Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 6 de junho de 2011

Sexualidade das pessoas deficientes 1 – Geral

Essa imagem deu muita polêmica na época, a descrição está no texto

Dês de quando minha comunidade foi denunciada no Orkut, nunca mais entrei no tema da sexualidade da pessoa deficiente. Era e é um tema muito importante para o segmento que envolve muitas coisas que vai além do ato, mas envolve muito nossos sentimentos e nossa maneira de ser e de sentir. Por que temos tantas duvidas e até, temos receio de se envolver nesses temas?

Para responder esta pergunta devemos olhar nossa cultura ainda muito conservadora e em alguns momentos, hipócrita. A comunidade Sexualidade do Deficiente foi uma das comunidades mais conhecidas dentro do Orkut, pois envolveu um tema que jamais ninguém debateu antes. Mas sabe o motivo da denuncia? Uma imagem do símbolo de acessibilidade com uma garota, que parecia está fazendo “sexo oral”. As senhoras beatas não gostaram da imagem e ameaçaram, como não faço nada que não seja da minha vontade, não tirei a imagem e o Orkut acabou cedendo a pressão e apagou minha comunidade. Sabe qual a realidade desse fato? A moral social religiosa que faz o ser humano, muitas vezes, regredir e não progredir. E isso podemos ver em tudo que se refere a sexualidade, pois a sexualidade em geral, é um tabu muito mal resolvido. Ora, o debate tem que começar com coisas básicas, coisa que abriga a sexualidade numa maneira intima e não numa maneira preconceituosa. Mas cuidado, a sexualidade é antes de tudo, afetividade e não só um instinto animal, pois antes de sermos animais biológicos, somos animais racionais. Então, não venham com: “temos que adaptar puteiros”, que não “rola”, mesmo o porque, isso agride a sua autoestima.

Por que agride nossa autoestima? Sempre achei que quem paga pra fazer, não tem a mínima competência pra ganhar alguém, tendo ou não deficiência.  E se fizemos o que a maioria faz, não teremos nossa autonomia em nossas próprias ideias, ou seja, sempre seremos escravos de opiniões alheiras. Mas o que a maioria dos deficientes, até melhor, toda sociedade faz é seguir os outros e nunca, absolutamente, nunca, faz o que sua consciência pede ou deseja. Ora, muitos de nós se colocam a margem da sociedade como se a culpa de sua deficiência fosse totalmente sua e, muitas vezes, se escondem em “analgésicos” para anestesiar a verdade. Esse papel fica em torno das religiões curadoras, ideologias que dão uma espécie de esperança, ideias que forjam  o que somos e o que temos. Tudo isso meus amigos, gira em torno da autoestima que é muito prejudicada por causa da cultura da estética perfeita, em torno do que fizeram um “gesso” impenetrável no conceito do belo. Mas o que é belo? O que é estética perfeita, se tudo humano é artificial? Existe um ponto interessante dentro do Gênese – onde o conceito ocidental se fez – que diz ser tudo criado por Deus, é perfeito e belo. Mas existe um porem nesta historia: o que é belo para o ser humano, é o mesmo conceito para Deus? Prefiro dizer que não sabemos o que o todo poderoso acha ou tem como beleza, pois os insetos não são um primor de beleza e foram criação a mesma coisa, ou, até mesmo o conhecido ornitorrinco. Por outras palavras, somos totalmente ignorantes na questão do belo e o conceito tanto da natureza, quanto a questão do belo para o poder divino. Nessa questão, não há tantos argumentos assim, somente a parte sensacionalista do caso que para sermos felizes temos que nos curar, ou na melhor das hipóteses, sonhar com essa cura.

Para começarmos uma discussão sobre a sexualidade, temos que nos analisarmos emocionalmente diante da sociedade e não adianta querer me convencer, que por sermos dependentes não temos o direito de nos analisarmos ou termos uma vida sentimental própria. Sexo tem a ver com sentimento, nós que temos alguma limitação, temos que olhar num modo mais amplo a questão. Por quê? Porque não podemos nos apegar num conceito social excludente e que até nos exclui, pois se nos exclui, não temos obrigação nenhuma de acatar ou absorvemos as suas ideias. Então, para que adaptar coisas inúteis que só vão servir para sermos escravizados? Pois o ambiente marginalizado somente dará mais ênfase do que a sociedade “acha” de nós, infantis por apenas queremos diversão, que com uma misera prostituta nos contentamos. Como disse acima, temos que ser nós mesmos e gosto muito de uma citação de Christy Brow autor do livro Meu Pé Esquerdo: “Se eu não podia ser como as outras pessoas, pelo menos seria eu mesmo, da melhor maneira possível“. Ou seja meus amiguinhos, se não podemos ser um Brad Pitt ou um Antônio Banderas, sejamos nós mesmos numa maneira que nossa deficiência, dá pra ser. Eu não sou um modelo e beleza, mas tenho meu charme pra Marley ué! (risos). Isso quer dizer que não faço nada que não tenho vontade de fazer – isso ficou evidente no caso da comunidade do Orkut – então não sou daqueles homens escravos de se aparecerem para os “outros” em concursos de siscagem.

Isso me lembra da personagem Luciana da novela Viver a Vida, que por muitos é um “marco” na luta pela inclusão, mas por mim em meu conceito, só ajudou a construir uma imagem deturbada de nós como volúveis, como mimados, como carentes afetivos, como tudo que não encaixa em um ser humano que só quer viver. Se você se identificou com ela, ótimo! Eu não me identifiquei e nem gostei do personagem em si, porque não tinha cadeira de rodas de tetraplégica, não tinha atitudes de tetraplégica, além de ter uma família de “contos de fadas” e uma atitude volúvel sentimentalmente, hora ficando com um, hora ficando com outro, que deu ênfase de colocar as mulheres deficientes no “rank” das fáceis e se muito, uma espécie de “bobinhas” que podem ser enganadas e – viva! – sexo fácil e de graça. Estamos falando de mulheres e homens que não estão preparados para amar e nem ser amados, mas que tem capacidade de serem amados e de amarem. Por que não estão preparados? Porque a cultura brasileira não está preparada, isso se reflete dentro da MPB, quando nas musicas o homem lamenta a perca da mulher, ou, que quando se tem uma, fica xingando ou querendo dar uma “escapadinha”. Será que sabemos o que sentimos? Será que não é uma condição de nossa cultura?

Temos ainda uma cultura escravagista e medievalista de escravidão mórbida, onde acreditamos num “messias” que descera a nós e nos salvar em nossa misera dor de sermos assim. Não sabemos lutar por nós mesmos, não sabemos “bancar” o que sentimos, sem antes prestar atenção o que os “outros” estão pensando. Como se dependêssemos dos outros para vivermos, pois pedir ajuda é uma coisa, achar que os outros têm que transformar sua vida em um paraíso na Terra, é outra bem diferente.  Não conhecemos a nós mesmos e o que somos capazes de fazer, e isso pega quando queremos discuti esses assuntos íntimos. Quando vamos falar de sexo, temos o habito de ficar com uma baita vergonha, porque se pensa que discuti isso e dizer os seus atos: mas meus atos só interessam para mim mesmos e a ninguém mais, porque eles são atos de importância intima. Existem pessoas que ficam dizendo aos “quatro ventos”, que faz maratonas de beijos em micaretas, o recorde seria 500, e isso me assusta. Meu susto não é moralista, pois segundo o cantor Lobão, nem mesmo “puta” beija na boca porque é uma coisa intima, tenho um extremo medo dos modernos e dos hipócritas subvertendo os valores pelo seu bel prazer. Aliás, a conversa é sobre o prazer que podemos dar uma “puladinha” para seu antônimo, a igreja cristã.

Poderia dar a vocês um artigo todo sobre essa relação entre a religião cristã e o ato sexual das pessoas que frequentam. Isso começa muito depois de Jesus Cristo, quando os imperadores romanos, desejaram tornar essa religião como verdade absoluta. Eu acredito que não exista verdades absolutas, muito menos um moralismo quase mórbido, dentro dos ensinamentos cristãos verdadeiros. Na verdade – e podem me dar milhares de versículos sobre isso, mas sei e li todos – não há nenhum registro verdadeiro se Jesus era casado ou foi casto. Na verdade nossa cultura é levada aos extremos, hora moralista demais, hora moderninho ao extremo de guerrilha. Verdade! As pessoas ficam tão horrivelmente “moderninhas”, que montam até táticas de combate, sempre num modo fascista de ser. Coitados daqueles que fogem, são massacrados verbalmente, é um verdadeiro “bullying”. Aliás, existe “bullying” nos dois lados, tanto nos moralistas, quanto dos “moderninhos” que atrapalham o desenvolvimento de algumas ideias. Mas dentro disso tudo existe a ideia limitadora que só podemos ser felizes, se conseguirmos a cura de nossos “males” corporais, e isso só é possível, se redimimos de nossos pecados e acentua nossa culpa diante de nossa deficiência. Uma pessoa que peca, é uma pessoa que trai a palavra de Deus dentro de sua vida segundo a teologia cristã, portanto, segundo eles mesmos, nascemos deficientes por causa de tal falta ou falta de nossos pais por alguma coisa que tenham feito. As religiões na verdade, escondem algo ou querem subverter algo, para explicar o que ninguém sabe dizer; é na verdade, um consolo paternal para não questionarmos suas doutrinas e ensinamentos. Mas que é muito prejudicial e remete a culpa de sermos assim, de estamos sempre se “policiando” de atos tão naturais como comer ou ir ao banheiro. Graças a esse pensamento, que séculos perdurou, éramos queimados nas fogueiras da inquisição, por causa de nossa má formação que era coisa do demônio. Onde está redenção nesses casos? Até hoje, se quisermos ser padres, temos de pedir autorização do Papa para isso, e só viramos, se o mesmo aprovar.

Não vamos crucificar a religião, pois o meio cientifico acadêmico, existe muito preconceito e uma série de limitações consensuais.  O conceito de reabilitação é ainda acentuar a limitação das pessoas deficientes e dizer a elas que devem se conformar com isso, na matéria da sexualidade, isso não é posto como um meio de reabilitação e nem é estudado como uma forma de melhorar a autoestima dessas pessoas. Veja um exemplo, a maior entidade da América Latina de reabilitação, que se gaba de ter um programa televisivo para arrecadar dinheiro, não tem nem ginecologista e nem urologista. Talvez tenha urologista somente para as questões de infecção, mas nada de orientação na parte sexual das pessoas deficientes, onde dizem não fazer parte da reabilitação. Como não faz parte da reabilitação? Ainda, no meio acadêmico, não se tem um estudo de deficiências congênitas na parte da sexualidade, tanto fisiológicas, como psicológicas e isso reflete até nas revistas especializadas. Nestas revistas ou em trabalhos, as pessoas preferem muito mais, estudarem os paraplégicos ou os deficientes mentais. Eu, por exemplo, tenho paralisia cerebral onde ao nascer, a demora, fez com que eu perdesse a respiração e não se oxigena o meu cérebro. Estou numa cadeira de rodas, mas não sou inútil. Pior dos preconceitos é o acadêmico, pois ele forja argumentos que de repente, cria um mundo de “faz de conta”. Tenho medo de criar em mim um sentimento de querer criar um mundo melhor, pois o ser humano é o que ele é e pronto.

Tenho muito medo de me conformar, do segmento se conformar, do mundo fazer como sempre fez, esconder pessoas como nós. Como disse em um texto meu sobre Foucault, o ser humano, principalmente a partir da Idade Média, separaram o que é anormal e normal no conceito aristotélico. Ou seja, vamos dizer que Joãozinho não é o que todo mundo espera que ele seja, nasceu deficiente físico, portanto, não vai ser um menino como os outros e isso agrava a questão. Por quê? Joãozinho não tem um viés de menino perfeito, porque todos o olham com rosto de velório, olham seus membros que não funcionam como os outros meninos, e ai pensam: “Coitada dessa mãe! É um fardo que tem que carregar!”. Alguém pensa no sentimento de Joãozinho quando crescer ou até mesmo quando vê outras crianças, de não poder brincar e ser como os outros? As entidades dizem a Joãozinho, que ele tem que se conformar, limitam ao garoto a só olhar os outros a brincarem. Essas entidades dizem a Joãozinho que nunca vai andar, que nunca vai namorar (toleram algum namoro ou romance, mas tem o incrível conceito, já que se gabam de levantar a bandeira da inclusão, que não vai passar disso), que nunca vai ter uma vida além do colo da sua mãe. Joãozinho não pode ter uma vida além dessa que ele vive, mas num certo dia lá pra seus meados dos 17 anos, o garoto que não é garoto – também não é homem feito por razões psicológicas – se apaixona por uma garota linda, talvez tenha a mesma idade, talvez ande de cadeira, talvez seja cega, ou surda, muletante, ou até mesmo, anda normalmente. Mas o que vamos ver é o dessabor de uma forte luta de Joãozinho, porque até a família vai “encher o saco” na questão, pois o ultimo sujeito que será ouvido, é o Joãozinho e isso é fato. Pior é Mariazinha que é mulher, num mundo que ainda se vive uma realidade patriarcal (que muitos vão esfregar na minha cara o famoso maio de 1968, onde mulheres queimaram sutiãs, mas não passou de um momento hardcore onde o capitalismo teve mais mão de obra barata e sexo fácil e de graça), onde se continua o pensamento que a mulher tem obrigações em casa e muito menos nela e pior de tudo, o homem continua o provedor. As cobranças são muito maiores quando se tem deficiência, e por isso, se Mariazinha não amar verdadeiramente Joaozinho, não dura nem meia hora.

Tem outra coisa muito seria, se Mariazinha é andante, a família vai atormentar porque namora um cadeirante, se for cadeirante, vai ser pelo mesmo motivo. Essa cultura patriarcal (vulgo machista) tem escravizado tanto, que você corre o risco de apanhar de um irmão ou de um pai, porque há uma suspeita que tenha feito amor com quem ama em pleno século XXI. Imagina sendo deficiente, se há suspeitas, Joãozinho tem algumas alternativas: ter seguranças particulares, ter um bom seguro de vida ou o que a maioria faz, a delegacia da esquina está pra isso. E tem outra coisa, por que Joãozinho não pode fazer com Mariazinha, se o irmão e o pai dela fizeram? Pois segundo a logica, a não ser que mudou, a mãe e a cunhada de Mariazinha eram irmãs e filhas de alguém. Fica aquele papo que a filha do vizinho pode, mas a minha não pode. Isso não fica um papo meio hipócrita? Aliás, esse papo dá mais ênfase na minha teoria que o ser humano não é democrático e que temos lá no fundo, uma alma nazi, rejeitamos o que não nos interessa como necessário; não é biológico, é uma praga sociocultural, que Hitler só pôs um som hardcore. Não estou dando razão para o “tiozinho do bigodinho”, muitos de nós foram mortos apenas porque ele achou que éramos sofredores eternos, o que estou dizendo é que não somos isentos dos mesmos preconceitos e discriminações. Não vamos ser cegos na nossa hipocrisia, e achar que só porque somos do lado aliado, somos quase santos; pois não há ser humano no mundo que não tenha a vontade de impor suas ideias, e isso é fato. Mas voltarei neste assunto em outro texto.

Talvez a humanidade tenha tomado um Prozac made USA, pós-guerra a humanidade acreditou em uma liberdade, que a tecnologia era para o bem humano, que a igualdade reinaria na face da Terra. Será mesmo? O homem forjou um antidepressivo que mostrava mentiras necessárias, como alcançamos a lua (será?), alcançamos o genoma (será?), alcançamos os átomos, mas não alcançamos nosso ser em absoluto para respeitar o outro. Não é conhecer a nós mesmos, quem não se conhece é um alienado por completo, é ver o outro como ser humano como nós; ver a aparência, mas num outro ângulo e não num ângulo “prozaquiano” das grandes corporações de entretenimento do mundo. É incrível como eles não deixam o ser humano ver sua vida escravizada, que você tem hora pra trabalhar, você tem hora pra rezar, você tem dia pra ver sua namorada, você tem hora para sair e não é qualquer lugar, um ser humano pós-moderno é essencial ir à balada. São coisas essenciais ao ser humano livre: ir a balada, ir ao futebol, ir  micareta, ir ao forró, ir ao baile funk, se não fizer isso, irá morrer de depressão. Caro leitor, você acha que o deficiente pode ter autoestima num mundo desses? Ele terá um bom relacionamento sexual? Ele será respeitado em suas decisões?

 Será que somos tão vulneráveis ao mundo real que precisamos de Prozacs para viver? O mundo real ainda nos assusta, nos deprime na sua miserável mediocridade, porque não admite a pluralidade de ideias e pessoas. Não admitimos que o outro seja feliz, não admitimos em dizer que o padrão humano é limitado, que o problema não é o amor, ser deficiente ou ser homossexual, ou ser negro, ser judeu, etc. é admitir a pequenez que é o conceito humano. Conceitos se vão – cada época se tem um – mas nossa natureza é a mesma, porque o erro humano foi padronizar, foi fabricar imagens de seu próprio padrão. E esse negócio de sexualidade tem a ver com imagens que fabricamos – ou não é assim? – das nossas fantasias ou conceitos, que aprendemos em nossa sociedade. Mas talvez tenha escrito muito, tenha escrito pouco, mesmo assim, não se esgotara o assunto.

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Criticas e sugestões: amaurijuniorbr@ig.com.br

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