Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 15 de julho de 2013

Estética para poucos

Torstein Lerhol é um político norueguês, ele sofre de uma rara doença genética e pesa apenas 17 kg! Lerhol resolveu fazer um ensaio nu para propor um debate sobre os padrões de beleza e como a aparência é uma medida para o sucesso na sociedade atual, como vemos diariamente nos comercias, filmes, programas de TV e revistas. Fonte: vg

Torstein Lerhol é um político norueguês, ele sofre de uma rara doença genética e pesa apenas 17 kg!
Lerhol resolveu fazer um ensaio nu para propor um debate sobre os padrões de beleza e como a aparência é uma medida para o sucesso na sociedade atual, como vemos diariamente nos comercias, filmes, programas de TV e revistas.
Fonte: vg

Por Amauri Nolasco Sanches Junior

O filosofo Platão, que nasceu em 447 a. C. e morreu 347 a. C., escreveu que o belo deve conter a perfeição e com isso, o belo se harmoniza diante do caos. Porque para o grego antigo, existiam duas forças, a do caos que eram as coisas imperfeitas e a harmonia que formavam as coisas perfeitas e quando um jovem tinha uma aparência bela – porque a pratica da homossexualidade era natural entre os gregos, tanto é que o conceito era que os mocinhos eram para os homens mais velhos sentirem prazer, as mulheres na verdade, só eram para reprodução e não eram de maneira alguma para o prazer – era um corpo harmonioso e que beirava a perfeição, apesar de que era considerado perfeito. Tanto é que nas estatuas da Grécia antiga, muitos escultores modelavam corpos fortes e perfeitos, Apolo era o deus da harmonia, porque era perfeito. O caos era a desarmonia do feio, do mal construído e não era de maneira nenhuma, sinônimo de beleza e sim de “monstros” que não passavam de animais. O racional era a perfeição como forte conceito que os Titãs – que na sua maioria eram monstros imperfeitos – foram derrotados e trancafiados aos deuses perfeitos e belos (por isso que a única titã a entrar no panteão dos deuses é a bela Afrodite).

Isso ao longo dos séculos na parte ocidental ficou enraizado dentro da cultura que de repente, se tornou algo como sendo perfeito é considerado humano, criação divina, se não é perfeito é obra do demônio. Foi assim que os doutores da igreja católica – depois com a reforma protestante, houve uma leitura muito literal das passagens bíblicas e de repente, os corpos imperfeitos eram demônios ou poderiam ser curados como acontece até hoje em algumas igrejas protestantes – puseram na leitura de Platão, que herdou o conceito socrático de deus desconhecido, que tudo que é belo é perfeito e é uma criação divina e tudo que não é belo não é perfeito e não pode ser criação divina. Essa foi uma discussão muito discutida na filosofia cristã chamada patrística, onde se começa a analise da filosofia platônica onde era discutido o que é perfeição e porque essa perfeição poderia ser divina, já que o mestre de Platão, Sócrates, se referia ao divino como um ser poderoso que não poderíamos definir. O filosofo Frances Michel Foucault (1926-1984), mostra que houve a discussão quem era racional e quem era irracional – porque a igreja cristã sempre disse que os animais e seres humanos que não raciocinavam (loucos?) eram tidos como imperfeitos e não teriam uma alma e não se assemelhariam com Deus, porque na bíblia está que o homem é imagem e semelhança dele – então se criou um discurso que se tornou um discurso que se afigurou como o do poder. O problema da perfeição nada mais é, do que o discurso do poder que aprimora um pensamento muito mais idealista do que realista, pois nada pode conter a perfeição.

Na verdade, nosso conceito de perfeição veio de um conceito hegeliano que diz que uma obra de arte é muito mais perfeita do que a natureza. O filosofo e teólogo Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), concebia a ideia que como o ser humano é a imagem e semelhança a Deus – como uma criatura que raciocina e nesse raciocínio, constrói sua própria criação – nossa arte era um mundo que construímos diante de nossas ideias abstratas daquilo que vimos, e assim, melhoramos esse objeto ou criatura. Essa ideia teria vindo da ideia platônica do mundo das ideias onde as coisas que existem no mundo são copias, os originais ficariam no mundo das ideias. Mas esse mundo das ideias era um mundo no meio do éter – substancia que era atribuída em tudo que fosse vazio ou no mundo sublunar, universo – que se destacava no plano onde ficava as invenções e que o ser humano captava. Isso entra numa área da metafísica chamada “inspiração telepática” que alguns chamam de egrégora – que seria um campo de força, no Plano Astral que é emitida a partir de uma assembleia de pessoas e consiste em seus padrões mentais e emoções – e assim muitos sabem que se forem em uma assembleia religiosa, verão isso (eu vi com minhas idas em lugares cheios e isso acontece mesmo).

Quando pensamos em estética, pensamos no sistema platônico-hegeliano, onde a percepção humana e a reprodução dessa percepção em alguma escultura ou pintura que fará com aquilo que se imaginou. Talvez com esse intuito, os norte-americanos por serem pragmáticos (práticos), desenvolveram a teoria e estudo na eugenia no fim do século dezenove e começo do século vinte – processo de seleção genética do ser humano apto a vencer a seleção social do poder (dai entra o discurso do poder de Foucault) – onde entraria a ciência para separar aquele que seria sinônimo de perfeição. Dai houve, mesmo alguns historiadores negando, o advento do nazismo que pregaria o ser humano perfeito e eliminaria os que não seja-se perfeitos. A perfeição é um conceito abstrato que se originou dentro de uma noção grega de ideal humano ou dentro de uma própria realidade. Arrisco até dizer que dentro da palavra eutanásia – cunhado pelos nazistas para designar uma morte digna aos doentes e deficientes que não se encaixavam dentro de um mundo ideal do “ubermensch” (uma leitura particular da filosofia nietzschiana onde os nazistas encaixaram sua doente visão do perfeito) onde só haveria a perfeição e nós, éramos  sofredores eternos que deveriam ter uma morte digna – nada mais seria do que uma tentativa de tradução e interpretação da palavra eugenia que designava no estudo da perfeição humana e a eliminação das doenças cromossômicas que daria as deficiências e doenças genéticas. O mundo seria uma imensa propagando de margarina e ninguém estaria doente e deficiente, mas a custa disso, estaria a livre escolha do ser humane e seu ideal de vida e como poderia ter o livre-arbítrio.

Varias pesquisas e soluções, vejo como se ainda, mesmo após do advento do nazismo e a eugenia, dá continuidade a falácia que o ser humano só pode ser feliz dentro de um ideal perfeito e que tudo está mais ou menos certo dentro de um meio de vida. A “eudamonia” (felicidade) grega, ainda nos assombra como fosse um ideal perfeito a onde temos que seguir e o único meio para isso é eliminando o imperfeito e a incerteza que dá o ser humano o sofrimento e a angustia. Talvez até nós pessoa com deficiência, acreditamos nessa perfeição e temos procurado essa perfeição dentro de pesquisas que não sabemos qual o intuito dessas experiências e por qual razão essas experiência são realizadas. É o meio do ser humano de superar no modo mais preguiçoso – não que sou contra a tecnologia para ajudar a superação e a viver com o mínimo de conforto, mesmo o porquê, sou técnico de informática e sei dos avanços ótimos na área PCD – onde o meio de se superar é o meio de te deixar mais forte para superar outros limites e lhe amadurecer. Umas das frases que mais gosto é do filosofo Nietzsche (1844 – 1900) diz que o que não causa minha morte, me deixa mais forte.

E nessa cultura da estética perfeita e que só vimos corpos perfeitos e maneiras de ser que trás uma felicidade artificial de baladas e copos de cerveja cheios e sorrisos “mascarados” – aonde vimos que a felicidade está em apenas não deixar o silencio reinar para lembrar quem nós somos – existem pessoas que cansam de ver fotos de uma estética imposta pela mídia no discurso do poder onde devemos ler tal livro, devemos ver tal filme, devemos viver tal vida, devemos acreditar em tal ideal, devemos amar de tal maneira e por ai vai, como se fossemos meros “fantoches” de um show qualquer. Talvez esse pensamento que levou o político e pessoa com uma doença rara e com deficiência, só pesa 17 kg, o norueguês Tourtein Lerhol, tenha pousado nu e mostrado para o mundo que estética é muito mais abstrato do que concreto. Porque deixa claro que esses “mocinhos” de balada nada querem nos passar do que suas almas vampirizadas com conceitos vazios de uma mídia vazia feita de seres humanos vazios, porque aposto que a grande maioria nem sabe o que è o significado real da felicidade. De repente o Lerhol, como diz a reportagem que li, cansou de olhar esse mundo vazio de ideais e ideal e uma estética para poucos, dai o nome do artigo, e quebra essa cultura de “surfistas calhordas” que só eles pousam nus, tenha mostrado que nós também pousamos nus e também temos nossa beleza. Quem não sentiu certa rejeição ao ver as fotos dele na primeira olhada? Confesso que quando olhei pela primeira vez, achei que era uma foto de um duende, por ainda está enraizado dentro do meu conceito, o belo.

Lerhol nos ensinou que nosso mundo não é perfeito como idealizamos e não pensem que não estamos isentos dessa cultura só porque temos deficiência – hoje temos uma cultura platônica- epicurista onde a felicidade (eudamonia), é alcançada dentro do prazer e da beleza – porque vi muitos comentários que de repente me fizeram refletir até onde queremos a inclusão. A inclusão das pessoas com deficiência não deve ser realizadas dentro do conceito moralista e muito menos machista, pois cairmos dentro do conceito social que nos rejeita e faz de nós casos a parte dentro até da política. Talvez Lerhol por ser político saiba disso, talvez a Mara Gabrilli não houve tanta estranheza por sair na Trip por ser mais ou menos perfeita, talvez suas fotos não sejam ousadas ao extremo. De repente Lerhol queria mesmo esse tipo de discussão para repensarmos o que podemos fazer para vários conceitos mudarem e sejamos vistos como seres humanos e não como “aberrações” digna de pena. Muitos deficientes ainda têm uma visão de que o amor só acontece quando temos alguém para cuidar de nós, que para sermos aceitos temos que quebrar paradigmas entre uma deficiência e a não deficiência para de repente se sentir ser humano, mas então enfatizando uma visão patética humana, demasiada, humana. Uma visão de uma superação que não existe, porque só superamos conceitos quando transcendemos eles e mostramos nossa capacidade, uma superação não é subir o monte Everest numa cadeira de rodas ou com outra deficiência, superação é o que Lerhol tentou passar, num modo simples de só tirarmos a roupa.

Temos urgentemente rever nossa noção de inclusão como um meio para enxergarmos somente a entrada das pessoas com deficiência dentro do ideal social, mas a inclusão nada mais é do que sermos o que somos quem aceitar ótimo, quem não aceitar, ótimo também. Ser como somos é um grande desafio que não podemos descartar só porque devemos ser aceitos, não devemos ser aceitos, devemos nos aceitar. Ter pessoas bonitas do nosso lado, beber até cair, ter uma vida social não vai ter fazer mais humano. Ser um ser humano é de repente entender as outras pessoas, é ser simples nas atitudes e até aceitar seu aparelho, afinal, ele te fará viver a vida confortavelmente. Lerhol nos ensinou que lendas de seres metafísicos poderiam ser construídas dentro de uma visão errônea estética humana, como se esses seres fossem demoníacos. Ensinou a reavaliarmos nossa visão da inclusão e porque ela deve acontecer.

Para mudarmos essa visão sugiro assistimos o curta metragem “O Circo de Borboletas”, que é um lindo filme.

uniãoPCDs

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Responses

  1. […] não ficou muito clara a minha posição quanto o pensamento meu ao assunto e o intuito do texto (aqui). Para começar não critiquei a visão cristã católica ou evangélica sobre o assunto, disse o […]

  2. ARRASOU! Algo que eu já percebia a muito tempo foi mais do que bem expresso por esse post.Aliás, nunca vi conexões tão bem estruturadas sobre esse assunto. A ‘cultura'(que pra mim é falta de cultura) imposta exalta pessoas vazias, de pensamentos fúteis e vazios enquanto quem tem o que dizer é totalmente abafado e ignorado em troca da cultura inútil…

  3. […] mas o que a pessoa pode oferecer como único em toda a humanidade. Como disse no artigo “Estética é para poucos”, a beleza está nos olhos de quem enxerga, como Lehol, o namorado da Miss não está preocupado […]


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