Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 9 de setembro de 2013

Sexo e afetividade, inclusão já!

afetividade

Por Amauri Nolasco Sanches Junior

Em plena era da informação – segundo milhares de especialistas, muito mais do que se pensava – o tema sexo e afetividade no nosso meio é um terrível tabu. Por quê? Porque há muita desinformação dentro do núcleo familiar sobre nossas deficiências e isso é terrivelmente visível, tanto é, que ainda se acredita que pessoas com paralisia cerebral não podem se casar. Isso é muito sério! O terrível e assustador é que muitas pessoas jovens pensam assim e concluo que, ou é “sem-vergonhice” porque conhecem pessoas com paralisia cerebral casados, ou ainda temos um pensamento machista e bastante leviano para “achar” isso. Como existem pessoas “safadas” até no nosso meio, acredito que seja “sem-vergonhice” por parte da nossa cultura, mas analisamos mais minuciosamente o caso.

A paralisia cerebral se consolida graças a uma falta de oxigenação cerebral durante o parto ou de uma patologia que leve essa deficiência, as células cerebrais morrem e essa morte causa as dificuldades motoras. Há um estudo muito serio de Freud sobre a paralisia cerebral quando ele era medico que dizia que talvez a paralisia cerebral seria por uma má formação cerebral, pois muitas crianças que nasceram demoradamente, não apareceram seqüelas. Mas os estudos de Freud não foram levados a serio e ele não conseguiu provar e então, ficaram os estudos que diziam que eram seqüelas de um parto demorado. Besteira? Talvez por arrogância clinica, nunca se deram credito nesse ponto, mesmo algumas famílias terem dois membros com essa deficiência. A parte motora pode estar comprometida, mas as outras partes não, a paralisia cerebral é um termo errado e arcaico que deveria e deve ser mudado por estudos muito avançados sobre, a parte da afetividade e sexualidade somos iguais como qualquer pessoa. Até entendo que muitos pais tenham preocupações sobre condutas violentas, já que a violência assola todo o país, mas preconceitos e discriminações vivemos em todos os lugares.

Mas vejo que há uma coisa muito seria na questão sexual e afetiva nas pessoas que tem paralisia cerebral, não há muitos estudos sobre o tema, que tem levado os muitos pais e familiares, a dizer disparates. Apesar do nome da nossa deficiência conter “paralisia cerebral”, nosso cérebro não é paralisado e podemos pensar e entender o mundo como outras pessoas qualquer. Nosso QI – mesmo que existirem pessoas que exigem maiores cuidados e que em alguns casos o QI é afetado, muitas pessoas com paralisia cerebral, podem fazer muitas coisas – não é afetado, podemos entender o mundo lá fora e podemos ter sentimentos e desejos como todas as pessoas. Acontece que muitas pessoas pensam que pelos nossos movimentos serem tão limitados e muitas vezes, atrapalhados, nós não podemos ter nossa vida e não podemos desejar. O desejo é inerente ao ser humano, por razoes de sua sociabilidade e que somos animais que entendemos nosso ambiente, nossas deficiências, não nos tira esse tipo de desejo e nem nossa afetividade.

Afetividade vem do latim afectum que significa “produzir expressão”. É composto pela partícula ad = em, para; e facere = fazer, operar, agir, produzir e vem de afeto que no latim é affectus , particípio do passado do verbo afficere; tocar, comover o espírito e, por extensão, unir, fixar (it. Attaccare), também no sentido de “adoecer”. Afetividade, afecção, do latim afficere ad actio, onde o sujeito se fixa, onde o sujeito se liga. Afetividade nada mais é do que uma ligação no afetivo (ligação sentimental) com outra pessoa que lhe evolva, seja num carinho, seja num ato de ligação dessa pessoa. Nós seres humanos temos esse e diferencial onde se apegamos ao outro porque podemos sentir algo pelo outro, algo que nos prenda a essa pessoa e no ato sexual, isso é importante. Sexualidade contem aspectos muito mais do que o sexo, ele está relacionado à vida, sensações, sentimentos e emoções que vai ao encontro ao prazer, isso envolve muito mais do o ato em si e refaz o momento que dois seres humanos trocam carinho. A afetividade – embora muitos irão dizer que o amor é uma prisão, mas no ato de carinho que faz de nós seres sentimentais de apego – é muito mais que carinho e afeição por outra pessoa, é uma questão de sentir a outra pessoa em você. Daí existe varias lendas que vieram ao longo da idade media que nos cai muito na questão afetiva e essas lendas, que algumas sobrevive até hoje, porque o cristianismo seja católico, ou protestante, não isentou essas lendas e preconceitos. Há um grande “muro” entre afetividade e a sexualidade por essa moral que contaminou toda a humanidade.

Quando falamos de afetividade (sentimento que fixa você com alguém), normalmente falamos em sexualidade (a libido que nos dá razão a vida, a força encontrada no prazer) e no nosso caso, não poderia de maneira alguma, ser diferente. Sendo um tabu imenso com pessoas que não tem uma deficiência como temos – cada pessoa tem a sua limitação ou a sua anomalia – imagina quando isso acontece com pessoas como nós, que a limitação é muito maior? Nossa limitação nos faz verificar que a sociedade nos enxerga como seres “infantis” – não que eles estejam errados em alguns casos por falta de informação e isolamento das pessoas com deficiência, faz com que alguns tenham comportamentos infantis. Mas a generalização faz com que todos os deficientes “paguem” o preço pela idiotização de algumas famílias – e essas visões nos colocam em situações em que a imagem é associada com a realidade. Quem tem paralisia cerebral tem os movimentos menos com noção de espaçamento – por isso não temos equilíbrio – pela falta de coordenação motora, que em certas horas, podem contrair os músculos e dando os famosos espasmos. Mas nosso sentimento, maneiras de percepção e como sentir nosso meio ambiente, não há uma mudança significativa e anormal. Nossa parte afetiva (como meio de amar e sentir carinho por outro ser humano) não se altera e assim, o amor ou paixão, se nasce naturalmente e isso se pode ser reconhecido quando se tem casais com nossa deficiência. Por que a crença que não podemos ter um amor e não se casarmos?

Nossa sociedade é feita de conceitos e pontos morais – as leis que regem a constituição de cada país é construída de acordo com esses pontos morais – onde se é construídos por séculos como qualquer antropólogo serio pode confirmar. Nosso ponto moral – lembrando que moral vem do latim mores que pode ser traduzido por “costumes”, moral são regras de convívio social – foi construído ao longo de 2 mil a 3 mil anos entre os costumes greco-romanos e o advento do cristianismo na Idade Média e também de “quebra”, alguns elementos judaicos (na essência poderíamos dizer que o cristianismo puro é uma extensão da cultura judaica onde Jesus não revogou a lei, mas a confirmou). Nas culturas antigas, todas as culturas acreditavam que a deficiência física eram maldições e coisa de demônios – muito mais a cultura judaica que no novo testamento, pediam a Jesus não a cura, mas a expulsão de demônios – e que não poderiam ser utilizados, mas também dependia qual e o grau da deficiência em si. Por quê? Qualquer antropólogo (aquele que estuda as culturas e suas origens) serio, pode dizer que a cultura grega (berço ocidental) foi marcado por invasão ariana (povos que viviam na região hoje situada na Polônia, país Tcheco, Hungria e Sul da Alemanha) onde se herdaram costumes (mores) dessas nações. Eles não costumavam trazer crianças “defeituosas” e nem deixá-las vivas porque eram povos guerreiros e invadiam muitas nações – os espartanos herdaram esse ritual e esse sentimento de serem uma nação guerreira – essas invasões eram feitas em grandes batalhas e essas batalhas sucediam as invasões e a submissão do povo inimigo, com suas famílias, tinham que ser rápidos. Esparta herda uma cultura que a perfeição corporal era acompanhada com a perfeição moral e mental – muitas nações orientais como a Índia, ainda hoje elimina as pessoas defeituosas como se fossem maldições, além de nações pobres do terceiro mundo e nações indígenas que não podem ser repreendidas – que ainda hoje, alguns conceitos disso ficaram e nós pagamos por essa cultura.

A eliminação foi abolida na idade média quando o cristianismo se sucedeu – embora não se aboliu o pensamento popular e muitas pessoas com deficiência foram queimadas vivas e milhões eram abandonadas e adotadas por pessoas que usavam elas como pedintes – mas (sempre tem um “mas”), por outro lado se começa a se trancar quem era considerado “anormal” e se criou a errada expressão de quem era SÃO (como modo de perfeição) quem não era SÃO (como modo de imperfeição) que se montou numa mentalidade que quem era imperfeito (defeituoso?), não raciocinava e nem era considerados seres humanos. Daí que hoje, em pleno século vinte e um, não temos estudos adequados e nem se pensa ter e no Brasil, a sexualidade é tratada como um tema pouco resolvido e um tabu, porque há uma confusão tremenda, porque se colocou num modo de discussão sobre sexo. Sexualidade não encara só a questão sobre sexo em si (como de uma forma pura e simplesmente), a sexualidade vai abordar a vontade de viver e de se sentir um individuo e fazer dessa percepção, algo para se sentir ser humano. Afetividade nos prende como algo além, um carinho, um desejo, o sentimento do amor; a sexualidade vai mexer com a vontade de viver, a libido de se desejar o ser que te prende. Nada mais é do que a lenda de Eros (amor) e Psique (alma), pois Eros na Grécia antiga, era o amor sexual, o amor que se prendia com aquele que se sentia afeto e esse afeto vinha da alma (Psique), então, os dois se unem em um só quando um respeita o limite e a diferença do outro. O outro, nesse caso, é importante como membro de um TODO e esse TODO não caracteriza em nenhuma característica corporal.

Há também que considerar que existe uma diferença entre amor e paixão. O amor segundo a Wikipédia diz assim: <<<O conceito mais popular de amor envolve, de modo geral, a formação de um vínculo emocional com alguém, ou com algum objeto que seja capaz de receber este comportamento amoroso e enviar os estímulos sensoriais e psicológicos necessários para a sua manutenção e motivação. É tido por muitos como a maior de todas as conquistas do ser.>>>, ou seja, é um apego emocional pela outra pessoa que sente um estimulo com a outra pessoa. Quando amamos nos sentimos atraídos pelo amor dessa pessoa como se ela poderia ser nós mesmos e ao mesmo tempo, não nos sentimos no direito de prender ou sentir nenhuma raiva eterna por essa pessoa. Paixão tem a mesma origem de paciente – acontece que paixão vem do termo latim passio que quer dizer “sofrimento, ato de suportar” que vem de pati que é “sofrer, agüentar”. Esse termo ainda vem do termo grego pathe que quer dizer “sentir” que originalmente, não fazia distinção de sentir coisas boas ou coisas ruins, daí as origens são de iguais porque paciente vem de pati, já foi dito que quer dizer “agüentar, sofrer” e o pathe que é “sentir, sentimento” e vem a terminologia como uma doença que deve ser tratada e aliás, doença vem do latim dolentia que quer dizer “dor” – porque enquanto o amor nos remete ao apego emocional, a paixão é a doentia obsessão por um lado que não temos, é um sofrimento de não ter o ser amado e não ser amado por ele. Então não podemos ser e estar apaixonados amando, porque são coisas completamente, distintas.

Resolvida essas questões, vamos analisar que nós sentimos como qualquer ser humano, porque não diferenciamos de ninguém por causa de nossa deficiência. Nós com paralisia cerebral, não somos diferentes e sentimos atração com o ser amado e temos “vontades” como outras pessoas (excitação sexual é uma delas), então, eu não precisaria escrever um texto dizendo que somos seres humanos e podemos sentir o que todos sentem.

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leiam ainda o texto

Sexualidade das pessoas deficientes 1 – Geral

 

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