Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 12 de novembro de 2011

Cultura Surda

Descrição: um macaco que não vê, um macaco que não ouve, um macaco que não fala

“Aprendi a respeitar as idéias alheias, a deter-me diante do segredo de cada consciência, a compreender antes de discutir, a discutir antes de condenar.” (Norberto Bobbio)

Na fala do grande filósofo politico Norberto Bobbio, que a minha amiga surda Lak Lobato portou, diz que ele aprendeu a respeitar as ideias alheias e sempre discutir antes mesmo de condenar e compreender antes de discutir. É interessante esse tipo de fala porque diz o que é óbvio, devemos sempre entender antes de discutir e sempre discutir antes de condenar. Essa fala do Bobbio, tem a ver com a discussão que estou metido sobre surdo oralizados X surdos sinalizados (mesmo não sendo surdo). Mas mesmo assim, acredito que um cara como eu, coordenador de movimento, pessoa com deficiência física, não pode ficar de fora de jeito nenhum e explico porque. Esqueci de informar que a discussão acontece no grupo do facebook, Convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Todos nós não podemos criar uma cultura segregando um grupo, isso foi a condenação dos judeus com o povo alemão que não conhecia sua cultura e foram facilmente levados pelo partido NAZI a condenar os judeus, pois tudo que o ser humano desconhece, ele teme veemente. O povo surdo que tem medo, ou sentiu dificuldade em aprender nosso vernáculo pátrio (quebrei tudo agora), sentiu que os “ouvintes” não compreendiam sua maneira e disseram um basta nisso, criaram um gueto conceitual. Por que gueto conceitual? Porque se trancaram em um mundo que poderia ser muito mais proveitoso se não tivessem esse rancor, olha-se todo o segmento como um todo.

Eu nunca vi na minha vida de luta inclusiva, ter no segmento de pessoas negras algo como a parte dos morenos, dos mais escuros, negros com deficiência ou algo parecido. Se uma pessoa tem uma “noção” de antropologia (estudo do homem e sua cultura) vai ver que não existe cultura surda, porque a surdez é uma condição corporal, não uma condição de pessoas que fazem uma nação ou um Estado de direito. É fácil, não existe guetos culturais, isso é minoria, existe pessoas que fazem parte dessa condição que pertence a uma sociedade maior e isso é evidente. Não adianta queremos fazer provas e português em uma universidade em París, pois não vai rolar e não gostaria de fazer, porque serei diferente dos demais. Serei um “especial”?

Aliás ao meu entender, essa ideia de “cultura surda” é a ideia de ser “especial”, ser uma pessoa a parte da sociedade que marginaliza. Somos seres humanos, bem ou mal, vivemos numa sociedade que tem como divertimento, o mundo do espetáculo. Como sabemos, nos EUA tem o arremeço de anão, se sofre até Bulling governamental e social, onde só podemos participar da sociedade se fomos reabilitados, se fazemos uma arrumadinha. Isso é evidente no programa TELETON, onde pessoas sem deficiência olham “de cima” as pessoas com alguma deficiência. Mas as pessoas não veem isso e sempre olham a caridade ao invés de ir a luta, como evidencia as providencias governamentais, sobre nós deficientes. Se os próprios deficientes se marginalizam como vimos a comunidade surda, como querem o segmento acontecer a inclusão? A tempos atrás já tinha me indignado quando vi uma reportagem dizendo que alguns surdos tinham se designado como não “deficientes”, mas “eficientes” e ainda é pior, nem eram eles e sim, as “tias” da instituição. Como podemos lutar pela diversidade? Como podemos querer inclusão se a própria pessoa com deficiência não se sente digna de se incluir?

Como sempre digo que o problema não é a acessibilidade arquitetônica, mas a questão é muito mais profunda, tem muito mais a ver com a questão de cultura e senso comum. Porque inclusão não é uma palavra, é um ato. O que pega é que as pessoas tratam a inclusão como uma palavra apenas e não é. Nunca na minha vida confiei em intelectuais e estudiosos, pois como o próprio Bobbio, se você não se põe na pele naquele sujeito estudado ou daquela deficiência, fica difícil. Sou cético sim e me desculpe os acadêmicos da inclusão, não acredito que vamos fazer a inclusão teorizando, apenas vamos ter certeza da inclusão na pratica. Nenhum Foucault, nenhum Paulo Freire, nenhum Hegel, fará isso, mas quem sofre a discriminação, que está atrás de uma cadeira de rodas, atrás de um par de muletas. Mas há uma grande diferença em “cobrar” uma questão no qual temos direito, e a questão de se criar termos que não servem para nada; um exemplo poderei dar com muita propriedade, não posso criar “cultura cadeirante”, porque não é a apropriação de uma lingua ou uma identidade própria, e tem também, o fato genético. Além de não haver um só governante ou uma direção executiva administrativa.

Segundo muitos teóricos, uns desses o filósofo Jean-Jacques Rousseau, nós temos um contrato social, ou seja, se nascemos em determinada sociedade, assinamos esse contrato. Outra coisa, trocamos nossa liberdade para sermos governados, para temos as tecnologias que facilitam nossa vida, onde mesmo livres, somos acorrentados em toda parte. No mesmo digo a inclusão, trocamos a escolha de não participar dessa sociedade que nos rejeita, nem podemos escolher, para padronizar um conceito que a maioria pensa. Ou seja, as pessoas com deficiência, aceitam o senso comum para serem aceitas, aceitam o senso comum rejeitando sua própria identidade. Criam “gangs” para suprir uma união que não existe,  que apenas inventaram como modo de nos dá um “consolo” conceitual. Toda politica de inclusão faz essa mesma base, a base da politica do “pão e circo”. Na minha visão, além de tomarmos cuidado com qem votamos e para quê votamos em determinado candidato, devemos também ter a dignidade de ter nossa própria opinião dentro da politica.

Vamos continuar o debate….

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