Publicado por: Amauri Nolasco Sanches Junior e Marley Cristina Felix Rodrigues | 30 de junho de 2009

Cadeiras de banho e os movimentos

Afinidades entre cadeiras

Estava aqui pensando em minha cadeira de banho, que é toda feita em PVC, aquele plástico que eles fazem canos para o transporte de água. Muito boa e muito resistente, o melhor de tudo é que não tenho que me preocupar com ferrugem a parte; sinto que tive que me adaptar a ela, pois não foi feita para um deficiente com Paralisia Cerebral. Todo teste dela, com toda certeza, foi feita com um paraplégico, que alias, a maioria dos aparelhos são feitos testes por eles. Mas esse é uns dos muitos probleminhas que enfrentam os deficientes, pois nem mesmos os aparelhos tem um certo nível de igualdade; se estamos fazendo aparelhos para deficientes, tem e devem ser adaptados para deficientes em geral e não para uma parcela agregada de uma especifica deficiência.

Mas o caso é que pessoas não são de PVC, pessoas são de carne e osso  tem sentimentos, tem esperanças e em algum lugar deve encontrar uma saída. Não estou vendo em nenhum movimento, só escuto dizer que há uma desorganização dentro do próprio segmento e isso me deixa preocupado. Por que essa desorganização? Em primeiro, existe uma covardia inata dentro dos próprios movimentos; pois se temos que lutar pelos direitos das pessoas deficientes, temos que ver e conhecer tudo e não “achar” que temos dependência; então quer dizer que somente a sociedade tem que aceitar o deficiente e não sua própria família? A inclusão é um ato supremo familiar e não tem jeito, alguns movimentos até desperdiçam argumentos invocando uma condição de ignorância, mas se a aceitação não vier da própria família não se pode exigir da sociedade. Posso falar de um grande erro dos movimentos, o erro de deixar as próprias pessoas lutarem, as próprias pessoas se virarem; então, por que se fundam movimentos se não temos nenhuma estrutura emocional para esses? Eu estive em um movimento e sei como eles procedem em sua grande maioria.

Por dezoito anos estive engajado dentro de uns dos maiores movimentos que já vi em termos de luta da pessoa deficiente, talvez por tamanho, talvez pela ideologia arraigada de evangelismo e sonhos poéticos; na verdade é uma visão muito recente que faço dentro de tudo que passei, pois nos últimos anos desse engajamento que pude ver o que era verdadeiramente. Nos primeiros tempos nada sabia dessa luta, era um mundo a ser descoberto por mim, a ser descoberto e a ser explorado. Minha vida era só criticar e bagunçar sem preocupações, sem me importar o que o mundo pensava, só criticar e bagunçar sem preocupações, sem me importar o que o mundo pensava de mim e de minha deficiência. Esse movimento tinha o nome o seu ideal, o ideal de uma fraternidade de pessoas doentes e deficientes que lutaria por uma melhor igualdade dentro da luta e dentro do seguimento. Como todo movimento, partido político, religião institucional, há pessoas que levam a serio e seguem sua filosofia e há pessoas que vão só para tumultuar o coreto e nada contribuem. Mas a essência jamais deveria se perder, mas em alguns casos, perdem os ideais e ficam os interesses. Nos últimos oito anos, me identifiquei com seu ideal e comecei a lutar, indo no conselho municipal levando uma van (aqui em são Paulo existe um conselho municipal de deficientes que funciona dês do governo da Erundina, também existe um serviço municipal de vans que se chama ATENDE, são adaptadas e pegam de porta em porta, que foi instituída muito mais por pressão internacional do que por boa vontade política), onde acreditava em um ideal e poderíamos mudar alguma coisa. Dentro desse movimento há separações regionais geográficas, se moro na zona leste de São Paulo, por exemplo, irei participar no núcleo mais próximo e por ai vai; eu participava de um próximo meu bairro e por muito tempo lutei por esse núcleo. Fui primeiro adjunto (uma espécie de vice coordenador) e a um ano e dois meses fui eleito coordenador. Só que é assim, não gosto que as pessoas não me dê espaço para fazer meu trabalho e isso é inato dentro da minha natureza, então misturaram minha vida pessoal com minha vida de coordenador e ficou insuportável tal cargo.

Na minha visão existem muitas pessoas imaturas que ainda não entenderam o que é real democracia, pois não se fala em democracia sem ter ordem e sem essa ordem não existe progresso, como está em nossa bandeira. Nosso povo ficou mais de vinte anos num regime totalitário sem tomar decisões, também tem o fator que não há uma cultura de ler, então tudo que sabemos de democracia é de outros dizerem e assim fica uma visão distorcida do que realmente se é. Muitos nem sequer sabem ou leram obras socialistas, quem realmente formulou a teoria socialista em sua essência, que são Marx e Engel. Mas numa analise profunda, nem sempre um líder pode e deve trazer aos que lhe elegeram, uma assembléia para votar, pois não haveria necessidade para isso. Foi explicado por algumas lideranças bem mais antigas, pois se o coordenador acreditar que não haveria modo de uma festa, por exemplo, não precisariam levar e assembléia por falta de tempo. Bom, minha posição política e de vida é totalmente democrática, só que nem tudo a maioria está preparada para decidir, como ouve muitas pessoas que complicaram minha coordenação por imaturidade e não entenderam a maioria das minhas posições, eu decidi me retirar e não mais me sacrificar e nem a quem eu amo. Talvez a maioria não entenderam o que eu fiz, mas tomei uma decisão madura, pois antes de sacrificar minha saúde e minha vida pessoal (família e namoro), tive que recuar e não mais lutar por uma causa que já não era a causa em si mesma, mas uma gama de interesses de poder e ideológicos. O ser humano, como bem disse Aristóteles, é um animal político e age conforme seu próprio interesse.

Ao meu ver sobre o segmento, há muita divergências dentro dele, isso não vimos dentro dos movimentos de negros, das mulheres, e etc. O intuito também de todo movimento é ajudar as pessoas a e encontrar e ela decidir onde caminhos trilhar, mas tem que se apoiar tal caminho e tal decisão. O movimento de mulheres não vai de maneira nenhuma só apoiar a mulher se ela apanhar de um desconhecido ou se ela, procurando esses movimentos ou ONGs, vai ouvir que não poderão fazer nada e que o próprio individuo é agente de sua própria vida. Até reconheço que é bem da verdade que é isso mesmo, mas há um ponto a se refletir sobre, se é assim para que temos esse tipo de movimento? Para começar a grande maioria não sabe, ou não quer saber, de estudar as leis e os deveres que temos direitos. O principio do direito é, acredito, seja de todo ser humano dês da concepção até sua morte e então, no mínimo temos que conhecer quais os princípios que regem esse direito.

Esta é uma questão também de interpretação sistemática do que vivemos, podemos interpretar a vida difícil ou não, depende do que interpretamos. A questão de amadurecimento é muito mais psicológica do que uma questão de ordem pratica, porque existe pessoas que casam e tal e não são maduras ou que são mestres daquilo que fazem. Eu confesso que muitas vezes não tenho amadurecimento o bastante para levar a questão adiante, porque tudo que fizemos ou fazemos vão ter “frutos” mais adiante; é o tão famoso ação e reação que tanto é evidente.  Então talvez não deveríamos como se fazem por ai, fazer com os outros o que não queremos que façamos conosco, porque com toda certeza, voltará para você em dobro. Seria místico isso? Não sei não. Muitas pessoas ao longo de nossa história deram violência receberam também, deram amor e receberam amor, pois só recebemos o que estamos prontos a dar e isso vem sendo cogitado a séculos a fio. Também podemos afirmar que se trate de algo do tipo de linguagem que se pratica, pois se vamos tratar de escolher “maçãs” para um bolo, por exemplo, temos que associar o nome (apenas um signo) ao objeto que se é tratado, sem mais e sem menos. Ideologias também não seria um signo sistemático que a grande maioria segue? Resta a duvida e esta nos faz racionais a declarar que podemos sair de nossas próprias “cavernas” ideológicas e fazer esse tipo de comentário, fazer esse tipo de indagação.

Conclusão: podemos afirmar que nunca haverá e nunca houve nenhum ser humano que possa afirmar verdades e possa resolver todas as mazelas do mundo, pois as ideologias estão ai e nunca resolveram nada. Como disse acima, pessoas não são feitas de PVC, mas são feitas de sentimento e acredito que temos e somos a essência do criador. Portanto não podemos nos render aos “medos”, pois esses levam ao ódio e assim, brigas intermináveis acontecem. Não devemos nos render ao individualismo, mas reconhecer e exigir que os outros movimentos nos aceite, afinal existe negros com deficiência, mulheres com deficiência, homossexuais com deficiência e etc. pois fui no encontro da juventude no ano passado e muitos movimentos não puseram em suas pautas a deficiência, nós apesar de muitas discussões individualistas, pusemos algumas resoluções universais; onde está a verdadeira adesão a inclusão dos deficientes? Muito raro vejo nos olhos sinceridade e muito vejo “pena”, com raras exceções. Também não acredito nas cotas, essas são uma mentira, porque 5% pode ser muito bem contratado por deficiências que andam e não precisem de adaptações no local de trabalho; ou lhe dão um emprego fajuto só para ao pagar multas.

Outra farsa é entidades usarem o nome dos deficientes para pedir “esmolas” milionárias na TV e dizer que luta pela causa, pois não luta e sei muito bem que dizem essas coisas só para arrecadar dinheiro. Onde estão elas na questão familiar, onde bem sei, não fazem um acompanhamento psicológico ao desligarem? Onde está os movimentos que se esqueceram da verdadeira luta? Com toda certeza estão mais preocupados com a Avenida Paulista, do que outra coisa, como algumas vereadoras por ai.

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