Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 8 de julho de 2011

O laudo médico é nosso diploma?

Meu Diploma de Publicitário pelo IPED

Parei! Nesses dias tive uma vontade irresistível de chorar, de me sentir o menor ser da Terra porque, pelo menos, ainda tenho esse direito reservado. Muitos outros deveriam ser assegurados por inúmeros documentos escritos para esse fim, mas nesse país onde que não estuda, que não se trabalha, que faz do crime sua vida, tem muitos direitos ou mais do que aqueles que trabalham e estudam. Tentam ainda me convencer, que eu um misero deficiente físico, que deveria ter o direito ao trabalho, ter o direito a namorar, ter o direito de ir e vir, ter o direito até de viver, tenho que passar a humilhação de mostrar meu laudo medico muito mais do que meu diploma. Tenho o direito de ser publicitário? Não tenho. Nenhuma agencia de publicidade me ligou para oferecer nem mesmo um estagio, nem me contratar como autônomo dando uma chance de mostrar meu trabalho.

Não posso deixar de agradecer a DPZ, a W/BRASIL, DM9, BENCOM, CIA2, que fazem quase 1 ano que mandei um currículo para cada uma (foi dia 23/08/2010), fez a “cachorrada” de não me responder nem o e-mail para dizer se receberam ou não os devidos currículos. Essa é a educação e o respeito que dão ao povo que procura emprego, que procura uma chance de mostrar seu trabalho e uma chance de ser um publicitário. Se fazem isso quando um deficiente físico quer mostrar seu trabalho, imagina o que dizem do seu publico quando um comercial emplaca no povão. Diriam coisas como: olha lá, os idiotas acreditaram! Sei porque fiz universidade, sei muito bem o que dizem os publicitários velhos e gagás. Aliás, muito obrigado a universidade UNIP não ter me dado bolsa de estudo em 2007, mesmo meu pai oferecendo para mim trabalhar lá, tive que deixar rolar a divida porque não deixaram tranca-la. Mas estranhamente, para o Vampeta que nem terminou o curso, deram a bolsa que aliás, tenho o 50% de bolsa, mas não quero cursar numa universidade que coloca fotografia e estatística em sua grade, onde nunca um publicitário irá usar porque existem muitos fotógrafos e empresas estatísticas por esse Brasil. Eu tive que fazer o curso a distancia tirando 10 em todas as matérias, acredito que isso não tira, ou não deveria tirar, meu mérito.

Mas o negócio é com o “raio” do laudo médico, pois segundo algumas consultorias de emprego para pessoas deficientes, o laudo é para garantir a igualdade de oportunidade para todos. Mas vejo o contrario, vejo que o laudo médico dá essa “arma” para o empresário fazer isso, o RH olha o laudo e diz não ser apto aquele cargo. Simples! Não sei quais movimentos ou ONG´s que elaboraram esse decreto, mas foi elaborado muito mal, porque está dando força não para o deficiente e sim, para o empresário mal intencionado. O CONADE – que segundo alguns é um colegiado – simplesmente fecha os olhos para essa questão tão importante para nós e não é discutida por ninguém de nenhum movimento. Então, para que vou estudar se quem vai me garantir algum emprego vai ser o laudo médico? Acredito que ninguém está vendo a gravidade do assunto, pois somos avaliados não o que estudamos, mas a deficiência que temos. Que se dane se nós estudamos, passamos raiva, se gostamos ou não do que fazemos, não somos contratados, e pronto. Simples!

Pelo que entendi, nosso diploma não serve para mais nada, pois o que vale mesmo é o laudo medico. Não pensem que quando prestamos para concursos públicos as coisas são mais fáceis porque não são, pois além de um laudo medico, ainda temos que passar pela humilhação de uma junta médica. Por que humilhação? Segundo varias vezes que meus irmãos foram fazer entrevista nunca pediram exames, muito estranho esse tipo de coisa, pois me assusta esse tipo de conduta. Parece aquela história dos campos de concentração, onde se marcava o povo judeu com números para diferenciar, é o que acontece conosco quando damos nosso laudo medico e colocamos nosso CID no currículo. Muitos não veem isso, veem como uma forma de avaliação, mas nada mais é como uma exclusão de alguma forma. Seria como incluir excluindo, num lado contempla as pessoas mais ou menos com deficiências leves ou mentais, por outro lado, exclui as pessoas que usam cadeiras de rodas, muletas entre outros.

Não é possível que um país quer erradicar o preconceito, que está numa “puta” campanha contra a homofobia, ter ainda enraizado dentro da sua cultura o “deficientefobia” é uma afronta dentro da luta do segmento. A presidenta Dilma deveria vetar o CONADE, pois é uma confradaria sem proposito ou fim especifico, a prova é as agencias de publicidade não respeitarem a lei de cotas e dizem, que não tem pessoal graduado para tal cargo. Como assim não tem, meu diploma é invisível? No mais, deveria ser pensado que o deficiente no mínimo, consegue fazer o ensino médio e deve ganhar um salario apropriado aquilo que estudou, pois essa visão empresarial, só mostra o paradigma social tão arcaico que chamo de medievalista.

Temos uma cultura monárquica, onde os “lords” adoram a ignorância para melhor governarem para seu bel prazer, assim, por exemplo, fazem um estádio ali, um campeonato de futebol aqui e o povo fica feliz. Nós não estamos de fora, essa Lei de Cotas só é um analgésico consensual, para melhor nos iludir. É perigoso demais nós cairmos nessas questões sem ao menos estudar elas, somente ouvi o galo e não saber onde ele está cantando, pois decisões estão sendo tomada as nossas revelias e nenhum deficiente sabe disso. Ainda defendo que a Lei de Cotas deveria ser especificada uma porcentagem de cada deficiência, por exemplo, 6% física, 6% auditiva, etc…se isso não fosse aprovado, deveria as empresas pagar 15% de seu lucro para alguns movimentos que lutam pela causa. Ora, a W. não contrata deficientes, a multa para o Olivetto era pagar 15% de seu lucro para os movimentos prol as pessoas deficientes e se voltasse a faze-lo, uma semana sem poder abrir suas portas. Radical? Não acredito que esse tipo de atitude seja radical, mesmo o porquê, não seria cumprido no mesmo modo, sob o motivo obvio que “reclamamos do preço do leite, mas votamos no dono da vaca”.

As coisas são difíceis, veja quanto tempo eu estou mandando currículo para as empresas (quase dez anos), e sou capacitado. Aliás, não existe isto de não capacitação, no mínimo, a nova geração de pessoas deficientes tem o ensino médio. Os empresários e empregadores, querem jogar no outro, coisa que a culpa é deles. Ultima entrevista que fiz, faz quase um mês e vai ter outra, quantas será preciso para saber se tenho ou não, capacidade de trabalhar? Logico que penso que ninguém obriga ninguém a nada, mas algumas camadas devem ser punidas para outras camadas enxergarem o fato. No mais, segundo a subpromotora do trabalho, eles procuram no CRTS, ou seja, eles procuram menores. É uma vergonha muito grande!

Parei realmente!

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Responses

  1. E ainda há os que dizem que “devemos flexibilizar a Lei de Cotas”, pois as empresas não podem ser punidas se “não há pessoas com deficiência capacitadas…”, e nós todos e todas continuamos sendo vistos pelo paradigma reabilitador e biomédico… SEM CID e SEM INVALIDEZ, para poder estar com chance de inclusão e inserção no mercado de trabalho… continue combativo e indignado. Lamentavelmente seu texto continua sendo um contexto Um doceabraço

    • =) obrigado Priof

  2. Amauri, conheço bem o que você diz, com a diferença que ainda não tenho certificado de Facudade, apenas cursos tecnicos, mais em nada facilita a minha vida, sou excluida do mercado de trabalho e pronto. Basta olharem o meu curriculum e saberem do CID Osteogenese Imperfeita. È ridiculo tudo isso que nos acontece. Seu texto foi um maravilhoso desabafo de coisas que apenas nós deficientes sabemos como é a situação. As empresas querem apenas deficiencias leves e que sejam pouco perceptivel aos olhos, e o restante que se dane, vivam da maneira que der com o apoio de um salario minimo do beneficio, que mal paga suas contas se vc não tiver o apoio da familia, fora que ainda perdemos a dignidade de nos manter, temos que ser sustentado pelos outros, pois quem vive de um salrio minimo???

    • Somos muitos Claudia, não desista!


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