Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 20 de novembro de 2009

TAXI, LIBERDADE E…

Umas das coisas que aprendi com as palestras do professor e filosofo Paulo Guiraldelli Jr é que filosofia se faz no cotidiano e nada mais do que isso. É o que tento passar em meus textos, sempre relato minhas experiências para quem sabe, sirva de exemplo para alguém. O titulo pode parecer que estou falando daquele filme Taxi Driver com Robert De Niro, onde ele faz um veterano que participou da Guerra do Vietnã e se revolta com os inúmeros vícios que tem que conviver quando trabalha de taxista. Não, não estou escrevendo sobre.

Minha aventura (digamos assim), começa quando minha noiva disse que a irmã dela me convidou para ir a festa de aniversario. Bom, meu pai viajou e voltou naquele dia e estava cansado; sempre tive curiosidade de saber como funciona esse tipo de serviço e resolvi pedir um taxi e fui à festa de taxi, voltei também de taxi. O mais importante é eu ter ido e voltado sozinho e mostrado que as pessoas com deficiência podem e devem sair sozinhas, não como uma coisa externa, mas as coisas internas. Não podemos fazer nada para nós se não conhecemos e não fortalecemos nós mesmos, pôr dentro de nós as almas tem e existem, para serem descobertas; seria como dentro da psicologia o nosso lado sombra. Não sombra como algo maligno, mas sombras como algo que possa reverter em nós como algo que pensamos ser bom, mas a bondade e a maldade são um só, resta nos escolhermos.

Quando fiz a escolha de ir de taxi não tive medo, tive perseverança que iria conseguir, meu espírito se encheu de fogo, pois o fogo pode destruir e ao mesmo tempo, regenerar as coisas. Todos os meus temores foram queimados para existirem outras forças e outros sentimentos, talvez dominando meu fogo interior, me tornando o Senhor do Fogo. Mas por que o fogo? Porque dês de quando o ser humano dominou a arte do fogo, ele dominou a arte de se purificar interiormente; quem tem medo, não sabe dominar seu fogo interior e não sabe que todo ser humano é parte de Deus. Não somos puros ainda, como crianças que estão aprendendo a andar, mas podemos purificar através do viés do fogo. Mas estamos falando de inclusão, então podemos fazer a seguinte pergunta: o que tem a ver isso com a questão da inclusão? Muito fácil responder, pois a inclusão é algo muito mais profundo do que construir vagas em estacionamentos, colocar transporte adaptado, meras rampas e acessos diversos, é uma mudança de atitude com sua alma; as pessoas com deficiência seja ela qual for, tem que se purificarem no fogo, tem que nos basear em nós para fazermos as mudanças.

Por que estou dizendo isso? Não se reivindica nada se não fomos fortes o bastante para impor nossa posição, não recuar com meras chantagens emocionais, mas se for preciso, até reivindicar na justiça. Mas para isso tem que ter força e vontade e fazer o que tem que fazer, se as pessoas gostam, ótimo; se as pessoas não gostarem, não podemos fazer nada. Isso deve ser entendido na lei de nossa consciência, se temos necessidade de se impor perante algo que nós queremos temos que impor nossa vontade e não deixar que as pessoas nos vençam com chantagens emocionais. Nós pessoas com deficiência não podemos nos render aos caprichos de sonhos e ilusões feitos de estereótipos montados a séculos, porque não, a milênios. Como podemos destruir esse estereótipo que foi montado a milênios? Ascendendo essa chama que consome tudo aquilo que não nos serve mais. Dominar nosso fogo interior, nossa chama espiritual que é preciso para entender além da realidade.

O meu poder de mudar minha realidade não está no telefone, não está no carro que nos transporta, está em nossas escolhas que estão em nossa frente. Mas quem poderá ajudar nessas escolhas? Se não encontrarmos nossa força ninguém poderá conter essa força, mesmo dentro de inúmeros movimentos no seguimento, não vamos conseguir levados pelo medo e inseguranças desmedidas. Não podemos ajudar as pessoas se não ajudarmos a nós mesmo, mudar aquilo que mais está entranhado no senso comum, porque estas coisas que nos condenam ao exílio dessa sociedade e é que mais temos que queimar. Como que querem que as sociedades nos aceitem se o próprio deficiente se isola da sociedade? Não venha dizer que a culpa é da família, pois essa sem trocadilho, é uma “muleta” para os aleijões se apoiarem, mas o pior aleijão é aquele da alma, que fica inventando desculpas (muletas), para não reagirem e não tiverem o trabalho de sair da “saia” das suas mães.

Muitos movimentos não preparam suas lideranças com as leis e com os deveres que as pessoas com deficiência devem pensar, não preparam suas lideranças para comandar e dar o exemplo para as outras lutarem, não beber até cair e entregar tudo a Jesus, mas entender que temos que fazer aqui, agora. Muitos desses movimentos são extensões da igreja apostólica romana, são mais teológicas do que propriamente, luta para os direitos das pessoas com deficiência. Mas por que isso? Porque não estão preparados, não ascendeu o fogo da alma deles, não acenderam a chama de purificação e força que cada espírito onde Deus colocou para tomarmos nossas escolhas (acredito que daí vem nossa semelhança com o Criador). Não podemos mudar nenhuma política, não podemos mudar nenhuma religião e não vai ter jeito se o ser humano não mudar interiormente, pois a verdadeira inclusão está dentro de nós mesmos e temos sim que destruir, temos sim que guerrear e mostrar que mesmo em Hiroshima, onde houve tantas mortes e contaminação radioativa, nasceu uma rosa, a rosa radioativa de Hiroshima.

Minha atitude não é de exemplo, é uma atitude que me senti bem, é uma atitude para mostrar minha vontade perante as pessoas, é uma atitude de garra e vontade. Como se tivéssemos que tirar do próprio “inferno” (a incapacidade), energia para construir nosso próprio céu (a consciência limpa e em paz). No filme Matrix, Neo tem que fazer as escolhas e se fizesse errado (que julga por si como certo), poderia afetar na luta, na guerra entre as maquinas e os humanos. Nós deficientes, intimamente temos que travar uma batalha entre nós (nosso espírito “eu sou”), e o que nós somos moldados (a mascara social “o eu social”), com essa batalha intima devemos ascender essa chama, temos que ser Senhores do Fogo intimo, senhores de nossa capacidade de mudar uma realidade ilusória que a sociedade tanto quer acreditar. Quem poderá denunciar um buraco no ponto do ônibus? Quem tem o pleno interesse moral e ético de denunciar que alguém parou na vaga das pessoas com deficiência nos estacionamentos? Quem tem a obrigação moral de respeitar a liberdade de cada um?

Outra coisa, quem é vitima de preconceito nunca poderia ter o mesmo em seu coração, nunca poderá apoiar isso. Quem tem preconceito é porque tem medo, o medo nunca é sapiência de ser o que se é, o medo trava o “sentir” do nosso verdadeiro “eu”. Cautela é a sabedoria de saber quando e como agir, mas o medo não é cautela, o medo é a ilusão de que aquilo não vai dar certo, que o que mostram é a realidade e nem mesmo sabemos o que é realidade. A realidade tem a ver com a verdade que tanto Cristo nos mostrou, se conhecemos a verdade de nosso espírito acendendo a chama de nossa realidade, as mil realidades que temos só vão ser construídas com força e garra. Então quando temos o preconceito, somos envolvidos com medos que só são realidades ilusórias que só existem em nossa mente condicionada a criar sempre problemas, nunca soluções. As verdades não são descobertas com missas, não são descobertas com livros, não são descobertas com filmes, são descobertas com nosso conhecimento de nós mesmos e de nossa capacidade de escolhas.

Não se conhece lendo livros, se conhece tendo a capacidade de escolher que ninguém me deu, seja no movimento, seja em qualquer um. Essa capacidade foi adquirida por mim pelo poder que minha mente despertou e a chama que em mim acendeu, essa chama faz de mim o Senhor do Fogo, faz de mim o fazedor de escolhas. O que você vai escolher?

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Responses

  1. Ju, querido Amigo

    Ao escrever este artigo, parece que você leu meus pensamentos e também sentiu o que estou passando, assim como milhares de cadeirantes como nós.
    Sou sua fã e admiradora, já lhe disse e repito.
    Obrigada por ser meu Amigo!

    Beijãoooo,
    Lu


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