Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 7 de março de 2014

“Fala pra mim APAE”

Busto de Epicteto

 

 

“Lembra-te que não é nem aquele que te diz injúrias, nem aquele que te bate, quem te ultraja, mas sim a opinião que tens deles, e que te faz olhá-los como gente por quem és ultrajado. Quando alguém te magoa ou te irrita, saiba que não é aquele homem que te irrita, mas sim tua opinião. Esforça-te, portanto, acima de tudo, para não te deixar levar por tua imaginação” (EPITETO)

 

 

Epicteto – nome dado ao filósofo que quer dizer “comprado” e não se sabe seu nome verdadeiro – viveu maior parte de sua vida em Roma como escravo do cruel secretário do imperador Nero, Epafrodito. Tanto, assim diz a lenda, que uma vez lhe quebrou a perna. Nasceu em em Hierápolis em 55 depois de Cristo – cidade antiga da Turquia onde ficava colônias gregas da Frigia, nesse período, incorporada ao império romano – e foi um filósofo estoico. Mesmo nas condições de escravo, assistiu aulas do filosofo Caio Musonio Rufos que também era estoico e esse acaba adquirir as condições necessárias para se tornar um filósofo. Até que um dia ele foi solto – deveria ser muito irritante fazer maldade com uma pessoa e ele está sempre feliz e nem ligando para isso – se tornando filósofo e ministrando aula. Seus dois livros, o Manual de Epicteto e o Discursos, foram escritos nas anotações das aulas pelo seu discípulo Lúcio Flavio Arriano na Nicomedia (nome da antiguidade classica a uma cidade da Turquia que se chama hoje Ízmit). Falece em Nicópolis em 135 – cidade fundada por Augusto após a vitória sobre Marco Antônio com os habitantes de uma antiga colônia de Corinto. Para entender a filosofia de Epicteto e o paragrafo que está acima, temos que entender a filosofia estoica muito difundida em Roma e tem grandes nomes como Sêneca e o imperador Marco Aurélio.

O estoicismo foi uma escola de filosofia fundada por Zenão de Citia no sécilo 3 antes de Cristo na Grécia, onde ensina que todas as emoções destrutivas levam a erros de julgamento que um sábio deveria evitar já que, ele teria a “perfeição moral e intelectual” para evitar esse erro. O estoicismo também ensina que o universo e regido por um logos (significa “palavra”) divino, esse logos (razão universo), ordena todas as coisas, tudo surge a partir dele e de acordo com ele, graças a ele o mundo seria um kosmos (termo grego que significa harmonia). Para eles (os estoicos), a alma se identifica com este principio divino como parte de um TODO no qual se pertencem, ou seja, pertencemos e temos essa parte divina no qual temos que buscar sem temos essas emoções destrutivas. Parte da filosofia cristã absorve essa filosofia e muitos dizem que o cristianismo é uma religião estoica, onde se perdeu em resoluções teológicas, mas na essência é parte do principio claro do logos. Então agora é facil analisar o principio que quero chegar com esse paragrafo de Epicteto.

Há uma campanha muito difundida contra comediantes da nova geração – que os mais afoitos esquerdistas (ser esquerdista é diferente de ser de esquerda), que dizem que eles são “filhinhos de papai burgueses” objetando preconceito – que só são imitadores do stand- up norte-americano. Não vejo diferença deles falarem de preconceito contra uma certa minoria, sem ao menos analisarmos que grandes comediantes do passado como Chico Anysio, Mussum, Tião Macalé, Jô Soares entre outros, fizeram e os que estão vivos fazem. Quantas vezes ouvimos piadas de negros pelo próprio Mussum? O que acontece, como muitos escrevem hoje, que temos uma escola fraca que não ensina o aluno a interpretar textos e ainda, saber o que é e o que não é humor ou sacarmo. Quem diz que Monteiro Lobato é racista por causa do texto “A Negrinha”, não entendeu nada o que ele quis passar ou nas piores das hipóteses, não sabe interpretar textos. Em tudo a interpretação é algo muito ruim e não seria diferente no caso do Rafinha Bastos que só fez uma piada em seu DVD A arte do Insulto, onde o humorista disse que iria internar o “órgão reprodutor” na APAE porque iria usar uma camisinha “retardante”. O termo retardar tem o significado em “demorar”, algo que adiamos para depois e é um termo interessante que podemos ver o erro do outro termo perjorativo que foi por muito tempo o termo que designava as pessoas com deficiência mental. A piada, de repente, tem o intuito de dizer e de modo de escarnio, que ainda se tem aquela ideia que lugar de “retardado” é na APAE e que ele, por usar uma camisinha “retadante” tenha que internar o seu (piiii!) na instituição. Difícil pensar? Acho eu que dói um pouco para algumas pessoas.

Daí chegamos ao paragrafo de Epicteto quando ele diz que o problema não é o dizeres de que nos é dito, mas a nossa opinião sobre quem está dizendo. A filosofia estoica tinha a indiferença (apathea) como um meio de chegar até o logos, assim, o sábio tinha a perfeição moral e intelectual para isso porque ele realmente busca esse logos. O problema não é o que o Rafinha Bastos disse, não é os termos pejorativos e sim a imagem que se fez dele (a mídia sensacionalista), quando ele só repetiu uma piada de muito tempo do Bocage para se referir a cantora Wanessa Camargo. Nós ainda temos a mania, ou uma coisa natural, ou é um sentimento de ser aceito e estar no meio, de aceitar muito facilmente o que as pessoas dizem e não é o que as figuras “odiadas” dizem, mas o que fazemos da nossa própria opinião sobre o que elas são, a imagem popular e do senso comum de determinada figura publica. Para mim não interessa o que as pessoas disseram do Rafinha Bastos por esse ou por outras como da cantora, é o que ele é e as piadas que conta que pode ou não ser engraçadas, não costumo defender um ou outro lado em brigas. Não sou fã ou gosto do trabalho dele, mas pode crer que no mesmo modo que não vi nada na piada que quase custou a vida dele (sem exageros), não vi nada na piada dele da camisinha, aliás, não consigo nem rir. Como disse no texto anterior – Ideologia da Deficiência – que estamos rumando para um periodo de ditadura do politicamente correto.

Então, não há imensa atitude de julgar no calor das emoções de sentimentos que não são verdadeiros? No ultimo paragrafo Epicteto diz: “Esforça-te, portanto, acima de tudo, para não te deixar levar por tua imaginação”, ou seja, não levar uma imagem que fabricam para dominarem. Sempre o encontro da “verdade” é nosso e não o outro, é sempre algo interno e algo interno só nós sabemos. Isso acontece com todos os artistas que viraram inimigo nº 1, como vimos por ai, pois não é o que falam ou fazem e sim, a imagem que fizeram dele. No segmento podemos ver o Jairo Marques ser alvo de comentários maldosos só por causa do texto sobre o romance da Miss Bumbum ter um namoro com um advogado cadeirante, porque a maioria diz que não podemos ser expostos. Mas no entanto, em campanhas como o Teleton podemos, porque essa imagem de “coitadinho” que precisa de um tutor e de uma entidade para nos cuidar, é ainda muito forte no nosso país. Talvez isso que mobilizou a APAE entrar na justiça contra o humorista, a imagem do “coitadismo”, a imagem de uma pessoa deficiente que não pode se defender.

A anos venho denunciando musicas como “Cadeira de Rodas” e outras, que fazem coisas muito piores do que essa piadinha ai. Nos coloca como pessoas tristes, como pessoas que não podemos casar, que não podemos ter uma vida saudável e feliz, porque ainda temos o estereótipo que não somos perfeitos, somos sem vida porque a vida se faz com uma alma, e só os seres perfeitos tem uma. Ainda se tem uma visão da fraqueza e não da força que temos e então, não podemos ter forças para procurarmos o logos e sim, esperar esse logos ter misericórdia e conceda a graça de não nos dá sua natureza, mas nos fazer perfeitos e andar, só assim teremos a centelha divina. Temos a perfeição intelectual e moral para isso, não superar, mas de viver cada dia com maior força. Epicteto tinha a razão, vamos ser sábios e lutar com seriedade e esquecer as mazelas da vida.

Amauri Nolasco Sanches Junior – publicitário, técnico de informática, filosofo da inclusão

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