Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 26 de julho de 2013

Estética no Amor

Eros e Psique num abraço eterno

Por Amauri Nolasco Sanches Junior

 

 

“A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro. O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e de ferir-se, o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes da emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto da sua fria e desolada torre.”- Vinicius de Moraes

Nada melhor começar um texto sobre o amor “Eros & psique” do que esse texto falando da solidão do poeta Vinicius de Moraes (1913-1980). Qual pior mal daquele que não sabe amar e se fecha dentro de si com tanta amargura? Até pouco tempo o amor exigia certa perfeição e sabemos que até o século dezenove, os casamentos eram arranjados e muitas vezes de hierarquias para fazer associações. Não pensam que a classe pobre não tinha também seus arranjes, mas na verdade, ninguém casava com quem queria. Na verdade, muitas pessoas não queriam apenas um companheiro para dividir a casa e a companhia, mas alguém que se tenha filhos e limpa-se sua casa, porque ainda o amor era um “luxo”. No meio disso tudo teria nas camadas mais pobres, e porque não, nas mais ricas, muita traição e muitos filhos bastardos por essa visão hipócrita que o medico e inventor da psicanálise Sigmund Freud (1856-1939), denuncia até como casos de abusos nessas famílias.

Nesse cenário machista onde as pessoas procuravam provedores do lar e pessoas para cuidar da casa – na sua maioria, as mulheres trabalhavam e deixavam as filhas com essa tarefa e o homem deveria ser capaz de trabalhar num bom emprego e ter uma aparecia forte e não mostrar fraqueza. Senão o pai da noiva não deixaria a filha realizar o casamento – então as pessoas com alguma deficiência (que eram descritos como defeituosos), não teriam condição de sustentar e nem de cuidar de uma casa. Porque o amor entre duas pessoas era raro e não muito, só para pessoas fugidas e dispostas a ceder a um “amor e uma cabana”, porque, era na verdade um investimento dos seus próprios pais. As pessoas com deficiência eram “fardos” por toda a vida e em partes essa visão não mudou.

Vamos fazer uma analise profunda do amor tanto no sexo (EROS), quanto ao amor afetivo (PSIQUE), por causa da lenda grega que fala do deus Eros e a princesa Psique. Um complementa o outro com união e uma afinidade muito significativa, porque o deus Eros é o Cúpido que traz o amor em suas flechas alem de ser filho de Afrodite e o deus da guerra Ares (por isso o arco e flecha), era belo como a mãe e guerreiro como o pai. Psique era a princesa que sua mãe dizia ser mais bela do que a deusa, irada com essas declarações, ela manda Eros matar Psique e assim, ter seu pódio de mais bela, não roubado. Mas Eros se apaixona por Psique que usa uma mascara onde sua beleza era escondida e toda noite eles têm um encontro, mas um dia, Psique tira a mascara e revelando Eros que vai embora e Psique fica louca a procura de Eros. Eros em grego é traduzido como AMOR e Psique, se traduz como alma, com esse conto, a alma e o amor se une e o amor não quer que a alma se una por causa da sua beleza (idealização), mas por seu real desejo de estar junto, quando a idealização acontece, já não é mais o amor e ele vai embora.

Para o grego daquela época o EROS era um amor físico, um desejo pelo outro em forma de sexo, era o sensualismo em forma de gozo – dai a forma do deus forte e belo que joga as flechas (falo?), para as pessoas se apaixonarem. Além de ser filho da deusa do amor e beleza (atração pelo corpo) e o deus da guerra sangrenta e visceral (a libido que leva o desejo a violência) – e a Psique, era o amor entre almas e era uma união muito mais profunda – tanto que Psique era uma princesa humana e mortal, onde a mãe uma rainha (guardiã de um reino, o poder), desafia uma deusa que diz que sua filha Psique (alma) é mais bela do que Afrodite (atração e desejo) e ela manda matar a princesa mandando Eros (sexo). O sexo, mesmo alguns batendo o pé que não, mata a alma se não houver sentimento, esse sentimento faz com que os dois se unam, mas quando há má-fé (mentira), a mascara cai e o desejo vai embora junto com o amor e os dois ficam separados. Os dois se harmonizam quando o caos do desejo acaba, junto com o desejo aparece o afeto e com esses dois, a união se realiza.

Hoje temos outra visão do amor e sexo que tinha nossos avós, mas não tão isentos desse tipo de preconceito que era deliberado dentro das culturas arcaicas. Talvez isso tenha mudado nas sociedades romanas – que eram adeptas ao moralismo patrício (uma espécie de classe media) onde se fazia toda a sociedade, e no alto escalão, havia bacanais isentos de moral. Tanto que a traição nos tempos do império era coisa intolerada e mal vista dentro da sociedade, pelo menos, a classe mais baixa e eram casamentos mais sólidos (não que não existisse traição, mas assim como hoje, eram mascaradas demagogamente, pelos políticos e imperadores da época). Na realidade a cultura tanto grega, quanto romana, tinha o amor “psique” como um amor homossexual em que o amor espiritual era a união não se importando com o sexo da pessoa que fosse. Isso teve certo rompimento com a igreja medieval – mesmo nós sabemos, que algumas praticas homoafetivas eram praticadas dentro da igreja com o coroinhas e os estudantes seminaristas após a determinações que os padres não poderiam mais casar – onde não mais tolerou praticas sexuais que passaram a ser chamadas de abominações humanas. Crenças diversas foram criadas no senso comum por causa dessas determinações morais dentro do cristianismo, como os Súcubos e os Íncubos, que eram demônios que apareciam para  seduzir o ser humano – apesar que sabemos que eram desculpas para sair da culpa de um ato sexual, já que nesse tempo eram proibidos atos sexuais em dias santos e quase todo dia era dia santo – assim, algumas fisionomias eram criadas e essas fisionomias lembravam crianças e adultos com doenças e graves más-formações.

Não houve diferença entre a cultura antiga – como a punição e a morte de pessoas com deficiência física por causa da sua ma- formação e por causa de crenças infundadas e com caráter político – que mesmo o filosofo Aristóteles (384 a. C. – 322 a. C.), dizendo que era mais fácil o governo dar um emprego a essas pessoas do que sustenta-las (nosso governo se esqueceu disso) a solução foi elimina-las ou coloca-las em guetos. As igrejas se não condenavam esses seres humanos a fogueira por causa da inquisição, eram trancados dentro de instituições sustentadas pela classe nobre, ou nas igrejas mesmo.  Podemos ver isso em dois filmes que tratam desse assunto, um é o épico Corcunda de Notredame e o filme O Monge. Esse artigo está discutindo a estética e muitas vezes são perguntadas o que tudo tem a ver, numa analise muito mais profunda da cultura ocidental, é a construção moral que infestou o senso comum e seus preconceitos, conceitos e pós-conceitos.

Podemos pegar a historia do Corcunda de Notre Dame – porque o filme O Monge é muito mais envolvendo a culpa e questões profundas num modo geral – onde ele é deixado na igreja de Notre Dame em Paris e criado no meio dos monges. Onde um corcunda tem uma paixão pela cigana, mas essa cigana não fica com ele e o mesmo morre em salva-la – isso caracteriza um amor entre um humano e um animal, caracterizando novamente, que os “defeituosos” não eram racionais e não poderiam andar e nem ter o amor – assim morrendo como se fosse um amigo fiel, parecendo um cãozinho. Outra analise que podemos fazer nessa obra é que o amor Pragma, o amor que te trará algo como beneficio em seu futuro, o tão conhecido “fulano (a) gasolina”. A cigana não via nada no corcunda que trouxesse no futuro algo para si, o outro homem no qual ela se apaixona, trará alguma coisa para ela num ar romântico. Talvez foi isso num ar muito mais filosófico, que Umberto Eco tenha desmistificado esses romances no seu livro “O Nome da Rosa”, onde o corcunda é retratado como um adorador do demônio e vive nos subterrâneos. Nesse livro – eu vi o filme, mas muitos críticos falaram que é fiel ao livro – para ter uma mulher, ele tem que pagar e isso é caracterizado,  como o romance de Victor Hugo se desenrola. A fé e o amor de uma mulher é uma visão muito romântica da coisa e não se podem mistificar preconceitos. A cigana Esmeralda não pode ficar com o Corcunda porque ele é um “deformado” e não trará uma boa prole, não trará uma boa imagem para si, as pessoas vão se afastar dela e ela será taxada como a mulher do “deformado”. No romance do Umberto Eco, a moça pobre recebe do “deformado”, fica por interesse, mas se apaixona e seduz o monge que vem ajudar o protagonista a resolver um crime. Duas visões para um mesmo problema, o medo do imperfeito.

Mas dai eu fico pensando o que definirmos como imperfeito e perfeito? A estética, que de repente, nossa cultura foi criada, concebeu o perfeito muito mais como um ideal do que o real. O ideal de beleza daria para a prole a perfeição, daria a mulher segurança, daria a sociedade um padrão a seguir que seja definido como seguro e solido. A questão da beleza ainda entra na sexualidade – como primatas, nós símios, despertamos  o desejo com partes corporais ou atitudes corporais – e nesse aspecto, tanto na sexualidade, quanto a afetividade, a pessoa com deficiência seja negada por parte da sociedade. Pesado? Nem tanto. Porque todos nós sabemos que o ser humano como um primata, tem seu chamamento sexual, no visual e isso pode ser demonstrado no homem. A mulher com deficiência por não andar sofre uma desvantagem quanto as demais – sendo sempre sentada, elas apresentam uma falta de diâmetro visual. Para o homem, a fraqueza de estar em uma cadeira de rodas – com raríssimas exceções que poderíamos dizer que esses fatores são mudados a repeito de trabalho e situação financeira que se encontra o homem com deficiência, embora que esse fator foi mudado, mas não descartado – leva muitas mulheres optarem por descartar a ideia ou simplesmente, por causa da pressão famíliar.

Chegamos num fator que de repente determina muito o núcleo da questão – sempre sofremos influencias familiares e essas influencias fazem as pessoas com deficiência descartar  essa ideia e muitas vezes, fazem as pessoas sem deficiência desistirem por causa do conservadorismo e também fazem as pessoas com deficiência terem baixa estima – que é uma questão familiar onde há ainda o pensamento da eternizar a ideia da assexualidade das pessoas com deficiência.  Existem casos muito graves de paralisia cerebral que muitas vezes é levado a não ter esse tipo de experiência – nem mesmo a masturbação por motivos locomotores próprios e de cunho social e cultural – que ficam restritos em suas instituições que não ensinam, alimentam essa visão assexuada, e ficam subprotegendo esses seres trancafiados. Nesses casos o “retardo” da idade mental é um processo artificial de separar o ser humano do seu convívio social, não aprendendo a se defender e nem a associar essas características.

Mas isso mudou um pouco nos anos 80 do século passado, quando em 1981 se declarou o ano internacional das pessoas com deficiências, que movimentos sociais começaram a ganhar força e as pessoas saíram para as ruas. As famílias – em alguns aspectos – começaram a olhar a questão com outros “olhos”, assim, deixando as pessoas com deficiência saírem. As pessoas com alguma deficiência começaram a se apaixonar e mostrar o interesse sexual,  começaram a formar casais e assim postular casamento – que nesse período era ainda com permissão do pai e da mãe dessas pessoas – assim descobrindo a sexualidade e a capacidade da maternidade. Mas assim, chegamos a uma necessidade humana primordial – um direito irrevogável – de escolher ser ou não mãe e garantir sua felicidade.

A felicidade (eudamonia), esta no poder ser o que é determinado pela natureza e assim, cumprir sua meta. Só porque temos limitações, não quer dizer que deixamos de ser homens e mulheres – embora as pessoas neguem, temos sim a parte sexual normal e temos sim desejo e amamos acima de tudo – e sim, temos desejos de se realizar como homens e como mulheres, porque afinal, o mundo liberal capitalista nos prometeu uma liberdade e o direito de sermos indivíduos autônomos e como tal, temos esse direito de sermos pais e sermos felizes. A estética – idealizada pelo filosofo Alexandre Baumgarten que fez um estudo minucioso no livro “Meditações Filosóficas Sobre as Questões da Obra Poética”, mais conhecido como “Aesthetica”, onde seus escritos estudam a parte sensorial (como visão, audição e percepção) que mostra o meio para o ser humano idealizar o que é bonito e o que não é, inventando o termo estética – também é o meio para o ser humano ser feliz e o que é bom e agradável, mas que tem sido usada como um meio para cunhar estereótipos para chegar a uma perfeição idealizada e pouco real. Mas, muitos ainda confundem estética com simétrica e isso, é uma questão artística e não corporal.

Em outro artigo posso trabalhar essa diferença sutil, não menos importantes, desses dois termos. Mas ao que parece – isso se deixa claro nos livros de historia e nos livros de analise tanto linguística, quanto de analise comportamental – que a ideia do amor que temos hoje de um modo geral, veio de uma forma romântica que a literatura nos proporcionou – mostrei isso mais ou menos, no Corcunda de Notre Dame, onde se faz um idealismo do amor – onde as formas corporais são muito mais importantes do que os reais sentimentos. Mas que no caso do deficiente, houve muito mais do que mero preconceito, foi uma meta corporal inexistente porque você idealiza seres perfeitos que não existem. Essa ideia romântica foi passada dentro de um estereotipo comercial publicitário – porque não se trabalha com um individuo, mas por meios de comunidades e publico geral – onde se vende uma ideia de perfeição romântica e um amor perfeito, onde o ser amado não tem defeitos. Até no segmento de pessoas com deficiência isso ocorre, porque somos tomados ainda sobre a cultura social e porque não, ter os mesmos conceitos e preconceitos. Por que existe pessoas com deficiência, que ainda insistem em se relacionar com pessoas sem deficiência? Por que alguns deficientes idealizam o namoro e o casamento? Por que muitas garotas não tentam ser modelos fotográficas? São perguntas muito mais estéticas idealizadoras do que um estética corporal de analise simétrica universal, nossa visão, idealizada pelo meio e pela mídia local (conjunto de comunicações e informações de uma sociedade).

Voltando ao termo estética, no século dezoito, ela não era uma definição corporal e sim, uma visão entre a matéria e o espírito. Ela faz o caminho muito mais elevado do que é hoje – com o belo corporal como base sintética idealizadora – mas sim uma forma muito mais elevada entre o pensamento (Sophia) e o mundo corporal que é preso no desejo e na felicidade. Na verdade, estética se dará como uma explicação construída em cima da filosofia platônica, onde havia o mundo sensível – onde o mundo apenas seriam copias de um mundo muito mais elevado, que o original de tudo que existe seria do mundo das ideias, ou seja, tudo na verdade era aparência daquilo que pensamento ser verdade – e o mundo inteligível – seria toda a realidade material que reside em nossa volta e faz o mundo ter tudo que vimos e podemos tocar – então diante disse a alma é muito mais poderosa que o corpo e pode transcender o corpo e ir ao mundo verdadeiro que é o mundo das ideias. Bem, não sei se essa ideia foi cunhada com o mito de Eros e Psique, mas faz uma relação interessante quando pensamos no mesmo caminho. Se a alma é muito mais poderosa do que o corpo, o amor espiritual é muito mais elevado e poderoso que um amor corporal – dai alguns dizem que o amor assim é um amor platônico, idealizado, que não existe. Mas um amor assim respeitaria muito mais o outro do que um amor idealizador, um amor corporal feito somente ao desejo do outro. De maneira nenhuma, um amor faz sofrer, então um amor que só um ama é uma paixão não correspondida e não um amor – talvez o mito de Eros e Psique tem um viés de passar isso, porque como disse, o amor psique era para os gregos na antiguidade, um amor de alma e seria um amor verdadeiro e com sentimento, um amor sem olhar o corpo. Por que então, uma instituição religiosa, passou por tantos anos uma postura errada de perfeição corporal se o platonismo diz o contrario? Por que se tem a ideia ainda, que as pessoas deficientes são eternos sofredores?

Dentro de nossa cultura existem vários exemplos de discriminação e preconceito como na musica A Cadeira de Rodas de Fernando Mendes, onde um homem vê uma moça de cadeira de rodas sempre a chorar. Esse sempre a chorar é um estereotipo do sofredor, do que não pode ser feliz, porque não teve a graça de ser perfeito e de poder andar e ele, perfeito, não pode ter o amor dela e não pode ama-la pela imagem social que ela tem. Essa imagem a condena a solidão e o isolamento, não podendo amar ninguém, apenas a chorar em sua cadeira de rodas. Muitas vezes quando vamos ao shopping ou em outro lugar – pelo menos eu e minha noiva ouvimos – uma mistura de vários sentimentos dês de um “ai que bunitinhos!”, até um “Coitada! Tão bonita, numa cadeira de rodas, que triste!”. Triste é ver uma distorção de uma filosofia tão elevada e que poderia, sem sombras de duvidas, elevar o ser humano a um patamar evolucionário da consciência de amor ao próximo sem se prender aos corpos e sem estereótipos desnecessários. Triste é ver as pessoas em pleno século vinte e um, terem esse tipo de pensamento, pensamento esse que já deveria ter acabado, mas que não acabou e demorara um bocado para acabar se essa cultura não se elevar.

amauri.njunior@gmail,com

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Responses

  1. eu queria saber sobre as vestimetas da Psique

    • Obrigado por comentar Maria Eduarda,,,mas não entendi sua duvida


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