Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 29 de maio de 2013

Um passeio no shopping no meio, o senso comum

Acessibilidade é um direito de todos

Por Amauri Nolasco Sanches Junior

No dia 26 de maio eu e a Marley, resolvemos passear no Shopping para comemorar mais um dia feliz que faríamos 4 anos e 11 meses. O que mais reparo nesses passeios, além do meu amorzão está linda, é o jeito que as pessoas ficam olhando quando estamos juntinhos. Uns acham “bonitinho” e dão um sorriso, outros nos olham com rosto de reprovação, outros ficam indiferentes, outros literalmente nos atropela. Mas o que chamou a atenção foi uma moça ter dito as seguintes palavras sobre a Marley: “tão linda, tão jovem numa cadeira de rodas, isso é muito triste…”. A Marley comendo morango com chocolate, toda feliz, com um sorriso orelha a orelha, o que é triste ali? Em pleno século XXI, as pessoas ainda associam deficiência como uma situação triste e desesperadora.

Fica parecendo mais ou menos – isso se prova como cultura dominante é a musica Cadeira de Rodas – que somos coitados, sofredores eternos como antigamente se pensava. Hitler autorizava a eutanásia porque “achava” que éramos sofredores de um corpo enfermo, de um corpo mal organizado e fora dos padrões sociais. Ter esse tipo de ideia já foi muito difundida no passado e hoje, é um atraso quase surreal. Mas por que temos esse tipo de coisa no nosso pais? Muitos irão indagar que é uma maneira de proteger ou até achar mesmo que nós somos desprotegidos, não é esse o caso, isso veio diretamente com o pensamento medieval importado dos portugueses, quando nos primórdios, nascia a cultura brasileira. Temos uma cultura? Sem duvida temos uma cultura onde está nossa moral, nossos valores, nossas raízes e tudo mais que possamos determinar. O que não temos é identidade, porque não nos consideramos como um povo soberano e por isso não é tão patriota, não é por causa da política, é por causa da falta de amor-próprio mesmo. Os brasileiros esculacham eles mesmos.

As pessoas com deficiência não são diferentes, as lideranças não sabem liderar porque não existe na nossa própria cultura amor-próprio. Mas o que seria superação de verdade? Não é só no meio físico que devemos superar, mas nos conceitos meramente humanos. O que eu vejo dentro do segmento é as próprias pessoas com deficiência, terem os mesmos conceitos e preconceitos que nossa sociedade tem. Como podemos lutar contra esses preconceitos se eles existem no próprio segmento? Como podemos seguir conceitos que nos fazem ser rejeitados? Ainda tem lideranças que tem “fobia” de internet ou acha que são poderosos demais para errarem e não podem se expuser, para de repente, participar de discussões que podem interessar ao publico e até, esclarecer alguns pontos. Sabedoria virou orgulho ou interesse, mas nunca foi e nunca será. Ora, os samurais eram sábios e lutavam para defender a realeza, ou os espartanos que eram estudados na cultura grega na época. O rei Leônidas I era um rei sábio e ao mesmo tempo guerreiro, os reis e governantes eram sábios e guerreiros. O “bom” hoje, não era o “bom” de antigamente onde a sabedoria era preservada, mas a luta também era necessária.

Esse “bom” que se transformou em uma falsa humildade – porque a verdadeira humildade é a virtude de reconhecer seu erro sem se desmerecer e sem se prostrar diante das ofensas da vida – deixou de ser o que sua etimologia  é verdadeiramente, onde sua origem latina “bonnus” significava guerreiro, significa alguém com coragem e nobreza de defender um ser ou um império. O cristianismo transformou a palavra “bom” antônimo de “mau” que é mais ou menos, perverso. Como todos nós sabemos, as religiões são formas de pacificar o ser humano para o Estado se opor a massas, porque há uma profunda diferença entre religião e espiritualidade. Dai entra o que estávamos dizendo, entra a palavra “bonnus” que quer dizer uma pessoa nobre que ajuda e um guerreiro que defende e não pessoas pacificas e bondosas que deixam sua vontade para viver a vontade alheia. Espiritualidade é buscar essa vontade de ir além dentro de si próprio e não buscando coisas e benefícios de fora, mas sua própria força, sua própria energia do encontro como um TODO.

Essa frase que a Marley ouviu, foi uma frase platônica que só o bem e a perfeição trarão à humanidade a felicidade e não, a vontade da potencia, a energia vital do homem para o próprio homem. Na verdade, não acho que Sartre tenha razão quando diz que a existência precede a nossa essência pelo simples fato que a simples existência faz do ser humano um mero animal biológico, a moral é feita dentro dessa essência e os valores dessa essência é o que sentimos. Se só enxergarmos somente a existência, o vazio existencial que fará em nossa volta nos transformara em nada, uma coisa que respira e come e de repente, faz suas necessidades fisiológicas. Os valores e a visão do outro que nos trás algum sentido existencial, alguns desses sentidos podem ser equivocados pela usurpação do platonismo dessas religiões, mas sem essa esperança o ser humano se torna um animal sem moral e perpetuara a violência e o desprezo por seu semelhante. Temos que nos prezar no bem natural do outro e sermos humanos de reconhecer as limitações e não desprezar o outro por essas mesmas limitações, como essa frase demonstra, um ser superior espiritual e corporal, desprezando um ser fraco e limitado com um ar demagogo de “bondade”da pessoa que disse.

Não me estranha que esses entes que se “acham” superiores desprezam os que eles pensam serem inferiores, ser fraco, serem a margem da sociedade, por desprezo de si mesmo.  Prova é a declarações do cantor Amado Batista que diz que aprendeu com a tortura do regime militar, por mais que você concorde com a ideia do regime de repente, desprezar a sua dor para passar uma imagem de forte e que pode ter aprendido algo é inaceitável para qualquer ser humano. Esse desprezo de si próprio reflete no outro como vimos, porque ali está uma sofredora, ali está uma triste imperfeita. Os perfeitos só são felizes? Isso mais uma vez reflete nas entranhas de nossa cultura, do desprezo das pessoas que fogem da insana incapacidade de desprezarem a si mesmos.

Caro leitor, a Marley sorrindo, comendo morango com chocolate, estaria triste? Comemorando nosso dia em completar 4 anos e 11 meses junto comigo, ela estaria numa tristeza? Como disse acima, me lembra a musica Cadeira de Rodas de Fernando Mendes que mostra uma moça de cadeira de rodas, que ele apaixonado, não teve coragem de se declarar a ela. Os motivos sabemos, porque sabemos que nossa sociedade não perdoa o diferente porque se quebra os confortos morais e não se precisa pensar. O preconceito é na verdade, uma generalização das praticas plausíveis e irrefutáveis de um povo fraco e ignorante. Como podemos levar tão a serio?

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