Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 13 de outubro de 2013

União do (de) eficientes

Dois meninos tirando as moletas de um terceiro menino com deficiência

Por Amauri Nolasco Sanches Junior

 

Essas são as palavras do escritor Elias Canetti em seu livro Massa e Poder:

“Na malta que, de tempos em tempos, se forma a partir do grupo e exprime com o máximo de vigor seu sentimento de unidade não é possível ao indivíduo perder-se tão completamente quanto, nos dias de hoje, o homem moderno se perde numa massa qualquer. Ele estará continuamente à margem das cambiantes constelações da malta, de suas danças e suas expedições. Estará em seu interior e, em seguida, à sua margem; à margem e, logo depois, novamente em seu interior. Quando a malta forma um anel em torno do fogo, cada um de seus membros pode ter vizinhos à direita e à esquerda, mas não terá ninguém às suas costas; as costas apresentam-se expostas à vastidão. A densidade no interior da malta tem sempre algo de simulado: as pessoas comprimem-se, talvez, umas às outras e representam a multidão com movimentos rítmicos tradicionais. Contudo, elas não são muitas, mas poucas; compensam com a intensidade o que lhes falta em densidade real.” (CANNETTI, 1995, p.93 e 94).

Canetti diz sobre a malta – união de pessoas consideradas em condições inferiores, o mesmo que plebe – que as vezes o homem se perde nessas massas e perde sua individualidade. O que é a individualidade? Nossa essência de ser o que somos é nossa individualidade e não ser do “contra” – não confundamos Ser Diferente com ser chato – só por ser, tem que analisar e entender aquilo que você não concorda. Estranho demais algumas falas dentro do segmento das pessoas deficientes que me fazem refletir muito sobre a questão tanto da violência, quanto na questão das pessoas com deficiência serem seres humanos. Nós só queremos o direito de ir e vir, o direito de temos tratamento de saúde descente (não entidades mentirosas que nada fazem para dinamizar as consultas) e acima de tudo, um pouco mais de respeito.

Respeito que eu digo, não é só as inúmeras maneiras de adaptação e acessibilidade que se deve ter para nós temos uma vida mais ou menos normal, mas não ler tantas baboseiras ditas sobre nós que não acredito que são ditas e feitas. Como as terminologias que são ditas, as resoluções a serem tomadas por comissões e conselhos, que nada representa o nosso segmento. Como podemos ter representatividade por conselhos e secretarias que não participamos de suas escolhas? Isso para mim é uma democracia de mentira, porque quando uma escolha não é consenso com uma grande parcela de um grupo, se torna uma ditadura e tem mais, um voto só deveria ser valido para quem entende do assunto ou entendeu a proposta. Uma democracia que alimenta a ignorância e distorce o intuito de se escolher qualquer liderança, então, essa democracia se torna ditadura camuflada – para mim, a democracia brasileira não passa de coronelismo, não coronel de quartel, mas coronel dono de grande fazendas de engenhos que a uns 500 anos mandam no Brasil – e nada mais é do que uma tirania dos coronéis que ainda mandam e escolhem quem fica ou não no governo, o resto é conversa fiada. Mas, não somos isentos de sermos manipulados por essas famílias e esses partidos – por eu ser apartidário, tanto faz qual partido manda nisso aqui – que usam nossas deficiências para ganharem voto, usam nossas deficiências para ditarem regras descabidas em órgãos feitos para nos atender, votados por conselhos que não fomos nós que escolhemos – mesmo se tivermos nas assembleias, todos nós sabemos que não somos nós que escolhemos os conselheiros e os nossos representantes – como no caso do serviços como o da SPTrans ATENDE. Qual o motivo administrativo e organizacional, para mandar uma ficha de inscrição no dia 10 no mês anterior para sermos atendidos? Por outro lado, se a pessoa efetuar a matricula após isso, por que não se pode mandar a ficha após esse período?

Não sei se estou errado, mas não gosto das pessoas que defendem ideais diversos, a diversidade de ideais me cheira em não saber o que se espera da inclusão, da acessibilidade dentro de um mundo que ainda vive um padrão. Um padrão que não compota todas as pessoas, não pode ser um padrão para todos os cidadãos e nem pode se chamar de sistemas democráticos. Somente aqueles que andam podem ir onde quiserem? Somente quem anda pode trabalhar, namorar, estudar e etc? Tem-se a ideia que nós, pessoas com deficiência, somos pessoas diferentes das outras, que somos diferentes de todos que não nos aceita, mas somos iguais a todos que andam, falam, respiram e por ai. Nessa semana, li no Facebook que o deputado Romário disse que nas escolas especiais e no núcleo familiar não existe violência – todos nós sabemos que isso é uma artimanha para justificar a defesa de uma politica segregaria que quer trancar as pessoas com deficiência em instituições – como se não o deputado, não abrir-se uma pagina de jornal.  Defender algo é ser honesto consigo mesmo e ser honesto até com seus pré-conceitos e pós-conceitos. Isso que ele disse sobre as escolas especiais é um reflexo do preconceito e um reflexo que nessas instituições não há abuso, não há a violência psicológica que é muito pior que a física e é muito pior que isso, o povo acredita e aplaude. Querem prender seus filhos e ainda sim, apoiam esse tipo de politica. Quantas vezes, nessas instituições, não podemos fazer o que toda criança e todo jovem tem vontade de fazer? Será que alguém perguntou ou tentou perguntar, o que temos vontade?

Alester Crowley dizia uma frase assim: “Amor é a lei, amor sob vontade”, ou seja, só podemos amar sob nossa própria vontade e essa vontade que nos move rumo a vida. Só podemos viver se fizemos o que desejamos fazer, só abrirmos as portas das oportunidades quando quisermos abrir essas portas. Como Clowley mesmo dizia em outra frase: “os escravos servirão.”. Daí voltamos a frase acima de Canetti, o ser humano se perde no meio da multidão e esquece da sua própria natureza, os escravos vão sempre querer seguir alguém, vestir como alguém, ter a necessidade de um “herói” porque não fazemos o que temos vontade. As pessoas com deficiência não são diferentes, elas ficam muito atreladas a opiniões e a partidos que nada fazem para ajudar a inclusão e nada fazem para promover a inclusão, não temos transportes, saúde, saneamento básico e nem o direito de temos uma sexualidade-afetiva por causa dessas politicas erradas e dessa podridão que é esses partidos. Senhor deputado deveria olhar as escolas de São Paulo que tiram as notas azuis de crianças com deficiência mental, Estaduais, para dar notas vermelhas porque não querem admitir que crianças deficientes estudem em escolas regulares, obrigam as professoras a fazerem isso. Então, ao invés de acreditar em dados forjados por políticos comprometidos com essas instituições, deveria perguntar a nós o que queremos e o que precisamos, porque nenhum conselho ou instituição saberá. Deveria ver a violência gratuita de instituições que deveriam nos servir como no caso da SPTrans-ATENDE que as vans são pagas com nossos impostos, com o IPTU que o senhor prefeito do partido que se diz do trabalhador, quer aumentar. Isso não é uma violência? Quantas mulheres com deficiência não foram abusadas por pessoas do mesmo núcleo de convivência? Ele deve pensar igual a ministra da (in) cultura que está na França, só falta fazer da torre antiga da Globo aqui em São Paulo, uma Torre Eiffel.

Não há uma separação entre razão e pratica, existe um dialogo entre nós e o outro e nesse dialogo expressamos o que temos vontade, a vontade nos move, como disse, a uma direção. No zen budista, o crescimento intimo (espiritual) vem sempre com a pratica, vem sempre com os afazeres do cotidiano e não ficar horas a fio meditando. Então, vamos defender o que queremos, senão essa pratica nunca chegara em vias de fato.

MATÉRIA DO JORNAL FATO PAULISTA 26-Set-2013

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