Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 2 de fevereiro de 2014

Manual do beijo, escritor cadeirante e outros

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Foto da filosofa Simone de Beauvoir com a frase: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos”

Pelos últimos acontecimentos, tenho que escrever sobre o que está acontecendo dentro do Brasil que se dividiu em dois. Nesses dias eu disse do meu Facebook que a direita diz que estamos num perigo comunista, e a esquerda está dizendo que ainda estamos sendo explorado e sinceramente, isso é um saco. Mas em tudo é assim, a direita e a esquerda dividem o mundo ainda em uma guerra fria que não temos mais – se um dia ela esteve presente mesmo – e transforma o mundo em um verdadeiro inferno a moda Dante. Dante ainda queria passar por esses mundos para encontrar sua bela Beatriz, mas a esquerda e a direita, não tem nenhuma “Beatriz” para nos oferecer e sim um “país das maravilhas” que não vai acontecer, porque sempre haverá uma rainha para cortar nossas cabeças.

Mas além dos conceitos que abrigam as esquerdas e direitas é o preconceito, mas ainda mais longe do conceitos está uma cultura brasileira que não se moderniza porque ainda, com toda sua tecnologia, estamos numa Era medieval tardia. Os conservadores religiosos não sabem que esses conceitos não são mais prioridades e não servem mais, porque não somos mais vassalos de suseranos com terras e sim, vendemos nosso serviço a alguém. Pode parecer algo semelhante, mas não é algo semelhante e nem mediante ao mundo no qual vivemos, que tem que ter um “demônio” para nos amedrontar, temos que ter termos e ultrapassar esses conceitos. Já a esquerda é uma esquerda que se apegou a estereótipos e fazem desses estereótipos “verdades absolutas” e julgam serem os heróis que libertará o ser humano da opressão, que eu chamo de síndrome de Che Guevara. A esquerda brasileira é acometida da síndrome de Che Guevara e as pessoas não se deram conta disso. Onde estariam nossa sensatez? No preconceito e no senso comum? Isso vimos quando alguns termos saem da normalidade, saem do discurso religioso hipócrita ou um discurso libertário hipócrita e não estamos tão longe desses preconceitos, porque como disse já, as pessoas com deficiência são também seres humanos com seus conceitos e preconceitos.

Não estamos isentos de termos preconceito, mas penso que não deveríamos te-los pelos motivos mais óbvios possíveis, somos discriminados pelas gamas de preconceitos que estão ai e os deficientes religiosos não percebem. Temos ainda que ter termos certos para certas ocasiões que nem sempre pode ser o que a pessoa quer ou precisa dizer, como sempre digo, a sinceridade aqui no Brasil acaba sendo má educação. Mas o casamento autista e o beijo gay foi retratado em uma novela como inúmeras vezes foi retratado o amor entre cadeirante e não deficiente – se é verdade ou não, manipulação ou não, ou estereotipação ou não é tema em outra discussão – o fato é esse, vivemos num mundo com a diversidade humana em sentimentos e atitudes. Os homossexuais tem todo o direito de beijar seu amor como um deficiente também, porque isso consiste no direito de ter e de sentir e o direito de ir e vir que todo fanático não enxerga. Convido as pessoas a pensarem e analisarem por si mesmas, sem mestres, sem tutores que mostrem o caminho que não é seu, mas é do tutor, é do pastor ou sacerdote que foi adestrado para isso. Brigar por aquilo que se acredita, não é impor ao outro suas convicções e crenças, é simplesmente, olhar o lado bom de tudo. Coisa que paradoxalmente, o povo do lado religioso nunca olha, nunca olha o lado histórico da bíblia, nunca olha que a humanidade evolui.

O problema disso tudo é a esperança, ganho de potência com ganho de agir, porque se temos esperança é porque não existe aquilo. Se começamos a idealizar um mundo que não existe e em cima dessa “esperança” achar que devemos forjar termos que escondem nossa real condição, nos defrontamos com o temos de nos olhar e olhar o outro como ele é, porque se assim nós fizessemos, não restaria nada que nos trouxesse alegria, ela já estaria conosco. Enquanto houver esperança, sempre haverá o cinismo que ganhará em cima dessa “esperança”, como se ela fosse algo importante, como se nós sentimos dentro de nós “esperança” o mundo melhorará. Quando quisermos colocar “pessoas com deficiência” para esconder a condição de deficiente como se não fossemos deficientes, colocamos uma esperança que o poder gostou e até forjou um termo interessante que é o cume do cinismo governamental, o termo “pessoas com necessidades especiais” – que não entendo o porque dessas “necessidades especiais” – onde se ganhou um ar de importância e todos bateram palmas. Mas se analisarmos de perto nós pioramos o que já estava ruim, porque no dicionario está que deficiente é uma falta de locomoção, algo que não está satisfatório e deficiência, é uma carência daquilo que não temos. Temos uma baita carência de não se locomovermos para correr atrás de tudo que queremos…certo? Errado! Podemos correr atrás de tudo que queremos sendo deficiente, ou seja, mesmo com a falta de locomoção, a falta de audição, mesmo com a falta de visão – temos um baita advogado representante da causa com PC (paralisia cerebral) e sem a visão – mesmo a falta de percepção, nós podemos correr atrás do que queremos e não podemos nos deixar chamar de “pessoas com carência”. Não sei leitor por você, mas eu particularmente prefiro ser chamado de deficiente porque prefiro pensar que tenho sim uma falta de locomoção e é ridículo chamar isso de carência de locomoção, é o cumulo do cinismo do poder, é o discurso que resolvemos adotar graças ao poder. Então, sou deficiente porque estou no mundo com uma falta e não uma carência, eu não ando porque tenho uma carência e não me equilibro, eu tenho uma falta de força que faz eu não equilibrar. Sentiram a diferença? Nós sempre pensamos que os representantes olhassem as palavras no dicionário, mas estamos vendo que não.

Por que? Porque temos que nos apegar a “esperanças” e sempre quando temos ela junto sempre vem o temor, o temor que nunca vamos poder nos locomover, que nunca vamos melhorar. Mas sinto dizer que não vamos melhorar, não vamos ter uma condição só mudando o termo, não vamos ter mais falta de locomoção ou outras faltas, se nos chamarem de “malacabados”. O ser humano é o que ele é, o que sua vontade de agir faz dele superar o que lhe falta, o que atrás de um deficiente tem um deficiente que é um ser humano e gosta daquilo que todo ser humano gosta, tem tesão, tem fome e tem vontade até de ir ao banheiro. A motivação sempre é a alegria e a alegria não tem temor, não tem falta de nada e na verdade, não temos falta porque temos aparelhos hoje para ajudar o deficiente a se locomover. Talvez essa carência fosse a falta de meios para o deficiente se interagir junto ao corpo social, ai sim, temos uma carência de não poder participar do meio onde se vive. Então, quem tem deficiência (carência) é o governo que não tem informações ou vontade para realizar o que precisa e o termo certo deveria ser “governo com deficiência”. Mas sempre querem que pensamos que somos nós que temos uma deficiência, que nós temos que se adequar ao que eles chamam de normalidade, porque não temos uma falta e sim, uma carência. Carências se curam com “pirulitos” ou “balas”, falta tem que se gastarem muito, tem que ir atrás para adequar e suprir essa falta, ser carente é muito melhor do que ter uma falta. Por exemplo, o “Criança Esperança” é uma falta que a criança tem como sem dinheiro, sem escola, sem saneamento básico, sem o que a criança precisa. Se precisa ter essa esperança para o governo dar a solução, o discurso do poder vive graças ao discurso da carência de algo, a carência faz do discurso do poder é o cinismo deliberado e como Simone de Beauvoir dizia: “O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os oprimidos”.

Somos na verdade cúmplices e vitimas, porque ao mesmo tempo que sabemos que é um discurso dominante, somos vitimas da nossa própria submissão. Sartre disse isso – aliás ele era marido da Simone e os dois eram existencialistas – quando quis provar que o discurso nada mais é do que o que escolhemos acreditar, porque somos condenados até a liberdade que escolhemos ter. Ou existe uma liberdade única? A única liberdade que temos é saindo do discurso dominante, do discurso do senso comum, um discurso feito para o ser oprimido ser cúmplice sem perceber que são cúmplice e isso é o papel da religião. A religião endossa o discurso do poder criando moralidade e alimentando o medo, medo de ir em um lugar metafisico que haverá sofrimento eterno, um sofrimento de nunca ser feliz em um outro mundo e em um outro estado. Ainda inventam um ser iluminado que se rebela (mostrando que se você se rebelar será castigado no fogo eterno, lembrando de Prometeu que roubou o fogo da sabedoria dos deuses) que foi trancado no centro da Terra com seus cúmplices queimando em fogo, ferro e enxofre, e atazanando o ser humano em uma guerra de quem tem razão. E ainda, no discurso do perfeito, o discurso que só seremos felizes se andarmos, só seremos felizes se nos parecemos com outras pessoas. O discurso da igualdade é um discurso religioso, um discurso do poder, um discurso da “esperança”. Não existe o poder sem a “esperança”, não existe a religião dominante sem a “esperança”, ela é o desespero da beatitude, mas a beatitude é revelada com a condição em si mesmo. A beatitude do deficiente é assumir a falta que acomete, é em si mesma se superar em assumir sua falta, assumir sua condição e dai, superar o que se chama de condição.

O ser humano não entendeu que Jesus não era cristão, Buddha não era budista e Mohammad não era muçulmano, mas suas mensagens eram de amor, porque eles esperaram um pouco menos, lamentaram um pouco menos e amaram um pouco mais. Depois deles só foram discursos que o poder colocou para poder dominar, discurso esse que dá ao ser humano uma esperança e ser submisso sem saber que ele é submisso, ele ainda acredita que é liberto e bem sucedido, mas não passa de mais um do gado da sociedade. A AACD, as secretarias, as instituições de transporte, as instituições religiosas e as instituições partidárias estão pouco se importando com as pessoas deficientes, porque são apenas uma parcela populacional que está carente, está em submissão a esperança de um dia melhor, mas um dia melhor não depende de ninguém, depende de nós. Dai vale repeti a frase do palestrante e pregador, que gosto apesar de ser pregador muito mais do que mostrar superação, Nick Vojicic que diz: “A deficiência não está no exterior, está dentro de nós. Não deixe suas crenças limitantes te fizerem de limitado.” e isso nos faz verdadeiros. A deficiência não está num membro, está dentro de nós porque pusemos limitações dentro do discurso do poder, o poder fez nós nos vemos como carentes e não com uma falta. Nossa carencia foi condicionada, foi posta como se aquilo fosse nossa vida, nossa limitação diante do fato de sermos seres que temos sempre que provar algo, mas que não temos que provar nada para ninguém. Eu não quero fazer esporte, minha vontade não é fazer esporte como o discurso dominante espera, mas o outro quer e devo respeitar o outro que quer. Não somos iguais nem na limitação, cada um tem a sua.

Quando pararmos de “vitimizar” o ser humano, quando dermos muita importância a nossas limitações do que nossa capacidade de viver sem tutores ideológicos e sem mazelas de esperança, vamos perceber que não tem problema algum o termo que nos é chamado, mesmo que esse termo é ofensivo. Não importa se me chamarem de “burro”, de me chamarem de “gay”, se me chamarem de “aleijado”, se me chamarem de “corno” e outros termos que o ser humano sempre é chamado graças ao discurso dominante, porque sei que não sou nada disso, porque não estou ligando e nem acredito desse discurso, não me interessa esse discurso. Nós não precisaríamos de tutores para nos dizer o que fazer, se soubéssemos de verdade o que fazer, que para mim é uma escolha muito fácil, ainda somos vistos como vitimas, como heróis e como pessoas. Mas olhamos a beleza, temos tesão, soltamos flatulência no elevador, nós não somos nem heróis e nem santos, mas somos o que nossa natureza dá para ser, então nos alegramos com nossa limitações e largamos o pensamentos da grande maioria, porque a grande maioria não pensa em nós.

Amauri Nolasco Sanches Junior → publicitário, técnico de informática, filosofo, deficiente físico e coordenador da Irmandade das Pessoas Deficientes

 

e-mail: amauri.njunior@gmail.com

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