Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 1 de junho de 2014

Ossos enferrujados

cena do filme, Alan com Stérphanie numa cadeira de rodas na calçada da cidade da França.

assista o filme aqui 

Estava vendo o filme Ferrugem e Ossos (deve ser um desses nomes esdrúxulos brasileiros), que é um filme franco-belga, onde a historia se passa no norte da França e é entre um cara o Ali tem um filho de 5 anos que não sabia e vai morar na garagem da casa da irmã. Trabalhando como segurança de uma boate conhece Stéphanie que é uma treinadora de orcas num show aquático que uma semana após, perde as pernas num acidente no show. O filme tem seus tramas e tem suas verdades que valem para mostrar que ainda o preconceito impera aqui e no exterior.

O importante para analisarmos aqui (o filme deixarei um link dele online) é o contexto que ainda existe e nossa sociedade onde o discurso dominante atinge o poder estético da coisa como um esteriótipo dominante. Dominar pelo discurso não é só os grandes ditadores sabem fazer, nas ditas nações democráticas também há um discurso dominante que constrói a imagem o que é bonito, o que é feio e o que é certo e o que é errado que as pessoas são ou não são. São imagens que a cultura vigente, de repente, criada dentro de um contexto importante para algumas empresas de cosméticos ou até a mídia que não passa de empresas que tem a concessão do próprio governo para abrir a tal. Podemos ver tudo isso dentro do filme, estereótipo como ser pai, o estereótipo como ser irmão, o estereótipo como ser uma pessoa com deficiência que não se aceitou. Stérphanie não se conformava porque o mundo moldou a imagem do deficiente como pessoas que não podem e nem devem ser felizes e sim, se conformarem com esse tipo de situação, se conformarem que eles tem limitações e não podem nada.

Podemos ver no filme que Ali tem medo de qualquer relacionamento como se isso pudesse amarra-lo e não controla sua irritação, não tem amadurecimento o bastante para tal – há um estudo que diz que o homem tem o amadurecimento mais tardio do que a mulher – e foge do sentimento por Stérphanie. A questão é que Stérphanie tem uma visão muito mais amadurecida e que assume seu sentimento, porque tem certeza o que sente e esse sentimento que faz ela sair do circulo vicioso no que eles estão acostumados. Na verdade, quando ela começa a transar com o Ali é uma atração que ela tem e depois, aparece o sentimento que só no final, quando Ali quase perde seu filho, assume de vez. Por que? Psicologicamente o homem tem que ter um lar, um lugar fixo – não o “macho alfa” que se bobear pega tudo, não perdoa nem animais – que se encontra. Mulheres são sentimentais, são fixas por outros fatores que se não for assim, também tem uma condição social muito grande.

Mas estamos falando em discursos dominante que caem muito do estereótipo que as pessoas tentam impor diante das coisas diferentes, só andar 5 minutos na rua com sua cadeira de rodas (vou colocar minha visão cadeirante porque é onde vivo), ouvimos coisas do tipo “ah, tão bonito, mas é tão triste” ou “Vai numa igreja e Jesus vai te curar!” mostra como a deficiência é muito triste ou que somos assexuados. É só ver a cena onde a Stérphanie é paquerada e quando o sujeito vê sua perna mecânica, muda de ideia e até pede desculpas. Por que? Porque temos ainda a aparecia do sofrimento, temos o estereótipo do ser que acometeu perder as pernas (no caso do filme) e não pode ser mexido, paquerado, é quase um ser sagrado que é infantilizado por ser sagrado. Mesmo Ali enxerga isso, ele enxerga o ser sagrado, o amigo que quer descobrir que ainda pode, que ainda busca ter uma vida. Sartre dizia que o silêncio é reacionário, ou seja, quem se silencia se coloca no lado daqueles que não querem uma mudança, aceitam o discurso dominante e não querem sair de sua zona de conforto.

Mas também o silêncio é uma subjetividade do ser humano – subjetividade é algo que cada ser humano sente ou pensa, cada ser humano tem sua subjetividade – é uma interiorização daquilo que lhe damos como sentimento e cada um sabe “onde o calo aperta”. Talvez por isso a inclusão seja algo subjetivo, porque cada um interioriza de sua forma se tem ou não importância, mas cada ser humano tem essa escolha dependendo dos valores que aprenderam. Ao mesmo tempo essa escolha pode atrapalhar quem quer essa inclusão com seu silêncio reacionário e ao mesmo tempo, conformista em uma situação que só vai beneficiar seu próprio ego. Esse ego que atrapalha muitas vezes a inclusão, quem tem que ser do seu jeito e com as formulas que você idealizou, mas estamos falando de pessoas e pessoas tem pensamentos e sentimentos diversos.

O filme fala isso, uma inclusão muitas vezes cercada de preconceito de nós mesmo, cercada de estere[otipos que nós mesmo nos alimentamos, que nós mesmo devemos enxergar a força que temos. Uma cadeira, uma bengala, uma prótese não faz a medida de carater, ou faz a medida de nossa força e astucia, mas é apenas um dos acessórios. Não somos somos especial, não somos assexuados, não somos acima de nada, somos pessoas que vamos e queremos viver. Stérphanie mostra que pode ser superada uma deficiência, nada pode nos segurar, só nossa própria pena.

Amauri Nolasco Sanches Junior – filosofo

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