Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 23 de outubro de 2013

Teleton – fenômeno de massa

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Inclusão, viva essa ideia!

Por Amauri Nolasco Sanches Junior

 

Lendo o livro do filosofo Peter Sloterdijk, O Desprezo das Massas, me fez pensar sobre porque tem muito a ver. No primeiro capitulo do livro, Sloterdijk fala do fenômeno medializado que estamos vivendo e começou com Hitler quando esse, usou a maquina da mídia para criar um mito diante dos alemães.  Eu até dei risada porque no livro, o filosofo diz que Hitler não tinha talento nenhum, nem bonito ele era e no entanto, se criou diante dele um herói, um Prometeu sem correntes. Só que essa corporação da massa, por uma suposta solução, levou  a morte de milhares de pessoas em uma guerra insana e não menos, as pessoas com deficiência. A eutanásia foi inventada para esse fim e assim, levando milhares de pessoas com deficiência ao extermínio com o cunho de “sofredores eterno”. Claro que hoje temos leis e direitos que garantam nossa integridade – não psicológica – da vida e do direito a temos tudo que outras pessoas querem e tem, mas nossa cultura arcaica que ainda acredita que temos que ter tutela e não responsabilidades, criou um mito do coitadismo na cultura tupiniquim. Mas não escapamos das “magicas” soluções que a mídia constrói dentro da temática da inclusão e esse fenômeno que é uma inclusão de “plástico” que podemos chamar, inclusão ilusória.

Um amigo muito querido disse que tinha orgulho de pertencer ao escopo de pacientes da AACD (Associação a Assistência a Criança Deficiente, antigamente era Defeituosa), mas hoje não mais e a mãe dele disse que estão doando para uma entidade e não para a entidade que ele fez parte. Assim como ele e eu, muitos sentem o desvio do proposito da entidade, há uma grande diferença entre a AACD do Dr Renato Bonfin e o fenômeno Teleton. O Teleton, criado pelo ator e comediante Jerry Lewis por causa do seu filho que tem paralisia cerebral, é um fenômeno de massa que foge do proposito da AACD, na verdade, a AACD é o Dr Bonfin e o Teleton é o empresariado que só pensa em números. O fenômeno da mídia em criar um “herói” não é novo e não vai acabar por causa de meia dúzias de palavras, mas quando a massa deixar de ter o pensamento que precisam ser tutelados. Criaram um mito da inclusão, esse mito engole tudo que vê e enxerga dentro do corpo social, iludindo e alastrando em nossos pensamentos. A AACD tinha alma, a alma da AACD era o Dr Bonfin, era tratar as pessoas com deficiência com dignidade. O Teleton só é mais um empreendimento, uma voz ressonante que se faz diante de uma maquina, não tem alma, não tem vida, tudo não passa de um show nessa sociedade do espetáculo. Essa sociedade do espetáculo fez de assassinos em heróis, de ditadores em governantes do povo, fez da democracia sinônimo de liberdade e justiça, mas não passa de um mito e fez o Teleton em sinônimo de inclusão. Mas será que é verdade,  isso é inclusão? Com o Teleton ainda se criam heróis como a Hebe Camargo, que não vai demorar para ter um busto no hall da entidade, e o próprio fundador o Dr Renato Bonfin, que muitos afirmam que ele negaria o premio. Nisso a mídia – como forma de propagar (propaganda) – mostra uma verdade mascarada para mostrar um intuito que não será aquele intuito, e sim, o intuito de arrecadar muito mais dinheiro e não levar a pessoa com deficiência a inclusão.

Na verdade, o Teleton engole a alma da AACD como um verme que se alimenta do seu hospedeiro, um verme que veio com a gana de ganhar dinheiro. O diretor administrativo sempre afirmou que algumas unidades da entidade davam prejuízo, mas como uma entidade filantrópica pode acarretar prejuízo? Esse tipo de voluntario empresarial – além de não entender de nenhuma deficiência ainda não entende de administração de uma entidade – coloca no conceito que ele entende e faz o seu mundo aquilo que acredita. Ele acredita que todos os males são resolvidos com lucros, mas lucros só vem com bom investimentos e eles são empresários e deveriam saber disso. A filosofia verdadeira da essência da AACD se perdeu na lama do Teleton, se perdeu a filosofia roceira, pacata, para ser uma filosofia que tem o único objetivo trazer recursos e esses recursos são inúteis sem uma boa administração. Mas o estrago foi feito em dar a administração a pessoas que não entendem de deficiência, não entendem de entidades, não entendem de filantropia. Dai as filas enormes na espera de consultas, aparelhos doados pelo SUS de má qualidade, dezenas de pessoas esperando o horário das consultas porque o medico tem sua hora de cafezinho. Esse pessoal sabe – porque são empresários – que quem não tem competência não pode obter êxito, não pode ter êxito algo que não tem planejamento e nem estudo sobre. Não estamos falando em um jantar beneficentes para os micos-leões-dourados, não que não sejam também importantes, mas estamos falando de pessoas que são acometidos de deficiência, pessoas que sentem e tem o direito de ter uma vida como outras pessoas. A filosofia arcaica brasileira sobre nós, pessoas com deficiência, levou o fenômeno Teleton ao cume da idiotia que se acredita fielmente que esse fenômeno realmente trará benefícios à inclusão. Como uma entidade particular pode realmente, incluir a pessoa com deficiência? Como posso acreditar que pessoas que não tem pessoas com deficiência próximas podem administrar uma entidade dessas?

Diferenças sutis que tem a ver com a força semântica onde estamos inseridos. Quando falamos deficiente estamos limitando uma pessoa e particularizando uma característica, já quando dizemos pessoa com deficiência colocamos a pessoa em destaque e antes da deficiência. Mas conceitos não valem de nada quando não vem junto com uma cultura enraizada dentro dessa imagem semântica, nada adianta chamar quem tem deficiência de pessoa, se na essência, ainda somos tradados muito mais como deficientes. A entidade ainda era da era do “defeituoso” – conceito esse moldado na Idade Media, centrado na filosofia aristotélica, que faria um padrão sócio biológico para decidir quem era perfeito (não havia defeito) e o imperfeito (o que era defeituoso) e então, se fizera m casas de caridade para colocar essas pessoas e deixarem na sociedade, os “perfeitos” que continham alma, já que os imperfeitos não tinham alma e não poderia pertencer a Deus – uma Era onde éramos trancados nessas instituições porque tínhamos que ser tutelados, éramos seres quase dos mesmos moldes de animais. A AACD herda isso, herda o conceito de tutelação das pessoas com deficiência, coloca a nós em um conceito do século dezenove. Mas como um vírus o Teleton transforma isso da entidade em imagem, como se dissessem “essa criança depende do dinheiro de vocês!” como uma agressão a criança, aproveitando a sua ingenuidade, “estuprando” o conceito humano da deficiência para ter seu objetivo. Uma violência quase que silenciosa, como se fosse um palhaço que com um doce, compra ingenuamente a vitima.

Alguns que ficaram com deficiência endeusaram o “monstro” como se ele tivesse feito, como se ele tivesse dado a vida novamente a ele. Como a síndrome de Estocolmo – essa síndrome acontece quando a vitima de sequestro defende o sequestrador – onde se sabe as filas enormes, se sabe que funcionários não querem almoçar com pacientes, se sabe que quem vem de carro é uma entrada e quem vem de van é outra, mas ainda sim, defende a entidade. Como se fizessem caridade, mas alguém paga por isso, o SUS paga por isso, doações imensas pagam por isso, todos de alguma maneira, paga por isso.  As doações é um meio de mostrar que a pessoa com deficiência – como acontecia em Eras antigas e medievais – “mendigam” esmolas para seu sustento, instituições recebiam grande soma de ouro para “tirar” aquelas “aberrações” nas ruas, e quem não sabe, até os anos 80 do século XX, os Estados Unidos da América tinham leis que as pessoas com deficiência não podiam sair e nem comer em lugares públicos. A ideia que somos quase animais está nas entranhas sociais ainda, como forma mais ou menos, silenciosa por conta do “politicamente correto”. Quem não faz iguais os índios enterrando seus parentes com deficiência mental e física? Só que nossa sociedade cristã tem que ser caridosa e lutar pela vida, mas que fazem isso psicologicamente enterram as pessoas com deficiência psicologicamente para ficarem submissos. Quem não sabe, que pagam internet, viagens, tudo, para seus filhos com deficiência ficarem embaixo de suas “asas”? Demagogia tem em todos os setores, o que ocorre é que a “indústria do espetáculo” usa isso para ganhar, seja em dinheiro, ou prestigio.

Usam até mesmo a maquina governamental como alavanque para seus propósitos sendo, os maiores prejudicados os movimentos. Por que a empresa de transporte Sptrans-ATENDE todo ano disponibiliza vans somente para esse evento? Porque é tomada como prioridade algo grandioso que vai, obviamente, trazer um retorno rápido eleitoralmente e dentro da grande mídia. O poder governamental é alcançado dentro do sistema democrático, mas ainda se empenha a atingir interesses como se esses interesses trouxessem algo magnânimo e único. O poder politico dentro de nossa sociedade, se torna algo muito mais importante do que o bem-estar do cidadão e isso vem de muitos séculos. Infelizmente, isso é uma coisa enraizada dentro de nossa cultura e essa cultura não vai mudar. Mas por outro lado, somos meio vitimas e meio cumprisse parafraseando Sartre, porque mesmo vendo que está errado, concorda e se concorda, é cumprisse.

Outra frase de Sartre é “Detesto as vitimas que respeitam seus carrascos…”, as pessoas com deficiência respeitam seus carrascos porque não gostamos de nós mesmos.

Comentem!

Grupo Liberdade e Deficiência 

Pirate Def 

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Responses

  1. Por mais dura que seja a crítica é mesmo uma análise consciente e muito bem fundamentada. Ainda existe a visão da caridade e da doação vinculada à pessoa com deficiência.


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