Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 1 de janeiro de 2013

O caso Lya Lulf

Direita-esquerdaUm cérebro representando a direita com cidade e riqueza e o outro lado representando a esquerda a pobreza e a favela

Amauri Nolasco Sanches Junior

Escritor/Filósofo/coordenador e cofundador da Irmandade da pessoa com Deficiência/técnico de informática/publicitário

todos sabem – ou a grande maioria – que a Lya Lulf é uma grande escritora e colunista da revista Veja. Não nos prendemos em emaranhado de partido ou ideologia – mesmo o porque não existe esquerda ou direita e sim interesses – mas vamos ater no que ela escreveu numa coluna que quem era assinante leu em primeiro lugar. Assim foi:

 “O politicamente correto agora é a inclusão geral, significando também que crianças com deficiência devem ser forçadas (na minha opinião) a frequentar escolas dos ditos ‘normais’ (também não gosto da palavra), muitas vezes não só perturbando a turma, mas afligindo a criança, que tem de se adaptar e agir para além de seus limites – dentro dos quais poderia se sentir bem, confortável e feliz”.

Primeiro erro da escritora foi criar um conceito de “forçar” a criança com deficiência a conviver com os ditos “normais”, que remete em tudo que o filósofo francês Foulcault escreveu. O que seria normal ou anormal? Essa discussão começa na idade media quando começa a ver de outra ótica a loucura – como forma de ser normal (raciocinando) e anormal (alucinado) – pois vários textos de Aristóteles tiveram esse contexto de se for perfeito, haveria grande chance de ter alma, se não fosse perfeito, não haveria de ter alma. Mas nem era culpa de Aristóteles – como filhos de sua cultura – ele era refém do pensamento da época e sabia só construir esse tipo de pensamento. Não vamos, também, nos ater em culpados e sim fazer uma investigação genealogia da moral e ética (longe de eu ser comparado com o mestre Nietzsche). A pergunta é simples porque nos remete a um conceito muito mais profundo da sociedade, porque sem sua moral construída por seculos de pensamentos, guerras, lutas e construções verbais, fizeram e fazem parte da sociedade humana.

O normal e anormal que a escritora fala vem do conceito de ser aceito ou não, uma conduta pode ser dita normal e não um indivíduo. Um indivíduo que trás uma deficiência não faz de seu comportamento diferente, trás uma limitação e não um comportamento. Não podemos dizer se a pessoa é normal ou não, só por causa de sua deficiência, isso já trás a discussão se esses escritores estão mesmo preparados em serem escritores, quanto mais, falar de assuntos desse porte. Se ela não sabe nem a terminologia de normal e anormal, muito menos saberá a terminologia de qualquer assunto que queira falar ou não. Nem é problema de ser petista ou psdebista, o problema que os assuntos sociais se banalizaram com a ignorância e a ilusão do povo, quanto menos, o segmento PCD.

A coisa fica grave quando ela usa o termo “atormentar a turma” como se você pedir para ir ao banheiro é um tormento ou pedir para pegar alguma coisa no chão. Eu, para dar um exemplo, estudei em quatro estabelecimentos de ensino e posso garantir, sem a menor duvida, que as pessoas até se oferecem para pegar ou para ajudar. Se atormentamos, se atrapalhamos, isso é bem disfarçado diante da turma, porque de maneira nenhuma, nenhum aluno reclamou do nosso comportamento nas salas de aula para o coordenador ou para algum professor. Então da onde a Sra Lya Lulf tirou tal afirmação? De onde vem essa avalanche de besteiras em um paragrafo? Ela é uma escritora, ela tem o conhecimento, não é uma ignorante de periferia. Vamos ser práticos, isso tem a ver com o governo e a politica, isso tem a ver com a “conversinha” fiada dos sulistas em nos trancar em APAEs, ou os nortistas em correntes, estamos cercados e se não fizemos algo, a coisa vai ficar feia.

Outra coisa…da onde a escritora tirou que crianças com deficiência afligem outras crianças? Fica mais ou menos aquela conversa de psicologo que diz que os infanticídios dos Estados Unidos da América são obra de pessoas autistas que são “forçadas” a frequentar escolas “normais” e sofrem algum bulling e nesse bulling se tornam psicopatas e matam todo mundo, é de dar risada até fazer “xixi” nas calças. Essas afirmações são de pessoas que são mal profissionais, existe nesse país muitos maus profissionais e isso agrava todas as áreas. Prédios caem, rodovias se despedaçam em buracos, bandidos a solta, musicas que só trazem desgraça, isso faz parte agora de nosso cotidiano graças as pessoas que assistiam aulas de faculdade alcoolizados e que não aprenderam nada das aulas, mas tiraram o diploma. Prova disso os médicos de hoje simplesmente, uma dor de barriga é virose, daí dá para ter uma ideia.

A escritora Lya Lulf – como Aristóteles e outros – são filhos de sua cultura, sua contemporaneidade fazem deles reféns de tais pensamentos. As próprias mães – nem todas é claro – tem esse tipo de pensamento onde enxergam as pessoas com deficiência como inúteis, como se elas não tivessem uma vida social, como se elas não pudessem ter tudo que qualquer pessoa possa ter. Isso é verdade, a fala de Lya nada mais é do que o pensamento de qualquer mãe, de qualquer família, de qualquer profissional de escolas especiais ou não, vamos atormentar, vamos atrapalhar, vamos limitar a conduta de uma sala em passeios e diversões. As brincadeiras não vão ser as mesmas, vão ter que adaptarem essas mesmas brincadeiras, vão ter que adaptar as mesas, vão ter que colocar pisos diferentes, vão ter que colocar interpretes ou legendas nas vídeos aulas. Isso requer dinheiro, isso requer trabalho e qualquer funcionário publico que se prese, não trabalha, quer tudo pratico e nem se esforça para ter o conhecimento de melhorar a vida e o convívio. Logico que nem todos são assim, mas a grande maioria o é. A história não me faz mentir com os espartanos, com os nazistas, com a própria igreja romana e seu conceito de perfeição. Ainda ficamos com esse estigma por que, em pleno século XXI?

Na geologia da moral que podemos fazer, voltando a “vaca fria”, temos que fazer um resgaste do conceito moral que se pode fazer disso. A moral são conceitos que fazem nossa criação familiar, uma moral religiosa é uma criação dentro da religião e é errado pensar que existe alguma ligação com a ética, pois não tem. Ética é algo muito maior e muito mais abrangente do que a moral, a moral é restrita a um conjunto especifico de pensamentos e regras, a ética abrange todos. Uma criança ser molestada sexualmente é amoral, um politico não aprovar leis que limitam essa pratica e levem esses sujeitos a cadeia, é anti-ético. As praticas são dependentes de nossa moral, o que aprendemos no “berço”, a ética aprendemos no convívio social e cultural. Questões de linguagem, porque somos o que conseguimos nos expressar e daí que tiramos uma analise de verdade do que a Lya Lulf disse, uma questão puramente moral e de pouca ética.

Por que digo isso? Se tudo é uma questão de linguagem, então até mesmo, as palavras que ela escreveu são seu mundo, é o que acredita e crê ser a verdade. Para ela – queira você ou não – a questão que colocou é verdade porque faz parte de seu conceito e se faz parte de seu conceito, faz parte de sua moral. Um pré-conceito é um pré-julgamento daquilo que “achamos” ser a verdade ofuscada por generalizações, o mundo constrói um ramo de opiniões sobre certos assuntos e entra dentro da moral de algum ensinamento; como judeu ser “pão-duro”, ou negros e índios serem preguiçosos, mas que remete a uma generalização. Nem todo judeu é pão-duro, como nem todo índio é preguiçoso. Nem toda pessoa com deficiência tem tormentos mentais ou sofrem de transtornos que fazem não raciocinar, nem todas as pessoas com deficiência não podem fazer as coisas que todos gostam ou fazem. Há, certamente, uma generalização diante de conceitos e preconceitos que nem sempre são sociais e por incluível que pareça, vem de profissionais na área. Os profissionais que trabalham com deficiências – como instituições como a AACD (citando a mais famosa) – tem um grau de preconceito muito auto. Com toda certeza, antes de fazer seu texto, Lya Lulf “bebeu” dessa fonte. Então o que esperar? O que esperar de uma revista fracassada como a Veja?

Como disse uma colega do segmento Marcia Gori: “Precisamos deixar de ser tão simplistas na visão social que acessibilidade se resume em barreiras arquitetônica”. Realmente é muito simplista colocar toda a acessibilidade só no meio arquitetônico – como vimos no texto da Lya – a questão da inclusão abrange até a semântica, as inúmeras figuras de linguagens, e outras coisas que também devem ser estudadas por quem luta por uma inclusão. Como incluir algo dentro desse algo? E se eu não quiser ser incluído dentro desse contexto? São perguntas que ninguém dentro do segmento sabem me responder, como se isso fosse tão difícil, se eu devo aceitar nomenclaturas que me é impostos nesse segmento. Ou se devo aceitar me incluir em uma sociedade que me rejeita…para quê devo me incluir? Como se eu fosse massa de manobra, não do governo ou da elite, mas do próprio segmento que existem certas pessoas que procuram fama e gloria. Nada de errado, acredito até ser valido, dês que seja honesto e deixe isso bem claro.

A vaidade de ser reconhecido e de ser percebido em tudo que fazemos, nem sempre é errado, temos que ser reconhecidos para saber se estamos agindo certo, quem diz o contrario é hipócrita ou é papagaio, nem sabe e nem analisa o que está dizendo. Por isso a importância de se estudar os conceitos e estudar os meios que se processam cada fala e cada escrito, senão não se sabe o porque o autor ou quem disse aquilo. Um colega do segmento disse uma vez que a maioria dos movimentos e ongs são papagaios e isso é verdade, ouvem a coisa, lê a coisa, mas nem sabem o contexto e nem o porque essa coisa se realiza. Repetem e é só, não diferente de Lya, eles somente ouvem o galo cantar sem ao menos saber onde esse galo está cantando.

Enquanto isso, tomo meu suco, como minhas bolachas e fico vendo esse espetáculo que é a batida de frente entre os movimentos. E a Irmandade? Entrará na briga na hora certa…

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Responses

  1. Parabéns!


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