ter exoesqueleto, não vai ter nada – aliás, tema do texto – que vai fazer você sair disso. Se for pelas células-tronco você sempre vai lembrar que foi por causa delas que você andou, se for pelo exoesqueleto, sempre vai lembrar que você está andando por causa de um aparelho e por ai vai. A deficiência vai te perseguir e cabe a cada um aceitar ou não, fazer da vida importante ou não, mas não adiante fugir ou chorar, o importante é de alguma maneira, ter atitude. O “nada” existencial um dia chega para todos, você se depara que a vida de baladas, a vida de esportes, a vida de tudo que você faz e se importa, você faz porque foi condicionado a fazer. A maioria ouve aquele determinado ritmo musical porque todo mundo ouve, a maioria segue aquela religião, porque a família segue e a maioria da comunidade também, a maioria já vive no “nada” a muito tempo porque não passa de massa de manobra e é o que vi e vejo no segmento das pessoas com deficiência. Alguém viu já um cantor famoso com deficiência? Alguém já viu um padre ou um pastor com deficiência? Você já viu algum partido ter boa vontade e ter uma politica verdadeira para as pessoas com deficiência? Por que continuamos a não ser pauta em nenhuma dessas coisas? Porque nos tratam como “coitadinhos” ou “coisinhas fofinhas” que só servem para votar, orar e ouvi o que o pessoal canta, só isso.

Você ai defendendo tudo isso e simplesmente, não ligam para sua deficiência, eles só querem lhe vender algum sonho. Eles querem te vender uma musica que não vai consegui te colocar na vida, eles vão te fazer acreditar na cura no culto ou na missa, eles vão fazer você acreditar que eles irão fazer pelas pessoas com deficiência, mas que não vai acontecer. Não adianta ficarem chorando por uma coisa que só você vai ter que fazer, existe uma diferença em fazer e acreditar, porque temos a consciência daquilo que vimos e ouvimos no mundo. Então, quando vimos que nenhuma dessas coisas não vão ajudar você e que vai ser inevitável viver, aí começamos a enxergar o “nada” e a máxima socrática (Sócrates filósofo grego e não o jogador), que sei que “nada” sei, o saber que o “nada” existe e que sempre estamos a aprender alguma coisa. Primeiramente você passa a perceber a si mesmo e perceber que não é uma “coisa”, com seus sentimentos, com suas vontades e passa a enxergar ao seu redor algo alienante, algo que não vai fazer melhor ou pior, e sim, vai te fazer acreditar que isso vai melhorar você. Ai, você vota em deputados que não fazem nada por você, vão fazer para atletas de jogos para classe media alta, vai fazer para o que é melhor para o dono da empresa de ônibus, vai fazer para aqueles que lhe interessar. Ai mais uma vez você vai no Facebook e posta um monte de “nhenhe” e “mimimi” dizendo lutar por uma causa justa, então, por que votou no distinto? Enche um monte de grupelho o Fecebook, mas por que esta lá no Fecebook no distinto repassando o que ele posta? Entende caro leitor, que você mesmo dá o machado para o carrasco cortar sua própria cabeça?

Nossas cadeiras de rodas são reais, nossas deficiências são reais e longe de sermos “coisas” somos seres humanos. Nós não temos a menor obrigação de aceitar a sociedade que não nos aceita e nem levá-la a serio, pois no momento que ela tirou a obrigação de se sentir isenta de nós, não podemos também colocar em nossos ombros a obrigação de se sentir parte dela. Existe pessoas conscientes? Sim, existe. Existe pessoas que respeitam? Sim, existe. Mas a grande maioria o faz – num modo bem profundo – para vestir um personagem e nem sempre esse personagem “cola”. Enquanto não aceitarmos o fato que somos pessoas com deficiência e vamos viver com essa deficiência o resto da vida, vai ser difícil entender que o mundo não te quer, não te aceita, não acha você importante e não vai deixar você viver ou trabalhar. Enquanto não entendemos que a moral só segrega o ser humano e não vai fazer você melhor, que os “sonhos de amor” não vai fazer você amar, que os políticos não vão fazer por você e nem as baladas vão fazer você enxergar o verdadeiro você. Nesse dia! Nesse exato dia! Você vai perceber que você pode, que você encontrou você e que vai trazer a tona o que é de mais importante, seus sentimentos e suas vontades. Que você realmente existe e quer viver por si mesmo, sem amarras existenciais, sem amarras religiosas falsas, sem nada que nos aliene de um mundo palpável. Encontraremos dentro de nós a verdadeira alma, o verdadeiro intuito de se brigar o que é justo e o que é importante, do que é necessário não só para nós, mas ao nosso semelhante.

Vamos enxergar que a solidão não existe, pois temos a nós encontrados junto ao eu verdadeiro. Vamos enxergar que a morte é inevitável e que não é o fim numa verdadeira espiritualidade – não ficaremos suspensos no limbo esperando o Apocalipse – mas a espiritualidade intima do verdadeiro ser na sua mais intima essência. Tudo se renova, pois como disse o cientista Lavoisier, nada na natureza se perde ou cria,mas tudo se transforma. Transformamos a dor em força para lutar, transformamos a saudade em esperança, transformamos nossas cadeiras de rodas em nossas pernas. E uma das mil frases que gosto do filósofo Nietzsche cabe a esse texto e fará refletir:

“Quem quer que haja construído um novo céu, só no seu próprio inferno encontrou energia para fazê-lo!”

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