Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 9 de agosto de 2009

DEFICIENTES, UNI-VOS!

eagle_incictusNo Manifesto Comunista, Karl Marx, fecha com a frase “trabalhadores, uni-vos” (coisa que nem os marxistas brasileiros sabem), mas que achei interessante por no nome de meu texto. Por quê? Porque em tempos de união de todo o mundo pela internet, seria importante por igual, termos uma união entre as pessoas deficientes perante as atitudes viciadas da sociedade “démodé” brasileira ou seria melhor chamarmos de decadente?  Por que chegamos a decadência social e humana em tratar pessoas deficientes como crianças?

Estou lendo o livro Os Deficientes e Seus Pais do psicólogo Leo Buscaglia, que diz que vários pesquisadores norte-americanos constataram que as crianças com deficiência que não está sendo estimulada não desenvolvem um comportamento “positivo” dentro do meio, sendo estimulados vários fatores “negativos”. Quem estimula esse lado negativo ou positivo dentro da sociedade? Segundo os pesquisadores, a própria família do deficiente. Pelo simples fato que as pessoas deficientes terem, em toda sua vida, mais contato com a família do que as outras alas da sociedade, como a escola que tanto aqui no Brasil, precisa ser reformada no conceito tanto moral, quanto no conceito de se reformar a maneira educadora que ainda é arcaica. Tanto é que as universidades e faculdades de medicina ainda não têm um treinamento sério quando uma criança nasce com deficiência, assim criando inúmeras lendas que a pessoa vai depender da família pelo resto da vida que é uma coisa determinista e não sabemos se ou não vai ter essa dependência. Isso cria e sempre irá criar um conceito errado dentro da família e principalmente, os pais vão criar um medo e sub-proteger esse filho, fechando ele em “seu” próprio mundo. Por que isso? Porque o mundo deles é seguro, não fará que as pessoas machuquem seu pobre filho deficiente e amarra essa idéia, mas no mesmo livro diz o psicólogo que vários pesquisadores também concluíram que tratamentos em grupo são importantes para o contato com outras pessoas.

Mas acontece que aqui são distorcidas muitas coisas, não se pode retrair a parte intelectual fazendo com que ele só supere com o físico, não podemos, na maneira que se faz aqui, basear que a pessoa com deficiência física não sabe pensar. Para a maioria é assim que se procede, ou o deficiente supera seuscomplexos (que muitas vezes nem são superados), para ficar fazendo trabalhos manuais que pouco irão lhe educar e sim, aumentar sua ansiedade e dar a ele um sentimento que nada irá ajudar a sociedade e nada irá fazer no qual a sociedade não quer que ele faça; ele tem de ser a alegria que essa sociedade não tem, a lembrança meio que malévola, que somos fracos. Há uma questão muito interessante lendo um dicionário de simbologismo, vejam:

“O aleijão nos mitos era visto como sendo um ser de sabedoria ctônica e sua deformidade aparecia como sinal de iniciação. A sua imagem encontra-se vinculada a dos heróis e a das pessoas que possuem um destino incomum, a exemplo dos cabiros, os filhos de Hefesto. Essa característica parece ser o resultado de uma necessidade de sobrepujar a deformidade física. Os ferreiros, assim como os carpinteiros nos mitos, quase sempre aparecem retratados na imagem de aleijões.”

Uma inteligência ctônica é uma inteligência subterrânea, misteriosa que só restava aos deuses que viviam no mundo dos mortos as pessoas deficientes têm uma inteligência misteriosa que só os iniciados o têm. Uma inteligência que está entre os dois mundos, porque para os gregos antigos, os deficientes eram filhos de Hefesto o deus coxo, o deus rejeitado pela mãe, o deus imperfeito e ao mesmo tempo, um deus que tem sua importância já que faz as armas dos deuses; ele apenas fica no vulcão Etna e forja o que eles precisarem, até fabricou o trono do seu pai Zeus e a coruja mecânica da inteligência de sua irmã Palas Atenas. Ora, ele um deus coxo, forjou o símbolo do reino do Olimpo de seu pai, forjou o trono que Zeus ostenta sua soberana aos deuses e aos homens, forjou a inteligência que era tão peculiar em sua irmã querida Atenas, que não se casou, porque Palas Atenas não quis a ninguém.

A imagem da deficiência é veiculada na do herói, aquele que foi iniciado e pode lutar com a vida, ele forja suas armas e forja as armas dos outros; é veiculado como um destino incomum do dito “imperfeito”, então os deuses castigam com um destino de imperfeições, não mais és humano, és um castigo que caiu em nossa família, assim diz toda família de deficientes. Mas os heróis superam as provas, como Hercules, que para encontrar sua família no mundo de Hades, tem que superar sua agonia de ter matado seu lado feminino e seu lado criança; o deficiente não tem esses dois lados, porque ainda é um oráculo para a humanidade ver que está exposta a fatalidades, a uma imperfeição que lhe remete a dependência, é o lado cruel dos deuses. Essas características servem para sobrepujar a deficiência, ir além para não barrar na imperfeição, ir no âmago do medo de sermos imperfeitos e de sermos limitados. Os ferreiros e os carpinteiros mitológicos, eram deformes, eram sem anatomia de locomoção, mas podiam formar armas e armaduras aos heróis.

Hoje não é muito diferente, onde os deficientes eram isolados e mortos, somos trancados em locais para “forjar” as armas que os heróis lutam, dá força para a humanidade lutar e não desistir, mas, ao mesmo tempo somos mortos nos nossos conceitos e nossas vontades de vencer e termos um futuro bom. Parafraseando o orador e senador romano Cícero, até quando devemos agüentar isso? Até quando devemos sentar numa cadeira e nos contentarmos em fazer trabalhos que não remetem ao nosso crescimento? Ate quando vamos trabalhar por esmolas e ainda sim, sermos trancados em depósitos que mais nos fazem ter lavagem cerebral e nos fazem regredir? Não sei…povos

arcaicos merecem tiranos e não governos democráticos, povos que se dizem cristãos que na verdade são hipócritas. Quem somos nós para condenar os espartanos e os nazistas se fazemos igual?

Não evoluímos o bastante para respeitarmos as diferenças e para não causarmos sofrimentos desnecessários, sofrimentos que as pessoas deficientes passam por não haverem em nossas almas a liberdade que tanto o ser humano buscou e busca em suas idéias, muitas vezes, demagogas que não fazem e não faz a realidade. No que se diz a cultura, segundo o filosofo Foucault, antes de ver as idéias, as ciências ou as crenças, devemos buscar os excluídos dessa mesma sociedade. Os gregos exterminavam porque não éramos eficientes para as guerras, mas construíram ao longo desse processo, uma mitologia dentro da deficiência e limitação; na verdade, não éramos tão exterminados, pois os cegos e os surdos eram criados para serem oráculos e ser útil dentro das crenças populares. Como hoje somos úteis, hora como oráculos que passamos uma idéia da crença que se não for “bonzinho” nessa vida, na outra ou nessa vida mesmo, ficara aleijado. Não deficiente, nunca pessoa com deficiência, aleijado mesmo.  Só vestimos uma roupagem bonitinha cristã, mas quantos de nós somos ou fomos condenados por sermos castigo divino? Quantos morreram por maus tratos e foram abandonados nos conventos? Não esquecemos que segundo os Gêneses, Caim matou Abel e os filhos de Caim foram condenados por essa “heresia” de ter matado o irmão por ciúmes, então, quantos os cristãos e os judeus mataram por imperfeições e era irmãos a mesma coisa? Fora que tantos pais ou irmãos não falam com as pessoas deficientes por causa de suas deficiências, não respeitam sua vontade e não vêem neles, verdadeiros seres humanos? Onde vamos parar com isso? Se fossem tão tementes a Deus não matariam ou deixariam essas pessoas progredirem em espírito, sem importar com a limitação corporal e ver a inteligência que temos na realidade. Os gregos antigos, que não eram cristãos, poderia ter exterminado as pessoas deficientes, mas criaram alternativas para passar que se pode criar condição para superar tal limitação, eram tidos com um sentimento de superação.

Hefesto era o legado da imperfeição divina, mostrar que mesmo que o deus da forja, o deus dos ferreiros, era limitado. Ele era a figura da superação e a capacidade de superar a limitação de ser rejeitado num mundo que não gosta da imperfeição, somos animais que buscamos a perfeição e não a temos. Quantos marcharam para exterminar outros clãs ou outras nações por que não suportaram a diferença? Hefesto não fez guerra contra sua mãe Hera e nem seu pai Zeus, muito menos com seus irmãos, superou para ser aceito e mostrou que mesmo coxo, poderia produzir coisas úteis que seus irmãos poderiam usar. A religião cristã contra a vontade de Jesus de Nazaré, forjou a idéia e perfeição, a idéia que só podemos vencer pelo movimento e a perfeição (será que herdaram dos gregos?), que muitos pastores querem nos “curar” contrariando as leis divinas. Não é atoa que Nietzsche vai dizer que a religião cristã é decadente, porque forjou uma falsa igualdade e fez com que todos os mais fracos fossem ditos como “coitados”, mas os que eram fracos e não cristãos na verdade, eram os fortes e superavam, mostravam isso em seus mitos.

Os cristãos são os ressentidos de não ser superiores e terem dentro de si a Vontade da Potencia, cada célula nossa em vontade de superar, vontade de superar conceitos tão fracos e estúpidos. Então diante do fato de sermos ainda de uma cultura decadente, devo dizer que perdemos a essência de união e botamos no lugar a fé egoísta de só devo ser ajudado porque rezo mais alto. Será que nós deficientes quebraremos nossas correntes diante dessa decadência? A cultura em vez de evoluir ele desegenera, em vez de sermos tratados melhores, somos tratados igual ou muito piores, pois mesmo que culturas não cristãs matam os deficientes num ato de rejeição explicita, eles não são demagogos em não matar para usá-los em campanhas ou em indústrias de órteses e próteses. Como dizem, é a minoria com sentimento de maioria, uma minoria que joga idéias para alienar o ser humano.

O cristianismo pôs em nosso inconsciente a apologia da beleza, a beleza para o povo cristão é uma vaidade, é errado porque o povo cristão é ressentido. Mas não é o belo mais agradável? Mesmo quando somos deficientes, só os mais resolvidos vencem porque há uma confiança naquilo que fazemos, mas fazer o que nosso espírito pede e não receber esmolinhas de uma sociedade trágica e demasiada humana. Onde está a humanidade e igualdade cristã, onde nós nos encaixamos numa sociedade que valoriza a beleza e os bons costumes e rejeita os imperfeitos? Somos feitos para sermos o showzinho humano de competir e não progredir em espírito e conhecimento e sempre começar como um “ninguém” e se contentar de estar com os menos?

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Responses

  1. EU GOSTARIA DE ENCONTRAR UMA CADEIRA PARA PASSAR NA PORTA QUE MEDE 70CM. E DEVIDO A MINHA DEFICIÊNCIA NÃO PODE TER FERRO NO ENCOSTO.

    GRATA PELA ATENÇÃO.
    M.NAZARÉ ( FILHA DE IRENE).


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