Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 31 de janeiro de 2014

Arcanos do preconceito

 

O LOUCO está ligado a REALIDADES NOVAS, a ÍMPETOS DE MUDANÇA.

O LOUCO está ligado a REALIDADES NOVAS, a ÍMPETOS DE MUDANÇA.

 

Arcano é algo misterioso que existe dentro de qualquer religião, seja ela cristã com seus conceitos, seja ela espiritualista. Mas há muitos arcanos que sabemos existir e outro que ainda, por motivos diversos, continuam misteriosos no afã das limitações de nossas consciências. Preconceito é um conceito pré determinado que se contamina com nossa própria crença – um dos piores preconceitos é justamente vem do senso comum com base nas religiões vigentes – que é o discurso moratório que todos tem que teve seu pior cume na Alemanha nazista. Mas, como vimos no dia a dia, a humanidade ainda acredita em “fantasmas” morais que poderão solucionar o mundo, sendo que quem soluciona o mundo são nossas próprias atitudes.

Vimos isso em varias ocasiões, seja numa agressão a um homossexual – que só está exercendo o direito de demonstrar sua escolha – seja em todas as pessoas que são diferentes e as pessoas com deficiência, não é muito diferente. Vimos isso no texto “O namorado da miss bumbum” do Jairo Marques que por ele não ter um discurso da maioria, um discurso “vitimista” que não condiz com o “respeito” que de repente devemos ter – como se as pessoas se tomam como nossos representantes – porque essa é a regra gramatical para cada membro da “minoria”, seja obedecido a risca. Como se um termo como “malacabado” chamar a cadeira de rodas de “cavalo” fosse algo muito ofensivo ao ponto de quererem a cabeça do jornalista, como se tivéssemos um termo certo para cada ocasião. Julgar sem saber é ponto de honra do senso comum que nem sabia que o próprio Jairo era cadeirante, era uma pessoa que viveu e vive o descaso de nosso país conosco. O que observo é que esse discurso para destruir não é o mesmo discurso para construir e para brigar para uma inclusão efetiva, é mais uma vez, uma defesa dos “coitados” do senso comum religioso. O que fazer numa situação dessas?

Ora, Michel Foucault dizia que atrás de um discurso julgador havia um discurso moralizante, um discurso que vem de uma tradição que não sabemos porque veio e para quê veio, mas está enraizado dentro da nossa cultura ainda. Quando você tem um discurso “olha, Deus está vendo!” coloca na ação de “deus” o que você não pode fazer, mas que quer vigança e assim contrariando todo discurso de Jesus de nos olhar primeiro para ai sim, olhar o seu semelhante, se você não tira a trava do seu próprio olho não pode tirar a trava do olho do outro, um cego não pode guiar outro cego. Esse momento nós vimos como é perigoso as crenças que não sabemos a sua teologia, as ideologias que nem sabemos para que servem e nem o porque de tanta baboseira do senso comum. Será que pensamos o que estamos dizendo? Será que estudamos as crenças que seguimos? Não, seguimos porque o amigo do fulano da vendinha disse que é bom, falamos porque a maioria fala, não deixamos nosso lado primata de imitação. De querer ser aceito pelo “bando” para termos comida, de ser aceito pelo bando por sermos como eles, mas hoje, não temos mais bandos, clãs que foram o começo da humanidade. Mas sustentamos o discurso do poder, o discurso que eu sigo o lider, que eu sigo uma palavra do xamã, um conceito que não sei da onde veio, mas que eu devo seguir porque se eu não seguir serei expulso do bando, serei morto pelo bando abandonado a sorte. Quer discurso mais primitivo de querer assustar o outro colocando “deus” como um castigador? Prefiro acreditar na “Força” que tudo deu forma, interage conosco e faz nossa vontade virar realidade do que um “deus” que se vinga daqueles que não concordam com que ele determina.

O ser humano é assim quando os meios sempre interagem com os fins que ele almeja – porque acredito que a maioria da humanidade constrói seu sistema cultural a partir de onde deva ter um fim ultimo, esse fim é sempre trazido para um interesse – mesmo disfarçado de atruismo, mas esse atruismo é sempre discutido nos conceitos e preconceitos do senso comum. O problema nem foi o “malacabado” jairiano que levou a revolta, foi a a sexualidade velada do machismo que não se conformou que um cadeirante levou a melhor em namorar a “miss bumbum” e não os “normais”. É certo que metade dos comentarios que estavam lá são de pessoas que não se conformaram ou enxergam o deficiente como um assexuado, um ser que não faz nada, apenas é uma “namoradinha” dele, deixa ela em paz. Voltamos mais uma vez em Foucault, quando ele diz que até a sexualidade é regida pela normalidade do discurso, do que é normal e faz parte de uma realidade aparente, uma realidade que muitas vezes, é forjada dentro do poder, dentro do que o poder determina quem é normal e quem não é normal.

Será que somos tão assexuados ao ponto de não enxergarmos que procuramos nossa companheira ou companheiro, para dividir o amor e descobrir como podemos ser capazes de despertar o desejo sexual do outro? Será que ainda não percebemos que dentro de nós ainda está o inconformismo de sermos miseros deficientes e almejamos ainda ficarmos “bom” para todos nos aceitarem? Não perceberam que já somos na maneira nossa, viver e sermos seres humanos com nossas limitações? E daí que o cadeirante namora a “miss bumbum”? E daí que somos chamados de “malacabado”? A seculos a sociedade nos chamam de forma velada e nos trancam em instituições, a séculos as famílias nos tratam como desamparados, a séculos somos tratados como incapazes e nos matavam aos poucos em hospitais. Os nazistas não eram únicos em nos matar, os sovieticos faziam o mesmo nos trancando em instituições, os norte-americanos nos escondiam em forma de leis para proteger as famílias que não queriam ver as “aberrações”. Então por que sermos hipócritas em velar algo tão explicito?

Vivemos numa ERA do espetáculo estremo, onde tudo se exagera para o espetáculo que se quer chamar a atenção, mas nada vai substituir o que enxergamos de verdade. Quando falo que dentro do preconceito há um arcano, um mistério que ronda dentro da construção conceitual, o medo daquilo que não controlamos, a incerteza daquilo que acreditamos, e o pior de tudo, que não é a perfeição que rege a beleza de um relacionamento, mas o que a pessoa pode oferecer como único em toda a humanidade. Como disse no artigo “Estética é para poucos”, a beleza está nos olhos de quem enxerga, como Lehol, o namorado da Miss não está preocupado com que nós pensamos, mas enxerga através dela a felicidade e talvez, dentro dele, tudo está no lugar. Ela senta no colo dele, então, não interessa muito o que os outros acham e enquanto isso, nós reles mortais, não temos nem direito de ser transportados, de sermos atendidos, de sermos seres humanos. Humanos demasiados humanos, apenas.

 

 

 

Amauri Nolasco Sanches Junior → publicitário, técnico de informatica e coordenador do movimento Irmandade da Pessoa com Deficiencia e escritor do livro Liberdade e Deficiência

 

 

Para quem quiser ler sobre esse arcano do louco (aqui)

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