Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 17 de março de 2011

Deficiente só pode ser Porteiro

Cadeirante no buraco

 

Fiquei chocado com um e-mail que recebi de um grupo virtual Ciadef que dizia assim:

Assessorando nosso cliente, buscamos:

PORTEIRO

Salário: R$ 952,60 + VT + VR no local +Assistência Médica + Assistência odontológica + cesta básica.

Formação Escolar: 2º grau completo.

Atividades/Requisitos: Experiência de 2 anos de carteira na função e que seja oriundo de fábrica.

Horário e Local de Trabalho: 08:00 ás 17:00 – Nova Iguaçu – RJ.

Aos interessados enviar CURRÍCULO ANEXO AO CORPO DE E-mail para mariana.rh@taopromocoes.com e no assunto colocar o CÓDIGO PORTEIRO.

Será que vi bem ou eu bebi limão com cerveja e fiquei intoxicado? Quer dizer que estamos sendo contratados para porteiros no meio na tão grande violência do RJ? Para mim isso seria o caso do Direitos Humanos (orgão totalmente humanista pelo que estou vendo) entrar em ação, pois não vejo por melhor das hipóteses, um deficiente ser um porteiro. Ainda que a “merda” não seja tão grande – já que fizeram no meio do jardim – chutaram na maldade dizendo que precisa de experiência. Só se for os coitados do ceguinhos que não enxergam nada e não vão ver tiroteiro no meio do seu horário de trabalho. Por mais que eu procuro uma brecha, não encontro como e nem o porque do cara fazer isso.

 

Isso reforça mais ainda o que eu sempre digo, que deficiente só serve para servir de porteiro e coisas do genero, porque para trabalhar do que sabe e no que gosta, está muito dificil. Eu não me vejo como porteiro, infelizmente ou felizmente, fico com meu dom de escrever dentro do meu gostoso lar. Mas isso é o reflexo dos anos sem preparar a sociedade para receber o diferente, que na maioria dos casos, nem ao menos aprende a pegar um prato de comida. Não meus amigos, não é exagero é a pura realidade. Toda realidade dos “fatos” está nas premissas do mundo, porque não somos excluidos, nós nos excluimos. Ou vocês acham que não nascemos nessa sociedade? Pelo que sei, a única humanidade que existe é essa e nascemos nela, gostamos ou não.

 

Mais uma vez vou ter que usar o que sei, desculpe aqueles que não entendem e os que não querem ententer, mas é importante para um desenvolvimento do que estou dizendo. Vamos pegar o que diz o filósofo contenporaneo Foucault – que fiz uma ligação no texto Vuvuzelas do Preconceito nesse mesmo blog – onde analisei que o preconceito é um caso de discurso e melhoro porque estudei mais sobre esse autor. Quando dissemos em preconceito esquecemos onde ele vem ou porque ele vem e não adianta achar que é falta de informação, pois não é por ai a anallise a ser feita. Mesmo o porquê, milhões de pessoas tem a informação que cigarro mata, que bebida da cirrose e que drogas dão efeitos colaterais, e nem por isso as pessoas param de fumar, beber ou usar drogas. Nós temos o preconceito por causa da idéia pré-estabelecida da estética perfeita, ou seja, nós herdamos a idéia do perfeito com regra social; é uma questão muito mais cultural do que biológica e que gera, e gerou muitas lendas, onde o inperfeito era um monstro que poderia te devorar. Isso seria uma forma de dominio, porque você fazendo esse tipo de discurso, se desestabiliza o corpo social e cria um discurso que exclui e isso é regra. Daí que os moralistas na década de 60 e 70 do século passado, internava seus filhos em instituições de tratamento mental, por causa dos discursos desses contrários do vigente. Esses instituições são uma maneira de aprisionar as pessoas por causa que não se encaixam na maneira de pensar e nem uma aparência estéticamente aceita.

 

Isso não mudou muito – não no meio das pessoas deficientes – quando nos deparamos com mães e familias que internam a pessoa por causa de possiveis “chacotas” da sociedade, Lembro que nesses dias li um texto no site Vida mais Livre (Livre de quê?), da presidenta da I.Social Andrea Schwarz intitulado Pessoas com Deficiência: um brevissimos panorama histórico-social, onde ela analisa os avanços na área, que ao meu ver, não contem nenhum. Por que não? Porque pelo simples fato que as pessoas com deficiência não estão sendo incluidas, por causa da velha ideologia que nós temos que ser cuidados e assistidos. Daí vimos um outro discurso – muito mais nocivo para quebrar o primeiro – pois mostra a fraquesa das pessoas deficientes perante o mundo lá fora que até mesmo os meus pais tem. E aí instituições aproveitam desse discurso e ao invés de promover a inclusão, simplesmente, promove a exclusão para elas serem dependentes dessas instituições. Então quando o Governo do Estado de São Paulo promove novas vagas para a instituição estatal Estação Especial da Lapa, não estão promovendo a inclusão das pessoas deficiente e sim, estão abrindo novas brechas para as mães que subprotegem seus filhos, internem eles em algo para se sentirem seguros. Eles (os pais) não estão pensando em seus filhos, mas em seu próprio bem-estar.

 

O caso do Teleton da instituição AACD é um pouco mais complexo, mas entra no pensamento do discurso do poder foucaultiano. Por que entra? Quando o Dr Renato Bonfim idealizou a instituição – assim disseram algumas pessoas que conviveram com ele- era para promover um tratamento digno a essas pessoas que ele (Dr Bonfim) tinha trazido da Europa, onde estudou, na época quando fundou a instituição. Virou uma associação e muitos poderam dar o seu palpite diante a administração. Mas o Dr Bonfim faleceu – como todos nós vamos um dia – e ficaram os empresários que dizem fazer um trabalho voluntário de administração, na qual eu duvido que saibam algo sobre deficiência pelo que vejo. O que vejo? Médico dizendo aos seus pacientes que nunca vão andar, que eles nunca vão poder ter uma vida independente, que aos 14 anos dão alta dizendo que não podem fazer nada. Duas situações que ouvi de ex-pacientes da AACD, que profissionais como TOs loucos por promoções, dizem as pacientes que nunca vão escrever, mesmo que as mães afirmem ao contrário. Outros ao dizer que são coordenadores de movimento aos médicos que estão consultando, esses torcem o nariz dizendo “- Como deficiente pode cuidar de outro deficiente?!” ou nas melhores das hipóteses, duvidarem que o deficiente pode noivar e pode casar. Fora que no dia do programa televisivo, não podemos de jeito nenhum (como movimento) fazer nada porque as vans adaptadas (o serviço municipal ATENDE) está, vamos dizer assim, fretado para o evento. Então, deficiente nesse dia ou vai no Teleton, ou vai na F1. Mas o problema é o discurso que se tem para fazer a pessoa não ser nada, pensar que sem a instituições como essa, o deficiente não pode viver. Seria mais ou menos, o que fazem os seguimentos de esquerda marxistas e as religiões fanáticas.

 

Podemos fazer uma ponte entre esse pensamento de Foucault – que tudo depende de um discurso de poder graças a nossa cultura, muito mais do que nossa condição biológica – e o pensamento que acabei de expor e até do e-mail que recebi do emprego. Porque imagina que se na própria instituição promovem o preconceito “escancaradamente”, imagine enpresas que estão muito mais interessadas em cumprir a lei e não pagar a multa? O pensamento aí contido no discurso tanto popular (senso comum) quanto de alguns profissionais (acadêmico), é contaminado com o discurso medieval que excluia tudo que era diferente por causa do pensamento do cristianismo vigente (com pitadas platônicas aristotélicas). Perfeição é um fato cultural e não a condição biológica, pois históricamente, os espartanos não eliminavam as crianças ditas imperfeitas por causa dos corpos, mas por causa de sua cultura de guerrear sempre. E ao meu ver, não mudou muito esse discurso que ao longo dos séculos, vem impregnado a cultura ocidental. Qual o modelo cultural grego mesmo imbutido nas estatuas? Ou até mesmo, nas principais obras literárias e filosóficas, daquele povo em tempos antigos.

 

O discurso vigente é mais ou menos esse: “Olha, eu te pago R$ 952,60 pra ser porteiro – porque foi a única função que encontrei pra vocês que nem sabem limpar a bunda no banheiro – e você me livra da multa que me obriga a contratar um bando de gente que nem sabe fazer nada e ainda, fica enxendo o saco por ai dizendo que somos malvados. E de quebra, te dou um monte de beneficios para você trabalhar e eu ter uma imagem de bom mocinho e você de ser humano livre”. Entenderam como funciona? Então é muito mais produtivo ter um laúdo médico – quando os postos de saúde nos dão – do que tirar um diploma com nosso próprio esforço e dedicação. Pelo simples fato que junto com nosso curriculo – nas maioria das vezes num modo ilegal por invadir nossa privacidade – temos que mandar nosso laudo médico e no curriculo, nosso CID (Código Internacional de Doença).

 

Outra coisa, faltou eu comentar o texto da senhora Andrea que está no site que existe alguns equivocos que alimentam a ignorancia e vimos milhares de e-mails como o que está acima descrito. Segundo o escritor que trabalha na área Otto Marques da Silva em sua Epopéia Ignorada – que conta um pouco a história das pessoas com deficiência dentro da sociedade humana – não foi no século XII que se começou a ter instituições para abrigar pessoas com alguma deficiência ou deformadas. Mas já no século IV, havia o hospital de Cesaréa na Capadócia, hoje Turquia, criado por São Basilio O Grande (329 a 379), que cuidava de pessoas cometidas de alguma doença ou deficiência fisica. Portanto há no texto um erro grave, pois as instituições para abrigar pessoas deficientes já existiam muito antes do século XII e era muito comum, sendo uma base muito profunda dentro do cristianismo histórico, ter-se a caridade como um ponto chave dentro desses meios. O que começa no século XII – que o próprio Foucault se apega para fazer sua teoria histórica das instituições e a importância delas até hoje – é o meio filosófico e religioso, para saber o que era sano (perfeito mental) e o insano (imperfeito mentalmente). Era o começo da santa inquisição patristica e não era muito um meio humanistico – já que a igreja cristã dessa época, se corrompeu por causa do poder vigente – que estabelecia o que era aceito como comportamento (ser um cristão devoto e ter atitudes pacificas, ou seja, um perfeito alienado) e o não aceito (dizer coisas desconexas com o que era obrigação dizer e fazer na época como sendo uma atitude “cristã”). Daí alguns deformados entravam na categoria de possuido de algum espirito mal (demônios) ou como um castigado de um pacado qualquer (dos pais ou de outra pessoa da familia). Mas em nenhum momento se diz que há um começo de instituições no século XII, e pelo que vejo sempre, não houve um fim ou uma abertura no século XX.

 

Não houve nenhum avanço dentro da área de inclusão, as coferências descritas pela senhora Andrea, são por mim ignoradas porque se discute muito e se faz pouco na questão da tão endeusada – só falta ser canônizada para ser santa – Lei de Cotas. Não se parou de ter instituições por causa delas – como se lê no meus relatos de ex-pacientes – e não se tem nenhuma outra visão sobre nossa pessoa. O que eu vejo – que muitos também veêm – é tudo na mesma, coisa que as instituições aproveitarem a ignorancia dos pais e familiares para dominar e passar uma imagem, que o deficiente só viverá, se for naquela instituição. Eu, por exemplo, depois que parei de ir para AACD, melhorei 90% por causa que não tenho ninguém dizendo que não posso pegar um copo d’água, que não posso namorar, que não posso casar, que não posso ter filhos, que se eu ensinar algo sobre qualquer coisa histórica ou filosófica, eu vou confundi a cabeça do meu amigo. Como posso acreditar na bondade humana, se eu só vejo esse tipo de coisa? Ainda “cagaram” em cima da Lei de Cotas, quando diminuiram de 10% para 5% com a “merda” da desculpa, que não tinha mão qualificada para preencher as vagas. Mas a “bosta” só ficou maior, quando inventaram que só vai trabalhar se você for qualificado (isso já foi dito), se for apresentavel (ter boa aparencia e ter um sorriso propaganda de pasta de dente) e o melhor, o carro chefe de toda essa “cagada” é que além de ter experiência (não temos nem emprego, quanto menos experiência), de sermos “andantes” e não “cadeirantes” (daí é maior demonstração que a Lei não vai funcionar sem antes, estipular porcentagens para cada deficiência) é ter o laudo médico ao invés, isso é bem claro tanto em empresas particulares quanto empresas estatais com seu concurso, de termos um diploma. Porque o médico que fizer o exame – não precisaria, já que existe um laudo médico – vai determinar o que o sujeito pode ou não e determinar sua função, daí quem manda o salario e o posto escolhido é o médico.

 

A duscussão não paira diante da Lei de Cotas, não paira ao redor da acessibilidade, não paira diante de coisas que alguns “imbecis” querem colocar. É que não vamos ter abertura nenhuma se as pessoas aplaudirem resoluções idiotas como esta, como se ela fosse a soluções dos problemas das pessoas deficientes, pois a discussão é muito mais ampla e muito mais complexa. É tirar o Zezinho Cagado e Mijado lá da casa onde é preso – não por maldade da familia, mas uma inteira ignorância – e levar ele pra rua, viver, comprar, sorrir, namorar, beijar muito e ser feliiz. E o mais importante, é ter um trabalho digno com o qual ele pode ser util dentro dessa sociedade e não ser sustentado, ser humilhado com aqueles que querem jogar culpa do rombo da previdência, a nós. No mais, não vejo outra auternativa do que votar nulo e tirar esse bando que não cogita de maneira nenhuma, nosso nome nos discurso (nem mesmo a presidenta).

 

Sinceramente, não quero ser carregado num carrinho de carga para pegar um avião, prefiro muito mais um corredor ou se pêgo no cólo. Prefiro muito mais, botar a periferia de São Paulo no patrimônio cultural do que a Avenida Paulista que não tem nada, não é util nem para fazer turismo, quanto mais para trabalhar. Trocando em miúdos: acordem antes que inventem mais uma “bosta” ideológica para acreditarmos. Por hora, fico com um café e a experença que um dia tudo mude, sempre lutando e talvez, precisando de um antedepressivo com as perdas de amizade.

 

Se gostaram desse texto, comprem o Liberdade e Deficiência ou mandem um e-mail para mim: amaurijuniorbr@ig.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Categorias

%d blogueiros gostam disto: